Cidade do Haiti finalmente via prosperidade, até a chegada do furacão Matthew

Azam Ahmed

Jérémie (Haiti)

  • Hector Retamal/AFP Photo

    Jérémie havia recebido sua primeira ligação decente com o resto do país e vivia uma era de desenvolvimento, mas o furacão brecou a prosperidade da cidade costeira

    Jérémie havia recebido sua primeira ligação decente com o resto do país e vivia uma era de desenvolvimento, mas o furacão brecou a prosperidade da cidade costeira

As coisas pareciam estar melhorando em Jérémie, uma cidade costeira isolada, na ponta da península no sul do Haiti. Ela havia recebido há pouco tempo sua primeira ligação decente com o resto do país, uma nova estrada que atravessa as montanhas acidentadas e trouxe o desenvolvimento.

O serviço de telefonia celular finalmente havia começado, permitindo que os agricultores e as empresas florescessem. A cidade corria para o século 21, sonhando com a agricultura avançada e o turismo em uma das poucas reservas naturais do Haiti.

Mas o furacão Matthew inverteu o relógio.

As ricas florestas e a vegetação agora são lascas de madeira e um pântano salobro. As estradas estão bloqueadas por detritos, árvores arrancadas, casas reduzidas a montes de pedra e placas de lata enferrujada, arrancadas dos telhados. Os ambiciosos planos econômicos de Jérémie foram virados do avesso.

"Em vez de seguir em frente, temos de recomeçar", disse Marie Roselore Auborg, ministra do Comércio e Indústria do Departamento de Grand Anse, cuja capital é Jérémie. "Esta tempestade arrasou todo o potencial que tínhamos de crescer e revigorar nossa economia."

É difícil avaliar o preço cobrado pelo furacão Matthew no Haiti. Os números de mortos e feridos, as pessoas ainda desabrigadas, os casos de cólera contraídos na semana desde que os ventos de 230 km/hora sopraram o país de volta a uma situação de desastre, tragicamente familiar.

Carlos Garcia Rawlins/Reuters
População recolhe destroços após passagem do furacão Matthew em Jérémie

Também é incalculável o impacto econômico da devastação no país mais pobre do hemisfério ocidental.

Para Jérémie, isolada e subdesenvolvida durante décadas, a história recente foi relativamente benigna, trazendo novos hotéis e uma robusta colheita de café. Mas, como ocorreu com frequência no passado, sempre que o Haiti começa a se recuperar algo parece derrubá-lo novamente, incluindo, e talvez especialmente, as forças da natureza.

"Em 2010, antes do terremoto, tivemos um índice de crescimento de 5,7%", disse Jude Célestin, um candidato à Presidência que percorreu a área devastada no domingo (09) à tarde. "É o mesmo em Jérémie. Estava crescendo. Pessoas de Port-au-Prince estavam investindo aqui."

Enquanto uma multidão gritava ao fundo, tentando se aproximar do candidato aos empurrões, Célestin olhava ao redor as casas arrancadas dos alicerces e os montes de entulho que chegavam à altura de seus ombros.

"E agora isto", disse ele, balançando a cabeça. "Assim são as coisas."

AP/Dieu Nalio Chery
Moradores aguardam a chegada de embarcações trazendo água e alimentos em Jérémie

A visão em Jérémie era conhecida --uma devastação mais profunda que a soma de suas partes. Água malcheirosa se acumulava junto do único acesso à cidade, e praticamente tudo tinha sido arrasado nos morros no percurso do vendaval --árvores, casas, torres de celular. Helicópteros e comboios de veículos esportivos-utilitários chegaram à cidade no domingo, enchendo-a de trânsito depois da reabertura da rodovia, que ficou bloqueada durante a maior parte da semana.

Recolher os mortos em Jérémie tornou-se um cruel passatempo. A conta do governo para toda Grand Anse era de 191 no domingo, mas segundo os moradores o número é mais próximo de 450, e o duro trabalho de contagem apenas começou. Novos surtos de cólera foram relatados em trechos do sul que ainda eram inacessíveis por estrada, e dezenas de vítimas estariam se dirigindo aos hospitais a pé em busca de tratamento.

Em Jérémie, o cólera pode ser um dos piores efeitos do furacão. De todos os departamentos do Haiti, Grand Anse tem menos acesso a água potável e saneamento moderno, segundo o Banco Mundial. O odor de fezes e água podre enche as ruas mais próximas da beira-mar, uma receita para uma crise prolongada.

Dieu Nalio Chery/AP
Vítimas de cólera recebem tratamento em hospital em Jérémie

Por enquanto, porém, os moradores estavam mais concentrados no problema imediato do abrigo.

Gary Guerrier, 36, um professor escolar, viu o furacão rasgar o telhado metálico de sua casa, deixando a ele, sua mulher e sua filha de poucas semanas expostos aos elementos. Depois de ser empurrado de volta duas vezes pelos ventos furiosos, ele finalmente enrolou a criança em uma trouxa de lençóis e a levou até a casa de um vizinho.

"Ainda estou em estado de choque", disse Guerrier. "Tivemos sorte de não perder ninguém. Mas quanto às coisas materiais, perdi tudo."

As casas em Beaumont, cidade nos arredores de Jérémie, sofreram ainda mais. Construídas com pedras brancas e barro vermelho, elas não suportaram o vento e a chuva forte, e poucas restaram de pé depois que a tempestade passou, entre os cafeeiros e laranjeiras derrubados.

Os moradores das áreas mais altas nos morros ainda procuram parentes, enquanto os que moravam mais abaixo já enterraram seus queridos.

"Encontramos meu pai em sua casa, com vários ossos quebrados", disse Desir Luckner, 49, apontando para o que sobrou da casa --uma fundação de concreto com um único esteio de madeira ainda de pé. "Nós o carregamos morro abaixo para procurar ajuda, mas ele morreu no caminho."

Cólera se espalha por um Haiti devastado por furacão

Apesar de todas as vidas ceifadas, a cidade de Jérémie fervia no domingo. Vendedores se espremiam entre os destroços junto às ruas, oferecendo pãezinhos e cebolas caras, obtidas magicamente em algum lugar. Algumas empresas funcionavam, a maioria por necessidade, para começar a recuperar o que perderam.

Claudia St. Louis abriu sua pequena padaria e vendia comparettes, um pão doce local, para os que podiam pagar.

"Perdi minha casa, mas tenho de continuar em frente, é meu ganha-pão", disse ela, espantando as abelhas que tiveram a colmeia esmagada pela tempestade. "Haverá menos pessoas para comprá-los agora, mas não há nada que possamos fazer sobre isso."

St. Louis disse que sua firma estava pujante antes do furacão, com um crescimento das vendas de 50% no ano passado, e ela pretendia expandir os negócios para outros artigos de padaria e talvez até abrir uma loja de cosméticos.

"Agora não posso mais", disse.

O chefe da Câmara de Comércio de Grand Anse, Monode Joseph, disse que a situação ficará terrível por algum tempo. Juntamente com as lojas, hotéis e pequenos restaurantes que dão encanto à cidade, os agricultores da região estão lutando, segundo ele.

Joseph viajou a Port-au-Prince, a capital haitiana, depois da tempestade para pedir aos investidores que continuem apoiando os plantadores de café e de feijão da região, enquanto tentam recuperar suas terras e recomeçar.

"As pessoas estavam começando a se organizar melhor, o que aumentava nossos negócios", e ele convenceu os investidores no ano passado a colocar mais capital, disse Joseph. "Vai ser difícil conseguirmos o crédito de que precisamos agora", afirmou ele.

Sem esse dinheiro, as repercussões para a agricultura serão catastróficas. "Nem sequer sabemos o que se perdeu", disse. 

Haiti decreta luto pelos mortos do furacão Matthew

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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