Como são os bastidores para se confirmar uma notícia da Coreia do Norte

Choe Sang-Hun

Chefe da sucursal em Seul (Coreia do Sul)

  • Kim Hong-Ji/ Reuters

    Vendedor vê TV com a notícia sobre o quinto teste nuclear realizado pela Coreia do Norte, na sexta-feira (9). Na tela da TV, à direita, está o ditador norte-coreano Kim Jong-un

    Vendedor vê TV com a notícia sobre o quinto teste nuclear realizado pela Coreia do Norte, na sexta-feira (9). Na tela da TV, à direita, está o ditador norte-coreano Kim Jong-un

Se o quinto teste nuclear feito pela Coreia do Norte na última sexta-feira (9) abalou os políticos de fora por demonstrar os avanços tecnológicos do programa armamentista do país, também lhes lembrou como é difícil analisar um dos países mais isolados e sigilosos do mundo.

Nem mesmo nós, na Coreia do Sul, prevíamos o que iria acontecer na manhã de sexta-feira até que monitores europeus de sinais sismológicos relataram um tremor que emanava do local de testes de Punggye-ri. A presidente sul-coreana, Park Geun-hye, teve de abreviar sua visita de Estado ao Laos. O primeiro-ministro e o ministro da Unificação, que viajavam pelo interior, tiveram de voltar às pressas a Seul.

Há meses, o Ministério da Defesa daqui havia dado a resposta padrão --e a mais segura-- quando perguntado sobre a probabilidade de mais um teste nuclear do Norte: o país estava pronto para realizar um a qualquer momento, desde que seu líder, Kim Jong-un, desse a aprovação.

Essa resposta, porém, é dificilmente satisfatória para nós que cobrimos a região e vivemos ao alcance do ataque de mísseis norte-coreanos, que Kim tenta equipar com ogivas nucleares.

Mas é muitas vezes um exercício infrutífero tentar prever os acontecimentos na Coreia do Norte. Estar em constante alerta, prontos para surpresas, é o rumo mais seguro.

Lembro-me de como fiquei assustado quando a Coreia do Norte anunciou a morte do pai e antecessor de Kim, Kim Jong-il, em 2011. E o "New York Times" não foi a única organização apanhada desprevenida: agências de inteligência externas não souberam da morte do líder até que Pyongyang a anunciou, dois dias depois. Muitos jornalistas e autoridades graduadas do governo, incluindo assessores presidenciais, tinham saído para almoçar quando uma apresentadora apareceu na televisão norte-coreana e leu a notícia, com voz chorosa.

A notícia do último teste nuclear do Norte foi menos dramática, mas ainda pegou de surpresa muita gente, inclusive este repórter.

O que se sabe sobre o programa nuclear da Coreia do Norte

Há décadas, satélites espiões dos EUA vêm rastreando os locais militares da Coreia do Norte, incluindo Punggye-ri, onde foram conduzidos todos os testes nucleares subterrâneos anteriores. Nos últimos anos, grupos de pensadores privados também verificaram o lugar, contando com imagens de satélites comerciais. Os resultados, entretanto, são muitas vezes inconclusivos.

Alguns canais de mídia estrangeiros, como as agências de notícias Associated Press e a japonesa Kyodo, operam escritórios em Pyongyang, a capital norte-coreana. Mas seus repórteres não podem se encontrar com moradores ou viajar livremente.

Os que tentam reportar sobre a Coreia do Norte de fora às vezes falam com fontes --muitas vezes pagas-- do Norte, mas os relatos dessas fontes em geral não podem ser verificados. Repórteres do exterior muitas vezes também contam com desertores do país, mas poucos chegam com acesso a informações valiosas sobre seu programa nuclear ou os principais líderes.

E, é claro, toda a mídia noticiosa da Coreia do Norte é controlada pelo Estado, o que torna difícil separar fatos de propaganda.

O Serviço Nacional de Inteligência (SNI) da Coreia do Norte é uma fonte habitual de notícias do país para a mídia sul-coreana --que, por sua vez, é muitas vezes reembalada pela mídia internacional, alimentando uma alta demanda por atualizações. O SNI com frequência vaza informação para vários representantes da mídia local, insistindo que seja atribuída a uma fonte anônima. No dia seguinte, os canais de mídia locais oferecem relatos idênticos --e o escritório do porta-voz do SNI se recusa a confirmar a informação quando procurado por repórteres de organizações estrangeiras.

Mas analistas advertem que a falta de neutralidade política da agência muitas vezes altera suas informações.

O governo da Coreia do Sul, especialmente o SNI, foi acusado de vazar informações selecionadas --ou mesmo incompletas e não verificadas-- sobre o Norte para ajudar a influenciar a opinião pública interna e promover suas políticas.

Nos últimos meses, ele tomou a medida incomum de anunciar deserções de pessoas graduadas do norte e a execução de autoridades de lá, invariavelmente citando-as para retratar o Norte como instável e desesperado sob o governo de Kim.

Andray Abrahamian, um especialista em Coreia do Norte que trabalha para a Bolsa de Choson, advertiu recentemente que rumores não confirmados sobre a Coreia do Norte chegam ao público por meio da mídia noticiosa estrangeira.

"A opacidade da Coreia do Norte torna aparentemente fácil lançar rumores sobre o que pode estar ocorrendo lá, pois a corroboração com frequência parece demasiado difícil", escreveu Abrahamian. "Há um grande interesse do leitor pela Coreia do Norte, especialmente por notícias degradantes, o que torna muito difícil para os jornalistas e editores resistirem a repetir um boato quando estão longe da história e portanto são menos responsáveis por ela."

O que tudo isso significa para um chefe de sucursal do "NYT" em Seul? Como isso afeta minha reportagem?

Uma das primeiras coisas que faço quando vejo uma notícia dramática se espalhar pela mídia é rastrear sua origem. Com frequência, ela começa com um relato na mídia sul-coreana baseado em uma única fonte anônima, e eu tento avaliar o histórico do canal de mídia e seu possível viés ideológico.

É chocante ver como um relato ou boato desses pode mudar, ser distorcido e ampliado, conforme é reembalado por outros canais de mídia no exterior. (Um exemplo recente é a infame matéria sobre "Kim Jong-un deu seu tio para os cachorros comerem".)

Diante da incerteza e da sensibilidade que rodeiam a Coreia do Norte, as autoridades daqui habitualmente usam o anonimato quando falam com a imprensa. Isto, por sua vez, significa que matérias de fontes anônimas são frequentes na mídia sul-coreana, especialmente quando o relato envolve a Coreia do Norte. Respeitar as rígidas diretrizes do "New York Times" sobre o uso de fontes anônimas significa esforços extras para alcançar e verificar as fontes, sempre tentando encontrar as que se dispõem a identificar-se --e com frequência deixar matérias sem publicar. (Muitas vezes leva semanas e até meses para que uma história dessas seja confirmada ou desmentida de forma independente. Então ela já foi esquecida.)

A verdade é que não há uma maneira totalmente segura de fazer reportagens sobre a Coreia do Norte. Mas é útil lembrar que os dois governos na península da Coreia estão em um impasse militar há décadas, e que o Norte é governado por um líder jovem, ambicioso e cultuado, obcecado por garantir a sobrevivência dele e de seu regime construindo um arsenal nuclear.

Isso ajuda a explicar o que eu considero uma coerência notável no comportamento e nos pronunciamentos do Norte considerados em longo prazo.

Mas não ajuda a mim, ou a ninguém, a prever as notícias da Coreia do Norte para amanhã.

Coreia: uma península dividida em dois; entenda

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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