Opinião: Quem dera se valorizássemos as crianças em Aleppo como os cães

Nicholas Kristof

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Na semana passada, a querida cadela de nossa família, Katie, morreu aos 12 anos. Ela era uma gigante gentil que deferia respeitosamente até mesmo ao cachorrinho mais minúsculo interessado em um osso. Katie poderia ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz se não fosse por sua fraqueza por esquilos.

Eu lamentei a morte de Katie nas redes sociais e recebi uma enxurrada de condolências tocantes, o que aliviou a dor da perda de um membro da família. Mas no mesmo dia em que Katie morreu, eu publiquei uma coluna pedindo por maiores esforços internacionais para colocar um fim ao sofrimento e à guerra civil na Síria, que talvez já tenha tomado cerca de 470 mil vidas até o momento. Aquela coluna levou a uma enxurrada diferente de comentários, muitos envoltos em dura indiferença: por que deveríamos ajudá-los?

Eles se misturaram na minha conta no Twitter: condolências sinceras por uma cadela americana que morreu de velhice e o que me pareceu uma insensibilidade em relação a milhões de crianças sírias enfrentando fome ou bombardeios. Quem dera, pensei, valorizássemos as crianças em Aleppo tanto quanto nossos terriers!

Por cinco anos, o mundo permaneceu em grande parte paralisado enquanto o presidente Bashar Assad massacrava sua população, nutrindo por sua vez a ascensão do Estado Islâmico e o que o governo americano chama de genocídio cometido pelo EI. Foi por isso que argumentei em minha coluna, na semana passada, que a passividade do presidente Barack Obama em relação à Síria foi seu pior erro, uma sombra sobre seu legado.

A coluna provocou desacordo passional por parte dos leitores, então permita-me tratar dos argumentos destes.

"Não há nada em nossa Constituição que diga que somos os salvadores do mundo de todos os loucos que existem por aí", notou um leitor de Saint Louis. "Não vejo nada de bom em desperdiçar um trilhão de dólares para tentar remontar o Humpy Dumpty. Compaixão excessiva com frequência causa mais mal do que bem."

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Concordo que não podemos resolver todos os problemas do mundo, mas não isso significa que não devemos tentar resolver nenhum. Teria sido errado durante o Holocausto tentar bombardear as câmaras de gás de Auschwitz? O presidente Bill Clinton errou em intervir no Kosovo para evitar um genocídio potencial ali? Obama esteve errado há dois anos, quando ordenou ataques aéreos perto do Monte Sinjar, na fronteira Iraque-Síria, aparentemente evitando o massacre dos yazidis que vivem ali?

Concordo que não devemos enviar forças terrestres à Síria ou investir um trilhão de dólares. Mas por que não, como muitos sugeriram, disparar mísseis de fora da Síria para destruir as pistas de pouso e decolagem militares e manter a força aérea síria presa em solo?

Um leitor de Delaware comentou: "Eu entendo você, Nicholas, mas até o momento toda aventura no Oriente Médio não deu bons resultados para o mundo". Igualmente, argumentou um leitor de Minnesota, "com certeza a experiência de George W. Bush nos ensinou algo".

Permita-me rebater. Fui contra a guerra no Iraque, mas para mim o público parece ter aprendido a lição errada, a de que intervenção militar nunca funciona, em vez da lição mais complexa de que é uma ferramenta dura e cara, com resultado não garantido.

Sim, a guerra no Iraque foi um desastre, mas a zona de exclusão aérea no norte do Iraque após a primeira guerra no Golfo foi um enorme sucesso. O Vietnã foi uma catástrofe monumental, mas a intervenção britânica em Serra Leoa, em 2000, foi um sucesso espetacular. O Afeganistão continua uma confusão, mas ataques aéreos ajudaram a por fim ao genocídio nos Bálcãs. O apoio americano ao bombardeio saudita no Iêmen é contraproducente, mas Bill Clinton disse que seu pior erro de política externa foi não ter impedido o genocídio em Ruanda.

E mesmo se descartarmos as ferramentas militares, que desculpa temos para não termos tentado com mais empenho dar às crianças refugiadas sírias uma educação nos países vizinhos, como a Jordânia e o Líbano? Privar as crianças refugiadas de educação prepara o terreno para mais tribalismo, pobreza, inimizade e violência.

Reconheço que esburacar as pistas aéreas e o estabelecimento de uma zona de segurança (até mesmo fornecer educação aos refugiados) não necessariamente funcionariam como esperado, e Obama está certo em se preocupar em se ver em um declive escorregadio. Mas essas preocupações devem ser pesadas contra as vidas de centenas de milhares de crianças, particularmente agora que confirmamos que genocídio está em curso na Síria.

Um motivo para genocídios anteriores terem prosseguido sem interferência externa é que não havia uma ferramenta de política perfeita para impedir a matança. Outra é que as vítimas não se parecem "conosco". São judeus, negros ou, neste caso, sírios, então nos desligamos.

Mas, na verdade, como até mesmo os cães sabem, um ser humano é um ser humano.

Pergunto-me o que aconteceria se Aleppo estivesse cheia de golden retrievers, e se víssemos bombas de barril aleijando filhotinhos inocentes indefesos. Nós ainda endureceríamos nosso coração e trataríamos as vítimas como se fossem "outros"? Ainda diríamos "é um problema árabe, que os árabes o resolvam"?

Sim, soluções na Síria são difíceis e incertas. Mas acho que até mesmo Katie, em sua sabedoria gentil, teria concordado que não apenas todas as vidas humanas têm valor, como também que uma vida humana vale tanto quanto a de um golden retriever.

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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