Como a exportação de "escravos" norte-coreanos para a Rússia virou fonte de renda para Kim Jong-un

Andrew Higgins

Em Vladivostok (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    Garçonete serve clientes em restaurante norte-coreano em Vladivostok, na Rússia

    Garçonete serve clientes em restaurante norte-coreano em Vladivostok, na Rússia

Por toda a Europa Ocidental e Estados Unidos, imigrantes de países mais pobres, sejam encanadores da Polônia ou trabalhadores rurais do México, se transformaram em para-raios das ansiedades econômicas em torno da mão de obra barata.

A cidade russa de Vladivostok, no oceano Pacífico, entretanto, tem abraçado avidamente um novo ícone da globalização que esmaga fronteiras: o pintor norte-coreano.

Diferente dos trabalhadores imigrantes em grande parte do Ocidente, os trabalhadores carentes da Coreia do Norte são tão bem-vindos que ajudaram a tornar a Rússia ao menos igual à China (a principal apoiadora de Pyongyang) como a maior usuária do mundo de mão de obra do país pobre, porém com armas nucleares.

"Eles são rápidos, baratos e muito confiáveis, muito melhores do que os trabalhadores russos", disse Yulia Kravchenko, uma dona de casa de 32 anos de Vladivostok, sobre os pintores. "Eles não fazem nada a não ser trabalhar da manhã até tarde da noite."

Os hábitos de trabalho que agradam as donas de casa de Vladivostok também geram um dinheiro extremamente necessário para o regime mais isolado do mundo, uma ditadura hereditária em Pyongyang que está próxima de obter uma arma nuclear capaz de atingir os Estados Unidos. Na semana passada, a Coreia do Norte atingiu um marco ao testar seu primeiro míssil balístico intercontinental.

Pressionado por sanções internacionais e incapaz de produzir a maioria dos bens que qualquer pessoa fora da Coreia do Norte deseja comprar (fora partes de mísseis, têxteis, carvão e cogumelos), o governo envia dezenas de milhares de seus cidadãos pobres para cidades por toda a ex-União Soviética para ganharem dinheiro para o Estado.

Grupos de direitos humanos dizem que esse trânsito controlado pelo Estado representa comércio de escravos, mas as condições são tão desesperadoras na Coreia do Norte que os trabalhadores com frequência pagam propina para serem enviados para a Rússia.

Os trabalhadores norte-coreanos ajudaram a construir um novo estádio de futebol em São Petersburgo, que será usado na Copa do Mundo do ano que vem, um projeto no qual pelo menos um deles morreu. Eles estão trabalhando em um complexo de apartamentos de luxo na região central de Moscou, onde dois norte-coreanos foram encontrados mortos no mês passado, em um hotel esquálido próximo do canteiro de obras. Eles também cortam árvores nos remotos acampamentos de exploração de madeira no Extremo Oriente russo que lembram os campos de prisioneiros da época de Stalin.

Mas eles deixaram sua marca maior e mais visível em Vladivostok, fornecendo mão de obra para empresas de reparos de casas que se gabam junto aos clientes de como os norte-coreanos são mais baratos, mais disciplinados e mais sóbrios que os russos.

"Surpreendentemente, essas pessoas trabalham duro e de forma ordeira. Elas não descansam em excesso, não param com frequência para fumar ou se esquivam de seus deveres", promete o site de uma empresa de Vladivostok.

O setor de consertos e reformas domésticas se encontra no extremo mais benigno do programa de exportação de mão de obra da Coreia do Norte. Pintores e gesseiros em geral não estão sujeitos aos maus-tratos brutais sofridos pelos norte-coreanos que trabalham na extração de madeira e canteiros de obras na Rússia.

James Hill/The New York Times
A balsa Mangyongbong chega da Coreia do Norte ao porto de Vladivostok

Apesar de rigidamente controlados por supervisores do Partido dos Trabalhadores da Coreia, o partido do governo em Pyongyang, eles não vivem, de todo, no que o Departamento de Estado americano chamou em seu recém-divulgado relatório anual sobre tráfico humano de "relatos críveis de condições como de escravos dos norte-coreanos que trabalham na Rússia".

Ao mesmo tempo, eles ainda sofrem com o que grupos de direitos humanos dizem ser uma característica particularmente escandalosa do programa de exportação de mão de obra de Pyongyang: grande parte de seus ganhos é confiscada pelo Estado.

Um longo relatório sobre os trabalhadores norte-coreanos na Rússia, divulgado no ano passado pelo Banco de Dados do Centro para Direitos Humanos Norte-Coreanos, um grupo em Seul, disse que o Partido dos Trabalhadores da Coreia fica com 80% dos salários pagos aos trabalhadores que extraem madeira e pelo menos 30% dos salários pagos aos trabalhadores de construção. Dinheiro adicional é descontado para cobrir custo de vida, contribuições obrigatórias ao chamado fundo de lealdade e outras "doações".

Essa "estrutura exploradora", diz o relatório, constitui "uma das causas fundamentais do trabalho desumanamente árduo dos trabalhadores norte-coreanos na Rússia".

O grupo de direitos humanos estimou que as autoridades norte-coreanas ganham pelo menos US$ 120 milhões por ano dos trabalhadores enviados para a Rússia, uma fonte vital de renda para uma dinastia familiar fundada, com apoio de Moscou, por Kim Il-sung em 1948 e agora comandada por seu neto de 33 anos, Kim Jong-un.

Isso coloca o número de norte-coreanos trabalhando na Rússia em quase 50 mil, apesar de outros estudos colocarem o número entre 30 mil e 40 mil, o que ainda é mais do que na China ou no Oriente Médio, os outros principais destinos.

O chefe russo de uma empresa de consertos e reformas de Vladivostok, que emprega dezenas de norte-coreanos, disse que a quantidade de dinheiro descontada dos salários aumentou substancialmente ao longo da última década, subindo para o desconto mensal atual de 50 mil rublos, ou cerca de R$ 2.675, em comparação a 17 mil rublos (R$ 909) por mês em 2006.

Ele disse que seus trabalhadores que ganham mais agora perdem metade ou mais de seu salário mensal no confisco, enquanto o líder de cada equipe de construção, composta de cerca de 20 a 30 trabalhadores, fica com um desconto adicional de cerca de 20% em troca de encontrar trabalhos de pintura para seus homens.

O russo pediu para não ser identificado por temer que os supervisores do Partido dos Trabalhadores punam seus operários ou os impeçam de trabalhar para ele.

O aumento do confisco ocorreu após uma forte desvalorização do rublo frente ao dólar, um desdobramento problemático para um regime que deseja dólares, não rublos.

James Hill/The New York Times
O norte-coreano Dima trabalha em uma casa no subúrbio de Vladivostok

Mas o aumento do confisco de rublos mais que compensa a desvalorização, refletindo a caça desesperada de Pyongyang por mais dinheiro desde que Kim Jong-un assumiu o poder em dezembro de 2011 e acelerou os programas norte-coreanos de mísseis e nuclear.

As sanções internacionais e a proibição pela China de importação de carvão norte-coreano, em fevereiro, após uma série de testes de mísseis, têm espremido constantemente outras fontes externas de receita de Pyongyang. Isso deixa a exportação de mão de obra, juntamente com uma série de restaurantes e outras pequenas empresas estatais em Vladivostok e outros lugares, como uma das formas restantes do regime de gerar receita.

Para impedi-los de buscar refúgio na Coreia do Sul, os trabalhadores norte-coreanos são forçados a morar juntos em dormitórios lotados espalhados pela periferia de Vladivostok e proibidos de contatarem russos e outros estrangeiros fora do trabalho.

O boom da exportação de mão de obra norte-coreana para a Rússia coincide com a expansão de outros elos entre os dois países, incluindo um recente aumento na exportação de carvão russo e o início em maio de um novo serviço de balsa, duas vezes por semana, entre Vladivostok e Rason, uma zona econômica especial na costa leste da Coreia do Norte.

Em abril do ano passado, apenas meses após a Coreia do Norte anunciar que testou uma "bomba de hidrogênio miniaturizada", autoridades russas e norte-coreanas se encontraram no sul de Vladivostok para celebrar a reabertura da Casa Kim Il-sung, uma edificação de madeira dedicada à memória do ditador. Ela foi reconstruída, com dinheiro russo, após um incêndio.

Os elos com a Rússia ainda são menores do que os da Coreia do Norte com a China, sua principal apoiadora estrangeira, e não parecem violar as sanções impostas, com apoio do governo russo, pelas Nações Unidas. Mas ainda assim causam preocupação nos Estados Unidos e Japão, que querem endurecer o arrocho econômico e diplomático a Pyongyang.

As exportações de carvão russo à Coreia do Norte mais que triplicaram para US$ 28,4 milhões no primeiro trimestre deste ano, em comparação a US$ 7,5 milhões no mesmo período em 2014, indicando que Moscou provavelmente faria objeção a qualquer esforço por parte de Washington para ampliar as sanções econômicas da ONU.

Por que a Coreia do Norte aumentaria acentuadamente as importações de carvão é um mistério, pois conta com abundância de carvão. Um mistério ainda maior é o argumento comercial para o novo serviço de balsa à Coreia do Norte, iniciado no mês passado por uma empresa privada russa, a InvestStroyTrest, em um momento em que poucos russos querem viajar para a Coreia do Norte e ainda menos norte-coreanos, fora os trabalhadores, visitam a Rússia.

Quando a balsa, a Mangyongbong, aportou em Vladivostok na semana passada vinda da Coreia do Norte, ela contava com apenas seis passageiros. Ela tem capacidade para 193.

Mikhail Khmel, o vice-diretor-geral da InvestStroyTrest, disse que "todo o barulho em torno da Coreia do Norte e que deixa as pessoas com medo" é responsável pelo baixo movimento.

Os norte-coreanos, ele acrescentou, "não são anjos", mas não merecem toda a pressão imposta a eles pelos Estados Unidos. "A América está muito longe, mas somos vizinhos", ele disse. "Queremos lidar com eles normalmente."

O serviço de balsa apenas expande as ligações de transporte existentes entre a Coreia do Norte e Vladivostok, o único destino estrangeiro fora Pequim e a cidade chinesa de Shenyang, no norte, para a companhia área nacional de Pyongyang, a Air Koryo.

Toda sexta-feira, trabalhadores magros norte-coreanos em roupas esfarrapadas, vigiados por supervisores em ternos e distintivos de Kim Il-sung, se reúnem no aeroporto de Vladivostok com pilhas de bagagem antes do voo semanal de e para Pyongyang.

Apesar de exibirem um quadro miserável de privação no aeroporto, os norte-coreanos que trabalham na Rússia com frequência estão ávidos para voltar. De fato, disse o chefe da empresa de consertos e reformas russa, eles com frequência pagam propina para as autoridades do Partido dos Trabalhadores para serem designados para trabalhar no exterior.

Um desses é um pintor de 52 anos atualmente em seu segundo período de cinco anos na Rússia. Falando um russo mal falado enquanto pintava a parede do quarto de Kravchenko, ele disse que gostava do trabalho e da oportunidade de ganhar moeda estrangeira para si mesmo e seu país. Quando está na Rússia, ele atende pelo nome de Dima, diminutivo de Dimitri.

Ele disse que sua licença de trabalho na Rússia expira no ano que vem e então terá que voltar para casa. "Espero poder voltar", ele disse.

O chefe russo disse que os norte-coreanos trabalham "horas insanamente longas" sem se queixar e lhe telefonam às 6h da manhã, até mesmo nos fins de semana, quando ele não aparece para lhes dizer o que pintar e onde aplicar o gesso. "Eles não têm feriados. Eles comem, trabalham e dormem e nada mais. E não dormem muito", ele disse. "Eles estão basicamente na situação de escravos."

Ao mesmo tempo, ele acrescentou, os norte-coreanos ainda querem trabalhar na Rússia, onde, apesar das dificuldades e confisco de grande parte de seus salários, eles vivem melhor e mais livremente do que em casa.

"Não é trabalho escravo, mas trabalho árduo. E é muito melhor aqui do que na Coreia do Norte", disse Georgy Toloraya, um ex-diplomata russo em Pyongyang.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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