Eleitores que acreditaram em mudança com Obama agora querem Trump

Yamiche Alcindor

Grantville, Pensilvânia (EUA)

  • Justin T. Gellerson/The New York Times

    Susanne Murphy votou em Obama duas vezes e agora apoia Donald Trump

    Susanne Murphy votou em Obama duas vezes e agora apoia Donald Trump

Não demorou muito para Jack Morris se arrepender de ter votado no presidente Barack Obama. Alguns meses depois que Morris, um antigo republicano, votou pela primeira vez em um democrata, em 2008, soube que a empresa de tapetes em que ele trabalhava pretendia demitir 36 pessoas na Pensilvânia e mudar seu emprego para Maryland.

Ele foi para casa e lamentou a sua mulher que tinha feito um grande erro ao acreditar na mensagem de esperança e mudança de Obama. O presidente estava no cargo havia menos de seis meses e a decepção que pintaria os oito anos seguintes para Morris já se instalava.

"Eu simplesmente disse a minha mulher: 'Me f... Nunca deveria ter votado nele'", disse Morris, 46, que hoje apoia Donald Trump. "Eu corri o risco. Deixei meu partido para experimentar, e votei nele por mudanças. Não deu certo, e agora volto para meu partido."

Morris faz parte de um pequeno subgrupo de eleitores que apoiaram Obama em 2008 e agora preferem Trump, atraídos por sua promessa de sacudir a situação política e restaurar os empregos perdidos. Uma pesquisa da CBS News realizada no mês passado revelou que 7% dos prováveis eleitores que apoiaram Obama em 2012 agora apoiam Trump, um raio de esperança para um candidato que continua atrás na maioria das pesquisas e alienou muitos eleitores de centro.

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Entrevistas com Morris e mais de uma dúzia de pessoas mostram um tema comum: a mensagem de mudança que as inspirou a votar em Obama hoje é personificada por Trump, que eles veem como um forasteiro ousado, sem conexões com os burocratas de Washington e os doadores ricos que financiam os candidatos democratas e republicanos.

Muitos dos entrevistados disseram que se sentem enganados pelo presidente e frustrados por suas circunstâncias pessoais. Segundo eles, Obama não fez o suficiente para criar empregos, impôs de forma injusta a Lei de Acesso à Saúde e prejudicou a reputação dos EUA na condução das relações internacionais. Alguns também se queixaram de que o primeiro presidente negro foi ineficaz em sua reação aos assassinatos com viés racial.

Susanne Murphy, 63, de Gettysburg, Pensilvânia, votou em Obama duas vezes, mas diz que agora apoia Trump. A Lei de Acesso à Saúde fez que ela e seu marido demitissem cinco empregados de sua empresa elétrica porque não podiam pagar os benefícios para eles, segundo disse. "Isso nos fez sentir fracassados", disse ela enquanto esperava o início de um comício com o governador de Indiana, Mike Pence, candidato a vice-presidente na chapa de Trump.

Murphy disse que Mike Huckabee, o ex-governador de Arkansas, seria sua primeira opção para presidente, mas ela gradualmente se aproximou de Trump. "Para mim, Donald Trump fala a verdade, as coisas como elas são", afirmou. "Ele quer unir este país. Ele quer cuidar dos EUA primeiro."

Gary Kerns, 42, também de Gettysburg, disse que ficou impressionado com Trump há muito tempo e chamou a si mesmo de "eleitor maria-vai-com-as-outras" --que é atraído pelos candidatos mais populares. Em 2008, Kerns votou em Obama porque se interessou pelos discursos do jovem e carismático senador.

"Obama era uma brasa", disse ele. "Ele tinha pique, e eu fui apanhado. Eu o adorava."

Hoje Kerns, um republicano registrado, vê uma energia semelhante à de Obama em Trump. "Vamos em frente com o mais quente", disse ele.

Trump atraiu até alguns eleitores negros que foram inspirados pela candidatura de Obama em 2008, mas desde então se decepcionaram.

Justin T. Gellerson/The New York Times
Chuck Linton, 69, votou em Barack Obama em 2012 e agora apoia Donald Trump

Chuck Linton, 69, de Baltimore, um militar veterano de guerra aposentado, descreveu Obama como "condescendente" e disse que, como homem negro, ele estava cansado de ouvir os democratas lhe dizerem como deve votar.

"Você já viu alguém que fala tão bem e o faz sentir que está a seu favor, mas na verdade não está?", perguntou ele. "Esse é Obama."

Linton, um antigo democrata, disse que pretendia votar em Trump porque acredita que o empresário vai trabalhar para conter a violência em lugares como Baltimore, onde, segundo Linton, várias pessoas que ele conhece perderam seres queridos para a violência armada.

"O que temos a perder? Essa é uma pergunta muito boa", disse ele, repetindo a indagação feita frequentemente por Trump em discursos aos negros. "Que diferença faz se você experimentar algo diferente? Ele está absolutamente certo. Precisamos tentar algo diferente."

Para outros, foram as posições de Obama sobre questões de justiça racial que os fizeram recuar de seu apoio.

Meg Amamolo, 57, votou em Obama em 2008 e 2012 e ficou entusiasmada, como mulher negra, em votar para colocar um negro na Casa Branca. Mas ela ficou especialmente frustrada em 2012 quando Obama opinou sobre a morte a tiros de Trayvon Martin, 17, por um vigilante de bairro voluntário em Sanford, Flórida. "Se eu tivesse um filho, seria parecido com Trayvon", disse Obama.

Enquanto muitos elogiaram Obama por simpatizar com a família do adolescente, Amamolo achou que o presidente estava assumindo posições injustamente e sinalizando para os filhos dela que sofreriam discriminação por serem negros.

"A coisa toda era fazer os meninos negros perceberem que o país não os quer", disse ela. "Os americanos negros estão sendo vitimizados pelos democratas para que consigam votos, mas nada está mudando."

Laverne Gore, 58, uma eleitora republicana registrada de Cleveland (Ohio), pensa que Obama não fez o bastante para ajudar os negros depois que ela votou nele com entusiasmo em 2008.

Gore disse que chorou quando Obama foi declarado vencedor, mas logo perdeu a fé em seu governo porque ele se concentrou mais nos direitos gays e na imigração do que nas preocupações dos negros.

"Eu fiquei esperando e rezando para que ele me mostrasse que eu importava, meus filhos importavam, meus vizinhos que são negros importavam", disse Gore. "Mas isso não aconteceu."

Para outros ex-apoiadores de Obama, a atração por Trump é mais visceral.

"Ele é um bilionário de colarinho azul", disse James Bates, 37, um vendedor que mora em Cleveland, sobre o candidato republicano.

Bates disse achar que poderia ter uma conversa amigável com Trump, e que por causa da riqueza do candidato ele não ficará endividado com ninguém caso vença.

"Assim como votei em Obama em 2008 vou votar agora em Donald Trump", disse Bates. "Ele é a única pessoa que pode entrar, acredito, e realmente estourar o establishment de Washington."

"Acredito 110% que Donald Trump defende o eleitorado americano", acrescentou. "Não os interesses especiais de Washington. Nem seus próprios interesses. É pelo povo."

Morris também acredita que Trump pode melhorar sua vida.

Seis meses depois que aceitou viajar diariamente três horas para Baltimore para continuar trabalhando na fábrica de tapetes, a companhia se mudou de novo, para a Geórgia. Em vez de reformular sua vida, ele desistiu do emprego de US$ 125 mil anuais.

Agora, segundo disse, consegue sobreviver com sua mulher e três filhos ganhando US$ 72 mil em manutenção de prédios de apartamento. Morris disse esperar que Trump cumpra sua promessa de recuperar os empregos bem remunerados.

"Ele não vai aguentar merda de ninguém", disse Morris sobre o republicano. "Ele não vai me prometer mudança e depois não cumprir."

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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