Como Trump usou Hollywood para criar o fenômeno "Donald Trump"

Katie Rogers

  • Frederic Brown/AFP

    Multidão observa enquanto a estrela de Donald Trump na Calçada da Fama é limpada após ter sido vandalizada, em Hollywood

    Multidão observa enquanto a estrela de Donald Trump na Calçada da Fama é limpada após ter sido vandalizada, em Hollywood

A maioria dos políticos têm um registro público de discursos e votações sobre as questões do dia, mas Donald Trump, o candidato republicano à presidência, deixou um tipo diferente de registro: uma presença quase constante em programas de TV, documentários, concursos de beleza e até mesmo eventos de luta livre profissional ao longo de 30 anos.

Sua primeira aparição na televisão aparentemente foi uma ponta não creditada em 1981 no seriado "The Jeffersons". Desde então, Trump agarrou oportunidades para criar um personagem recorrente ao longo de três décadas: um bilionário de Nova York com mania de grandeza chamado Donald Trump. Suas aparições incluem inúmeros seriados de TV ("The Nanny", "Fresh Prince of Bel-Air", "Sex and the City") e filmes ("Esqueceram de Mim 2", "Zoolander" e "Celebridades", de Woody Allen).

Incluindo suas muitas entrevistas em talk shows noturnos, aparições em concursos de beleza e eventos de luta livre profissional, além de um papel recorrente em seu reality show "O Aprendiz", ele possui centenas de créditos, de acordo com o IMDb (Internet Movie Database). Suas pontas memoráveis foram reunidas em pelo menos uma compilação no YouTube.

O registro público criou problemas para Trump como candidato. Foi uma participação no "Access Hollywood" de 2005 que causou sérios danos à sua campanha no começo deste mês. Um áudio vazado de bastidores no qual Trump usava uma linguagem vulgar e obscena para descrever mulheres e seu comportamento em relação a elas, fez com que uma série de mulheres se expusessem e alegassem que ele as havia agarrado ou tratado de alguma outra forma inapropriada.

Menções frequentes sobre a Presidência em programas de entrevista

O interesse de Trump na presidência foi entremeado em sua persona de cultura pop por décadas. Em 1988, quando os tabloides cobriam seu turbulento casamento com Ivana Trump, ele começou a falar sobre suas aspirações presidenciais no circuito de programas de entrevistas.

Quando Oprah Winfrey perguntou se ele planejava concorrer, Trump respondeu: "Provavelmente não, mas eu fico de fato cansado de ver o país sendo enganado".

E disse ainda: "Acho que eu venceria. Vou te dizer uma coisa, eu não entraria nessa para perder."

Pouco depois das eleições de 1988, Trump disse a David Letterman que ele estava cogitando concorrer à Presidência.

"Não tenho certeza de que você queira ver os Estados Unidos se tornando um vencedor", Trump disse a Letterman.

Esse vaivém continuou por anos.

"Essa é mais uma campanha de mentira?", Letterman perguntou a Trump no ano passado em seu "Late Show", "ou você realmente vai concorrer?"

Todos nós sabemos o que isso virou.

Em uma entrevista recente ao "NYT", Letterman descreveu o relacionamento deles como basicamente amigável, mas disse que Trump é uma "pessoa com problemas" por causa de seu comportamento durante a campanha.

Nos seriados e filmes, um símbolo de riqueza, impiedade e Nova York

Trump quase sempre fez o próprio papel. Ele ganhou um prêmio Framboesa de Ouro em 1989 por representar "Donald Trump" em "Ghosts Can't Do It", uma comédia romântica.

Entre 1989 e 2004 ele apareceu em pelo menos 10 filmes como ele mesmo, ou algo parecido. Fosse como convidado VIP no Studio 54 ou pai de um batutinha em "Os Batutinhas", seu personagem tinha um comportamento impiedoso em relação à riqueza, aos negócios e às mulheres.

Em um dos casos, Trump interferiu diretamente na formação de seus personagens: Peter Marc Jacobson, criador do seriado "The Nanny", disse ter recebido uma nota do representante de Trump que implicava com uma referência feita no roteiro à fortuna do magnata do setor imobiliário. No roteiro ele era chamado de milionário.

"Como ele é bilionário, ele gostaria que essa fala fosse alterada", dizia a nota.

No final, Jacobson mudou o roteiro para dizer "zilionário". E ele também emoldurou a nota.

"É tão bizarro e narcisista que alguém queira que algo assim seja mudado", disse Jacobson. "É um seriado cômico. O normal seria ser humilde a respeito disso."

Will Heath/NBC via AP
O ator Alec Baldwin personifica o republicano, Donald Trump no programa Saturday Night Life; ao seu lado, a atriz Kate McKinnon interpreta Hillary Clinton

Um mentor rígido em reality shows

Em "O Aprendiz" e "Aprendiz Celebridades", reality shows de competição apresentados por Trump entre 2004 e 2015, o empresário encontrou uma maneira de usar fracassos nos negócios como se fossem uma vantagem, alegando que eles o haviam tornado o empresário perfeito.

"Eu resisti e venci", disse Trump. "Enormemente."

E agora estava na hora de passar esse conhecimento adiante, ele disse. "O Aprendiz" se classificava como um programa que reunia competidores de todas as classes econômicas e formações escolares. O prêmio final seria um emprego próximo de Trump.

Mas, por trás dos bastidores, mais de 20 pessoas que trabalharam no programa dizem que o comportamento de Trump era sexista e humilhante para as mulheres, de acordo com um boletim de ocorrência feito em outubro pela The Associated Press. Um ex-membro da equipe disse que Trump perguntou a um grupo de competidores homens se eles dormiriam com alguma das competidoras mulheres.

A pessoa, que a Associated Press não identificou por causa de um acordo de sigilo, acrescentou: "Estavam todos tentando fazer com que ele parasse de falar, e a mulher morrendo de vergonha".

Apresentador—e alvo—no "Saturday Night Live"

Trump apresentou o programa de humor duas vezes, uma vez em 2014 e outra vez em novembro de 2015, vários meses antes de anunciar que concorreria à Presidência.

"Se tem algo que se pode dizer a respeito de Donald Trump, é que ele é astuto para assuntos de televisão", escreveu James Poniewozik, crítico do "NYT", em sua crítica sobre a performance de Trump como convidado especial em 2015. "Ele sabe como é a pressão que os produtores enfrentam, ele sabe o que pode conseguir em audiência e ele sabe a vantagem que isso dá a ele."

Ultimamente Trump tem sido alvo de zombarias escancaradas por parte do elenco do Saturday Night Live, que colocou o ator Alec Baldwin para exagerar os maneirismos de Trump e satirizar suas declarações recentes sobre imigração, mulheres e minorias. Trump não gostou da piada.

"Assisti ao ataque feito contra mim no Saturday Night Live", Trump tuitou no dia 16 de outubro. "Hora de aposentar esse programa chato e sem graça. A imitação do Alec Baldwin é uma porcaria. Essa eleição está armada pela mídia!"

Rico benfeitor para a luta livre profissional

Trump fez diversas aparições nas produções da World Wide Wrestling Entertainment Inc. Em seu papel, ele aparecia como ele mesmo, produzido como uma adorada voz do povo que enfrentava Vince McMahon, presidente da WWE. Em 2007, na "WrestleMania 23", Trump jogou McMahon ao chão e raspou sua cabeça.

"Donald Trump está em um mundo com o qual ele não é familiarizado", diz um comentarista. "Isso não é setor imobiliário."

Em outra época, Trump foi o benfeitor rico, jogando o que pareciam ser notas de US$ 50 e US$ 100 para agradar a plateia.

"Agora mesmo estou jogando baldes de dinheiro", disse Trump.

A plateia enlouquecia.

A WWE se negou a comentar sobre as origens da relação de Trump com a luta livre profissional.

Um astro de Hollywood polêmico

Nos últimos anos, Trump se tornou uma presença polêmica na indústria do entretenimento. Em 2007, em meio a uma briga feia com Rosie O'Donnell e já no terceiro ano demitindo pessoas em "O Aprendiz", Trump conquistou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. (A celebridade em geral precisa pagar cerca de US$ 30 mil por uma estrela e sua manutenção.) Mas na quarta-feira passada (26) a estrela de Trump, um ponto já vulnerável aos vândalos, foi destruída por um homem com um martelo.

Seu nome já havia sido apagado aos poucos.

O que mais se ouve em um comício de Trump? "Saia daqui"

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Tradutor: UOL

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