Sem gosto, biscoito Globo é o símbolo perfeito da comida do Rio de Janeiro

David Segal

No Rio

  • Kim Badawi/The New York Times

Peça a Milton Ponce para descrever o sabor do biscoito assado pequeno e redondo que ele produz há mais de 50 anos e ele soa um pouco confuso. "Crocante, leve", ele diz por meio de um intérprete.

Hmm. Mas essas coisas não são sabores.

"Não tem conservantes", ele diz, tentando de novo. "Não tem corante, não tem gordura trans."

OK.

"Você não consegue parar de comê-los", ele prosseguiu, animando-se, como se tivesse encontrado a resposta. "Você come um e continua comendo."

Então tem gosto de...

"Após 50 anos o fabricando, não posso dizer qual é seu gosto", ele disse. "Nem mesmo percebo o cheiro, porque passo tempo demais aqui."

Para Ponce, "aqui" é uma fábrica de 450 metros quadrados no centro velho do Rio, onde ele, dois irmãos, um sobrinho e um pequeno grupo de funcionários produzem aquele que é conhecido como Biscoito Globo. ("Globo" é o nome da empresa, que não deve ser confundida com a gigante de mídia brasileira de mesmo nome, assim como a forma como todos chamam o produto.)

Os biscoitos produzidos neste espaço podem ser o alimento mais ubíquo da cidade, vendido em bancas de jornal e supermercados, assim como em uma rede chamada Casa do Biscoito. Ele está presente nas praias de Copacabana e Ipanema, onde é vendido por uma pequena brigada de vendedores ambulantes, muitos deles também vendendo chá mate.

Kim Badawi/The New York Times

Para o paladar americano, um Biscoito Globo é basicamente um Funyun gigante sem a cebola, ou o que você receberia se pedisse um Cheez Doodle sem o queijo. Ele tem uma textura crocante e nada mais, ar transformado em biscoito em formato de anel. Ponha um em sua boca e é como se seus dentes estivessem em uma festa para a qual sua língua não foi convidada.

"Realmente não tem muito sabor, mas mesmo assim é bom", disse Hugo Calderano, natural do Rio e membro da equipe olímpica de tênis de mesa do Brasil.

O Biscoito Globo faz portanto parte da grande tradição culinária de comestíveis regionais que deixa os forasteiros perplexos. Mas essa distinta ausência de sabor também o torna um símbolo perfeito da comida no Rio. Com a Olimpíada em curso, milhares de atletas e torcedores estrangeiros estão descobrindo o segredo infeliz desta cidade: a cena de restaurantes daqui pode ser descrita de forma mais caridosa como "meh".

Isso provavelmente surpreenderá os não-iniciados, que podem imaginar o Rio como uma resposta à Nova Orleans, uma cidade festeira que atende aos sentidos. Mas o paladar é um sentido que o Rio ainda não desenvolveu plenamente.

Primeiro, a ressalva obrigatória: há bares de sucos soberbos e baratos por toda parte. Ambulantes vendem churros que são derretidos e sublimes. A cidade também tem um punhado de restaurantes com estrela Michelin, e visitantes regulares, e mais do que alguns poucos moradores locais, juram que existem algumas gemas de preço médio e baixo, com cardápios inventivos, espalhados aqui e acolá. Também existem as sempre divertidas churrascarias, um gênero de restaurante onde os garçons circulam com facas e espetos de carne. Você paga um preço fixo e come até se fartar.

Kim Badawi/The New York Times

Mas não presuma que você encontrará um desses destaques por acaso. Sem um plano, você provavelmente parará em uma das muitas pizzarias abaixo da média da cidade, ou um estabelecimento japonês vendendo nigiris minúsculos. Inevitavelmente, você se deparará com um self-service, um restaurante por quilo com bufê de variedade desanimadora (saladas, massa e sushi?), além de grelhas de carne, frango e linguiça. Diga ao responsável pela grelha o que você quer e ele começa a fatiar.

Muitos restaurantes por quilo são uma boa forma de comer a um preço razoável, mas eles ressaltam que o culto dos ingredientes frescos, que tomou conta de outras cidades anos atrás, ainda precisa chegar aqui.

"A cidade nunca teve uma cena próspera de restaurantes", opinou uma edição recente da "Condé Nast Traveler" em um guia para o Rio. Então a revista listou um punhado de restaurantes que "não decepcionarão". Entre eles estava o Lasai, com estrela Michelin e que, vale a pena notar, oferece culinária basca.

Ao manter seus biscoitos quase que intencionalmente sem gosto, Ponce e seus colegas estão atendendo a um público que conhecem muito bem. Ele e seus irmãos abriram a Globo em meados dos anos 50 e, em 1963, percorriam as praias da cidade nos fins de semana distribuindo amostras.

Kim Badawi/The New York Times

Hoje, dezenas de vendedores ambulantes autônomos chegam cedo à padaria Globo, comprando uma embalagem com 50 sacos pelo equivalente a cerca de US$ 15 e os vendem pelo dobro ou triplo do preço. Há ambulantes regulares que fazem isto há décadas, como Carlos Robertos, 62, que disse que este é seu 31º ano. Ele parou para conversar enquanto se preparava para seguir para a praia, com o saco na mão.

"É o suficiente para sobreviver", ele disse sobre o dinheiro que ganha. Ele trabalha sete dias por semana no verão, com folga apenas quando chove. Ao ser perguntado sobre a última vez que tirou férias, ele disse que férias não são parte de sua vida. "Eu vendo o Globo quando viajo", ele explicou.

A padaria Globo é uma cozinha enorme que parece não ser reformada há décadas. Há uma parede de fornos industriais e um homem usando touca que insere neles bandeja atrás de bandeja do que parecem braceletes brancos moles. Quinze minutos depois, esses braceletes crescem cerca uma polegada. Dali, são resfriados e então ensacados.

Kim Badawi/The New York Times

Ponce tem dificuldade em dizer exatamente quanto biscoito ele produz por dia. Sua equipe começa a assar por volta das 5 horas da manhã e o último turno sai por volta das 21h.


O produto é familiar para muitos brasileiros; variações do biscoito são feitas em casa há décadas. Na praia de Copacabana, a recém-casada Marina Leal estava comendo de um pacote de Globo e tento um momento proustiano.

"Lembro de visitar minha tia e avó em Minas Gerais e elas faziam os biscoitos e os serviam com café. Há muitos tipos diferentes, mas aqueles que fazíamos em casa eram parecidos com estes. Um pouco maiores, mais duros. Mas com quase o mesmo sabor."

Leal só conseguiu rir quando perguntada para descrever o sabor.

Talvez os ingredientes ofereçam algumas pistas. A lista no pacote é a seguinte: polvilho azedo, água, gordura de coco, ovos, leite, sal e açúcar.

O "polvilho azedo" é farinha de mandioca, que vem de uma raiz nativa de mesmo nome. Isso vale a pena ser notado, pois se o Biscoito Globo tem algum sabor, a mandioca é sua fonte –e porque a presidente afastada do Brasil, Dilma Rousseff, elogiou a mandioca em um discurso no ano passado como uma das maiores realizações do Brasil, levando manifestantes antigoverno a acenarem mandioca em escárnio durante os protestos.

A Globo na verdade vende dois tipos de biscoito, uma versão doce, que vem em uma embalagem com arte com traços em vermelho, e a salgada, que vem em uma embalagem com arte com traços em verde. Sim, isso trai a noção de que os produtos são apenas crocantes e sem gosto, já que o sabor não é o mesmo. Mas as diferenças são sutis. Ponce disse que tudo se resume à proporção de açúcar e sal, já que os dois são ingredientes de ambos.

Alguns dos concorrentes colocam queijo e presunto em seus biscoitos, ele disse, mas ele não faz isso. Sim, a descrição do sabor do Globo é esquiva. Mas aparentemente, seu sabor também é.

"Sabemos que é único", ele disse, "porque nossos concorrentes tentam imitá-lo e não conseguem".

Anna Jean Kaiser e Catherine Osborn contribuíram com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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