Obama Highway tenta mudar história de racismo de cidade na Flórida

Dan Barry

Em Riviera Beach, Flórida (EUA)

  • Todd Heisler/The New York Times

    Cruzamento entre as ruas Martin Luther King e President Barack Obama em Riviera Beach, na Flórida (EUA)

    Cruzamento entre as ruas Martin Luther King e President Barack Obama em Riviera Beach, na Flórida (EUA)

A estrada rebatizada corre ao lado de uma linha ferroviária de carga, cortando um canto modesto do condado de Palm Beach e um trecho considerável da alma sulista. Ela costumava ser chamada de Old Dixie Highway.

Mas agora esse trecho de pouco mais de três quilômetros, que corta a comunidade de maioria negra de Riviera Beach, tem um novo nome. Agora, quando os visitantes quiserem comprar comida para viagem no Rodney's Crab, ou rezarem na Igreja Miracle Revival Deliverance, elas tomam a President Barack Obama Highway.

Nossa jornada nacional por essa estrada está chegando ao fim, oito anos de borrão e rastejar. Aquela posse histórica envolta em esperança. Os pedidos como sirenes por mudança. As grandes ambições atrapalhadas ou bloqueadas pela recessão e o momento, por um Congresso inflexível e pela indiferença do homem.

Guerra, recuperação econômica, reforma da saúde, Osama Bin Laden. Tiroteios em massa, em uma casa noturna, em uma igreja, em uma escola primária. O entendimento de que ainda há tanto a superar, diante de todas as Fergusons, diante de todos aqueles que descaradamente até mesmo questionaram se nosso primeiro presidente negro era de fato americano de nascença.

Sua oratória elevada. Seu arremesso no basquete. Seu cabelo ficando grisalho. Sua família. Sua inteligência. Suas lágrimas.

A presidência de Obama, que terminará em três meses, será homenageada de muitas formas, mais notadamente com a construção planejada de uma biblioteca presidencial em Chicago. Mas em locais populosos ou isolados por todo o país, o nome dele também tem sido discretamente incorporado na vida cotidiana, de modos distantes da política e dos assuntos mundiais.

É possível encontrar uma aranha de alçapão (Aptostichus barackobamai) em certas partes da Carolina do Norte, ou ver um peixe laranja e azul com barbatana brilhante (Etheostoma obama) nadando no rio Tennessee, ou um líquen (Caloplaca obamae) de cor dourada na Ilha de Santa Rosa, além da costa da Califórnia.

Todd Heisler/The New York Times

Também é possível visitar a Academia Barack Obama em Plainfield, Nova Jersey, ou a Academia Barack Obama de Liderança Masculina em Dallas, ou a Academia Barack Obama de Estudos Internacionais, em Pittsburgh. É possível dirigir pela Avenida Barack Obama em East Saint Louis, ou pela Obama Way, em Seaside, Califórnia, assim como pela President Barack Obama Highway aqui em Riviera Beach, a apenas 16 quilômetros e outra realidade da propriedade Mar-a-Lago de Donald Trump.

Esta estrada Obama passa pela realidade complexa dos Estados Unidos: empresas de propriedade familiar e estabelecimentos comerciais abandonados, uma igreja, uma loja de bebidas alcoólicas, postos de gasolina, lojas de conveniência, um campo de futebol americano, uma creche, uma empresa manufatureira de porte médio que está sendo ampliada e está contratando.

"Tudo pelo que o presidente lutou e continua lutando está ali", diz o prefeito, Thomas Masters.

Os moradores mais velhos de Riviera Beach se lembram de uma época, há não muito tempo, em que deviam evitar o lado leste da Old Dixie Highway após escurecer, por ser o lado branco da cidade, e ficar circulando por lá não resultaria em nada de bom.

O lado oeste era para os moradores negros, os homens que trabalhavam com peixes nas docas, das mulheres que trabalhavam como empregadas domésticas nos lares elegantes de Palm Beach.

O único pedaço branco no lado negro era uma subdivisão chamada Monroe Heights, que era separada (ou protegida) por um muro alto de blocos de concreto construído nos anos 1940. Se sua bola caísse do lado branco do muro, era melhor arrumar outra bola.

Todd Heisler/The New York Times
O prefeito Thomas Masters aparece em uma foto com o presidente Barack Obama (abaixo, à direita), em Riviera Beach


"Eles levantaram o muro para nos impedir de olhar para eles", diz Dan Calloway, 78 anos, um ex-vice-xerife e atleta reverenciado em Riviera Beach por seu meio século ensinando e orientando as crianças locais.

O glaucoma que afeta a visão de Calloway não reduziu a nitidez da Riviera Beach de sua juventude: as mangueiras e goiabeiras, as galinhas, o policial montado a cavalo que aplicava seu chicote nos negros; isto é, até que um homem chamado Shotgun Johnny o derrubou de seu cavalo e eliminou o ódio dele na porrada.

Calloway também se recorda de como a praia "negra" foi deslocada para Jupiter quando Singer Island de repente se tornou atraente, e como a Ku Klux Klan ocasionalmente anunciava a si mesma.

"Eles botavam fogo naquelas cruzes", diz Calloway. "Nós tínhamos de apagar as lamparinas e nos esconder debaixo da cama."

Dora Johnson, 88, se recorda de uma cruz que iluminou a Old Dixie Highway. Foi por volta de 1948 e ela era casada e com dois bebês.

"Meu Deus, ela era alta", ela diz do símbolo de sua fé em chamas. "Era muito perturbador. Sou profundamente cristã, mas ao ver aquilo, você se desesperava e tinha vontade de fazer algo que não deveria."

Mas mudanças vieram com o passar do tempo. Em 1962, F. Malcolm Cunningham Sr. se tornou o primeiro negro eleito vereador e, segundo alegam alguns, o primeiro negro eleito no Sul desde a Reconstrução (o período pós-Guerra Civil). Ao final daquela década, a cidade passou a ser predominantemente negra e, em 1975, teve seu primeiro prefeito negro.

A ideia de rebatizar a estrada em homenagem ao primeiro presidente negro do país surgiu após uma sessão da Câmara Municipal logo após a vitória de Obama em 2008. Um cidadão levantou a perspectiva antes de a discussão prosseguir em um supermercado local. A sugestão não deu em nada.

Ela foi ressuscitada dois anos atrás pelo incansável Masters, 64 anos, que seguiu por um caminho tortuoso até a política. Bispo de uma igreja sem denominação, ele começou a pregar aos 4 anos (ele já foi chamado de "Pregador Menino Prodígio") e desde então demonstrou talento para publicidade.

Todd Heisler/The New York Times
Dora Johnson, 88, se lembra das cruzes da KKK pegando fogo na Old Dixie Highway

Masters não é natural de Riviera Beach. Ele se mudou da Califórnia para cá há cerca de 30 anos. Mas como negro, ele ficava incomodado pela constante celebração do "Old Dixie" (o Velho Sul) passar pelo centro de sua cidade predominantemente afro-americana. "Dixie significa escravidão, racismo, KKK", ele diz.

Enquanto pesquisava a história de sua cidade adotada, diz o prefeito, ele conversou com uma mulher grisalha em uma cadeira de rodas, Johnson, que teve prazer em contá-la para ele. "Eu quis lhe contar sobre as cruzes em chamas, porque não restam muitos de nós", ela diz. "Tanta coisa já aconteceu na Old Dixie."

Masters decidiu rebatizar o trecho da estrada que passa por sua cidade, conseguiu o apoio da comunidade e apresentou a proposta à Câmara Municipal. A votação foi de 4 a 1 a favor, e o único membro contrário era também a única branca: Dawn Pardo. Mas não a prejulgue.

Pardo, que cresceu em Nova York, diz que votou contra o plano porque imaginava um tributo maior e mais ambicioso, talvez a marina multimilionária recém-reformada da cidade. O monumento ou a mudança de nome da estrada também poderiam homenagear vários negros importantes do passado de Riviera Beach.

"Se vamos homenageá-lo, que seja algo grande", ela se recorda de ter argumentado.

Mas o prefeito venceu. Em uma cerimônia em dezembro, os moradores vibraram quando os operários de capacete trocaram a sinalização. Isso significou, entre outras coisas, que o tráfego fluiria pelo cruzamento das ruas de Riviera Beach que levam os nomes do reverendo Martin Luther King Jr. e Obama.

"Isso fez com que me sentisse muito bem", diz Johnson, que foi uma convidada de honra no evento. "Agora não preciso pensar mais na Old Dixie."

Mas a realidade americana se impôs de novo. A notícia da mudança do nome se espalhou muito além da Flórida e começaram a chegar os e-mails e telefonemas.

"Se vocês querem homenagear um negro, que homenageiem negros que estão lutando pelo nosso país, não contra..."

"'Aquele Ali' tem sorte de eu não estar depondo em um julgamento..."

"Por que todos estão tão dispostos a mudar o nome da estrada? Não entendo. Muitos negros sulistas estão presos demais ao passado..."

E muitos foram muito, muito piores. Ruins o bastante para Master precisar alertar o Serviço Secreto.

Todd Heisler/The New York Times
O prefeito Thomas Masters posa diante de muro de concreto que separava a subdivisão branca da subdivisão negra em Riviera Beach durante os anos 1940


"O ódio ao presidente é por ele ser quem é", diz o prefeito. "A coisa ficou tão feia que chegaram a fazer ameaças diretas ou indiretas: 'Ele precisa ser enforcado em um poste'."

Os telefonemas e e-mails raivosos se tornaram gritos distantes, permitindo que Riviera Beach incorporasse em seu vocabulário um nome de rua que significa quase o oposto de Old Dixie. Isso significa a alteração de material timbrado e, é claro, também representa um desafio para as empresas que tentam orientar seus clientes.

"Todo mundo aqui conhece a Old Dixie?" diz Rodney Saunders. Ele é o dono da Rodney's Crabs, um restaurante na estrada que atende pedidos para viagem, a poucas dezenas de metros do que restou dos velhos blocos cinzentos de cimento da velha Monroe Heights que desaparecem às sombras dos pés de uva-da-praia.

"Quando as pessoas me perguntam por direção", prossegue Saunders, "eu digo: 'A Old Dixie, mas que agora se chama President Barack Obama Highway'".

Algumas pessoas ao longo da estrada consideram a mudança de nome um gesto bacana e benigno. Algumas disseram que nunca se ofenderam com Old Dixie, pois era apenas um nome. Algumas simplesmente deram de ombros, como se sugerindo que um novo nome de rua importa mais para pessoas de fora da cidade do que para os moradores locais.

Mas Calloway, o técnico lendário e mentor com problemas de visão, diz que consegue ver o futuro (daqui 20, 30 ou 40 anos), quando uma decisão de há muito tempo fará com que as crianças queiram saber a história por trás do nome em uma placa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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