Análise: EUA têm a primeira eleição ameaçada por ataques cibernéticos

David E. Sanger

Em Manchester, New Hampshire (EUA)

  • Stephen Crowley/The New York Times

    O presidente Barack Obama visita o Centro de Integração de Inteligência para Ameaças Cibernéticas, em Arlington, Virgínia

    O presidente Barack Obama visita o Centro de Integração de Inteligência para Ameaças Cibernéticas, em Arlington, Virgínia

A disputa presidencial de 2016 será lembrada por muitos momentos feios, mas a marca histórica mais duradoura será uma que nem os eleitores nem as agências de inteligência dos EUA viram se aproximar: é a primeira vez que uma potência estrangeira mobiliza armas cibernéticas para perturbar, ou talvez influenciar, uma eleição americana.

E há uma sensação agourenta de que, nas próximas eleições, não haverá retorno.

O constante rumor de alegações sobre problemas causados pela Rússia --vazamentos de e-mails roubados e testes nas defesas do sistema eleitoral-- continua nos últimos dias da campanha. Essas intrusões, segundo atuais e antigos membros do governo, vão encorajar outros adversários dos EUA, que receberam uma vívida demonstração de que, quando usados com certa sutileza, seus crescentes arsenais digitais podem ser especialmente danosos na comoção de uma eleição democrática.

"A maioria das grandes histórias deste ciclo eleitoral teve um componente cibernético --ou o uso de técnicas de informação de guerra que os russos, em particular, aperfeiçoaram durante décadas", disse David Rothkopf, executivo-chefe e editor de "Foreign Policy", que escreveu dois livros sobre a história do Conselho de Segurança Nacional. "De e-mails roubados a WikiLeaks à invasão de instrumentos da Nasa, e mesmo a discussão sobre até onde os russos são responsáveis por isso, predominou de um jeito que nunca vimos antes em qualquer eleição."

A magnitude dessa mudança passou amplamente sem ser reconhecida na cacofonia de uma campanha dominada por acusações de assédio sexual e sobre o uso de dinheiro para ter acesso a candidatos. Mas as lições variaram das intensamente pessoais às geoestratégicas.

O e-mail, um dos principais canais de comunicação há duas décadas, hoje parece tão vulnerável que o país inteiro estaria se perguntando se suas caixas de entrada lotadas podem ser seguras. Os sistemas eleitorais, o sustentáculo da democracia, parecem estar tão em risco que é inimaginável que os EUA entrem em outra eleição sem tratá-los como "infraestrutura crítica".

Mas o presidente Barack Obama tem sido estranhamente silencioso sobre esses assuntos. Ele fez uma advertência privada ao presidente Vladimir Putin, da Rússia, durante seu último encontro pessoal há dois meses, segundo assessores. Mas Obama raramente falou em público sobre as implicações da interferência estrangeira na eleição. Seus instintos, segundo os que trabalharam com ele em questões cibernéticas, são de lidar com o problema por meio de ações sigilosas, mais que por confronto direto.

Após uma série de debates na Casa Branca, Obama e seus assessores concluíram que qualquer retaliação pública deve ser adiada para depois da eleição --para evitar a aparência de que a política influenciou sua decisão e não provocar contra-ataques russos durante a votação. Continua incerto se Obama atuará depois da terça-feira (8), como sugerem seus assessores, ou deixará para seu sucessor a decisão de uma "reação proporcional".

Ciberdetetives, historiadores e estrategistas discutirão por muitos anos se os atos da Rússia refletiram uma grande campanha de interferência ou mero oportunismo da parte de Putin. Apesar de o governo advertir há anos sobre a possibilidade de ataques catastróficos, o que aconteceu nos últimos seis meses foi muito mais sutil.

A Rússia usou as técnicas --a chamada "guerra híbrida", que mistura novas tecnologias com propaganda à moda antiga, desinformação e perturbação-- há anos em antigas Repúblicas soviéticas e outros lugares na Europa. A única surpresa foi que Putin, ao intensificar os confrontos com Washington como parte de uma campanha nacionalista para solidificar seu próprio poder em meio à deterioração econômica, estava disposto a levá-las a terras americanas.

A teoria mais comum é que enquanto o líder russo preferiria a eleição de Donald Trump --em parte porque Trump sugeriu que a Otan é irrelevante e que os EUA deveriam trazer suas tropas de volta ao solo americano-- seu principal motivo é cortar o que ele considera um senso de superioridade esnobe dos americanos sobre seus processos democráticos.

A ex-secretária de Estado Madeleine Albright, que apoia vigorosamente Hillary Clinton, escreveu há pouco tempo que o objetivo de Putin é "criar dúvida sobre a validade dos resultados da eleição americana e nos fazer parecer hipócritas quando questionamos a conduta de eleições em outros países".

Nesse caso, é um uso muito diferente do poder do que aquele para o qual o governo Obama prepara o país há muito tempo.

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Quatro anos atrás, Leon Panetta, o secretário da Defesa na época, advertiu sobre um iminente "ciber-Pearl Harbor", em que inimigos poderiam "contaminar o abastecimento de água de grandes cidades ou derrubar a rede elétrica em grandes extensões do país", talvez em conjunção com um ataque convencional.

Isso ainda é um risco, é claro --um que o Pentágono e o Comando Cibernético dos EUA gastam bilhões de dólares tentando evitar. Mas os principais adversários dos EUA sabem que essas medidas constituiriam um ato de guerra, provavelmente provocando uma reação militar arrasadora.

O que ocorreu em vez disso --disseminar e-mails roubados, testar as defesas do sistema de votação-- claramente apanhou o governo desprevenido.

"O uso sem precedentes de ciberinvasões para influenciar esta eleição deveria galvanizar nosso país, levando-o a agir", disse John Carlin, que deixou o Departamento de Justiça há duas semanas como procurador-geral-assistente para segurança nacional, cargo em que ajudou a supervisionar as reações legais a grandes ataques chineses e iranianos a bancos e outras instituições americanas. "Seja quem for eleito, como regular, defender e dissuadir no ciberespaço deve estar no topo da agenda de segurança nacional."

Mas ele comentou que "em uma campanha em que as ciberinvasões e ameaças dominam o noticiário mais que em qualquer outra na história dos EUA, houve surpreendentemente pouca discussão sobre como nosso país deverá enfrentar o problema no futuro".

A gravidade do desafio ficou especialmente evidente nos últimos dias da campanha.

O Departamento de Segurança Interna convidou repórteres na sexta-feira (4) para visitar sua sala de guerra, um vasto centro de monitoração que fica enterrado profundamente em um prédio comum na Virgínia e está ligado à Agência de Segurança Nacional e a sensores que percorrem as redes governamentais. O centro deveria ser o equivalente na internet ao gigantesco Comando Norte-Americano de Defesa Aerospacial no monte Cheyenne, perto de Colorado Springs, que foi inaugurado há exatamente 50 anos para vasculhar o céu e advertir sobre a aproximação de mísseis nucleares soviéticos.

O Centro Nacional de Integração de Cibersegurança e Comunicações deverá fazer a mesma coisa, mas sua visão se limita aos sistemas de computadores federais. As autoridades admitiram que se uma potência estrangeira começar a mexer nos registros de votação ou nos sistemas de contagem de votos na terça-feira --processo conduzido pelos Estados--, é improvável que apareçam provas diretas nas telas do centro.

"Nossos parceiros teriam de nos chamar", admitiu uma autoridade graduada.

No domingo (6) à noite, no Estado "indeciso" de New Hampshire, Hillary realizou um dos últimos comícios de sua campanha a poucos quilômetros da sede de uma empresa que foi derrubada há duas semanas em um ataque de "negação de serviço" que paralisou os sites da web em toda a costa leste do país.

Autoridades da empresa, a Dyn DNS, e outras semelhantes procuram freneticamente maneiras de impedir outro ataque no dia da eleição, por medo de que possa congelar os sites usados para atrair eleitores, mostrando às pessoas como chegar às sessões eleitorais, ou relatar resultados.

E poucas horas antes de chegar aqui Hillary recebeu a notícia de que o diretor do FBI, James Comey, tinha informado ao Congresso que a revisão feita por sua agência do último conjunto de e-mails de Hillary, encontrados no computador do ex-deputado Anthony Weiner, de Nova York, ex-marido de uma das principais assessoras de Hillary, nada fez para mudar sua opinião sobre o caso.

Esse caso, é claro, foi o ato digital original desta temporada eleitoral --a decisão de Hillary de que, para manter seus e-mails pessoais privativos, ela conduziria seus negócios governamentais através de um servidor privado.

Comey nunca determinou de maneira conclusiva se os russos, ou qualquer outra potência estrangeira, invadiram aquele servidor, que ficava na casa dos Clinton em Chappaqua, no Estado de Nova York. Mas os russos estiveram por trás de muitas outras invasões, comentaram seus investigadores, incluindo dos sistemas não sigilosos do Departamento de Estado, da Casa Branca e do Estado-Maior Conjunto. Se não entraram no servidor de Hillary, comentou um investigador, deve ter sido por descuido.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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