Mudança climática já afeta o mercado de imóveis no litoral da Flórida

Ian Urbina*

Em Miami (EUA)

  • Max Reed/The New York Times

    Brent Dixon olha da varanda de seu apartamento em Miami Beach, na Flórida

    Brent Dixon olha da varanda de seu apartamento em Miami Beach, na Flórida

Corretores imobiliários que desejam vender imóveis costeiros geralmente se concentram em quão próximo o imóvel está da beira do mar. Mas os compradores estão cada vez mais interessados na distância da orla marítima. Quantos metros acima do nível do mar? É protegido contra ressacas? Tem gerador e bomba d'água?

A elevação do nível dos mares está mudando a forma como as pessoas veem imóveis à beira-mar. Apesar da demanda continuar forte e empreendedores continuarem construindo perto da orla marítima em muitas cidades costeiras, proprietários por todo o país estão lentamente passando a pensar duas vezes antes de comprar imóveis nas áreas mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática.

O aquecimento do planeta já forçou vários setores a levarem em consideração os custos futuros potenciais da mudança climática. O setor imobiliário, particularmente ao longo das costas vulneráveis, está lentamente despertando para a necessidade de considerar os riscos catastróficos da mudança climática, incluindo os provocados pela elevação do mar e enchentes provocadas por tempestades.

Mas muitos economistas dizem que esse reconhecimento precisa acontecer muito mais rápido e que os compradores precisam urgentemente estar mais bem informados. Alguns analistas dizem que o impacto econômico de um colapso do mercado de imóveis à beira-mar pode ultrapassar o do estouro da bolha pontocom e das bolhas imobiliárias de 2000 e 2008.

O colapso seria sentido pelos proprietários, empreendedores imobiliários, pelo setor de crédito imobiliário e pelas instituições financeiras que agrupam e revendem hipotecas.

Ao longo dos últimos cinco anos, as vendas de imóveis em áreas propensas a enchentes cresceu 25% menos do que em áreas que costumam não sofrer com enchentes, segundo a Attom Data Solutions, empresa controladora da RealtyTrac, uma empresa de informações imobiliárias. Muitos moradores de áreas costeiras estão repensando seus investimentos e procurando por locais mais seguros.

"Não vejo como esta cidade vencerá as águas", disse Brent Dixon, um morador de Miami Beach que planeja se mudar para o norte e para longe da costa, prevendo uma piora da elevação das marés. "A água sempre vencerá."

Logan R. Cyrus/The New York Times
Fileira de casas em Oak Island, Carolina do Norte


Essas preocupações ganharam nova urgência desde a eleição de Donald Trump para presidente, que há muito é cético a respeito do aquecimento global.

A recente escolha por Trump de Myron Ebell para liderar sua equipe de transição para a Agência de Proteção Ambiental intensificou essas preocupações na Flórida e entre muitos cientistas climáticos. Ebell tem ajudado a liderar o ataque contra o consenso científico de que existe um aquecimento global e é causado pelo ser humano.

Legisladores estaduais em Massachusetts e Nova Jersey estão buscando impor novas regras a corretores imobiliários e outros, os obrigando a revelar danos ligados ao clima, como enchentes anteriores.

Bancos e seguradoras precisam proteger suas garantias e investidores por meio de um melhor método de avaliação dos riscos da mudança climática e por meio da criação de regras mais padronizadas para informá-los publicamente, alertam os economistas.

Em abril, Sean Becketti, economista-chefe da empresa Freddie Mac, uma gigante de empréstimo hipotecário, fez uma previsão sombria. Ele escreveu que é apenas uma questão de tempo até a elevação do nível dos mares e as enchentes por tempestades se tornarem tão intoleráveis ao longo da costa a ponto de as pessoas decidirem partir, abandonando suas hipotecas e potencialmente provocando outro colapso imobiliário, exceto que, dessa vez, dificilmente os preços dos imóveis se recuperarão.

Benjamin Donald Boshart/The New York Times
Casas que tiveram seus alicerces levantados em Norfolk, Virgínia


"Alguns moradores vão vender seus imóveis cedo e sofrer prejuízos mínimos", ele escreveu. "Outros não terão tanta sorte."

A Flórida conta com seis dos 10 centros urbanos americanos mais vulneráveis a enchentes por tempestade, segundo um relatório de 2016 da CoreLogic, uma empresa de dados imobiliários.

O sudeste da Flórida atualmente experimenta cerca de 10 enchentes por ressaca por ano. Esse número provavelmente será de cerca de 240 enchentes por ano até 2045, segundo pesquisadores do clima.

No ano passado, a venda de imóveis residenciais aumentou nacionalmente 2,6% , mas caiu cerca de 7,6% nas zonas de alto risco de enchentes no condado de Miami-Dade, segundo dados imobiliários.

As áreas costeiras são onde vivem e trabalham 40% dos americanos e aqueles que podem arcar com a despesa estão protegendo seu investimento construindo anteparos e elevando suas casas. Mas os céticos questionam a lógica de gastar na proteção de imóveis individuais se a área ao redor não fizer o mesmo e a elevação do nível do mar ou enchentes cobrirem as ruas ao redor.

Logan R. Cyrus/The New York Times
Grandes sacos de areia combatem a erosão em Topsail Island, na Carolina do Norte


Para muitos proprietários e compradores de imóveis, o preço do seguro contra enchentes é uma crescente preocupação. À medida que o valor do seguro sobe, o preços dos imóveis cai, uma tendência que já prejudica os preços de imóveis em locais como Atlantic City, Nova Jersey; Norfolk, Virgínia; e Saint Petersburg, Flórida, segundo corretores imobiliários locais.

Norfolk é uma cidade cercada por água. Em 2014, a Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema, na sigla em inglês) expandiu a área considerada como de maior risco de enchentes em uma atualização dos mapas regionais, exigindo de milhares de novos proprietários que tenham seguro contra enchentes.

A elevação das águas e submersão de terras poderia provocar uma elevação do nível do mar em algumas partes de até 1,80 metro até o final do século, segundo estimativas do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos.

O seguro contra enchentes em áreas de risco moderado a baixo custa mais de US$ 200 (cerca de R$ 685) por ano, segundo o Programa Nacional de Seguro Contra Enchentes, mas para imóveis em zonas de risco, esses valores podem subir para vários milhares de dólares.

Na Virgínia, os legisladores aprovaram uma lei de transparência imobiliária que o setor aplaudiu como sendo um grande passo à frente.

Apesar da lei encorajar os compradores de imóveis a investigarem diligentemente o risco de viver em uma área propensa a enchentes, ela também declara que o vendedor de um imóvel não é obrigado a revelar se uma casa está em uma zona que a Fema considera como sendo de alto risco.

Algumas autoridades municipais disseram que a lei não é o bastante. "É uma transparência não transparente", disse Meg Pittenger, uma gestora ambiental da cidade de Portsmouth, Virgínia, para um repórter do jornal "The Virginian-Pilot". Ela acrescentou que vendedores ou corretores imobiliários deveriam ser obrigados a informar aos compradores potenciais que um imóvel se encontra em uma zona de enchente.

Para piorar, o Programa Nacional de Seguro Contra Enchentes está mais de US$ 20 bilhões no vermelho. Após várias grandes tempestades costeiras, o Congresso tentou consertar o programa, aprovando uma lei em 2012 obrigando que os valores dos seguros fossem recalculados para refletir o risco.

Logan R. Cyrus/The New York Times
David Jacobs em sua casa em Wrightsville Beach, na Carolina do Norte, que ele teme que seja inundada

Os proprietários de imóveis costeiros se rebelaram, argumentando que a legislação tornava o seguro caro demais e, em 2014, o Congresso derrubou partes da lei.

George Kasimos, um especialista em imóveis em Toms River, Nova Jersey, disse que os proprietários tinham bons motivos para reagir. "Um proprietário poderia ter aprovada uma hipoteca de US$ 300 mil com um seguro contra enchente no valor de US$ 3.000 por ano", ele disse, mas o pedido de empréstimo da mesma pessoa provavelmente seria rejeitado com um seguro contra enchente no valor de US$ 10 mil.

Apesar da queda nas vendas de imóveis residenciais, muitas cidades propensas a enchentes continuam crescendo. Arranha-céus e novos prédios de apartamentos continuam sendo construídos por toda Fort Lauderdale. A câmara de comércio local diz que a cidade espera um aumento de 50 mil habitantes nos próximos 15 anos e atualmente carece de imóveis residenciais para acomodá-los. Em Miami, grande parte das novas construções consiste de condomínios de luxo voltados para o grande número de compradores à vista da Rússia e da América Latina.

Nacionalmente, o preço médio dos imóveis residenciais em áreas de alto risco de enchente ainda está 4,4% abaixo do preço médio de 10 anos atrás, enquanto os preços em áreas de baixo risco subiram 29,7% no mesmo período, segundo dados imobiliários.

Chris Bergh, o diretor de conservação da organização ambiental sem fins lucrativos Nature Conservancy no sul da Flórida, disse estar preocupado porque sua casa em Big Pine Key fica a pouco mais de 800 metros da praia e apenas 1,5 metro acima do nível do mar.

"No planejamento para o futuro do meu filho de 7 anos", ele disse, "não posso contar que ele herdará um imóvel valioso em Big Pine Key".

*Kitty Bennett e Susan C. Beachy contribuíram com pesquisa

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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