PUBLICIDADE
Topo

Curso católico em Roma ensina exorcismo até mesmo pelo celular

Padres católicos participam de conferência sobre exorcismo em Roma - Jason Horowitz/The New York Times
Padres católicos participam de conferência sobre exorcismo em Roma Imagem: Jason Horowitz/The New York Times

Jason Horowitz

Em Roma (Itália)

22/04/2018 04h00

Andrés Cárdenas sentou-se no fundo do auditório, abriu sua pasta e começou a fazer anotações enquanto um cardeal católico, com décadas de experiência expulsando demônios de corpos possuídos, dava uma aula sobre como gritar contra o diabo, livrar muçulmanos de magia negra e expulsar Satã pelo seu celular.

Um padre colombiano, Cárdenas escrevia vigorosamente enquanto o instrutor de 89 anos, o cardeal Ernest Simoni, explicava que apesar de exorcismos (que ele chamou de um "instrumento científico espiritual") poder ser praticado em muçulmanos, "eles permanecerão muçulmanos depois".

Simoni, que é albanês, também disse que jejuar às vezes ajuda os possessos, mas que com frequência é preciso ser agressivo com Belzebu, dizendo coisas como "Cale-se, Satã!"

Após anotar tudo, Cárdenas, 36 anos, explicou que veio a Roma para aprender sobre exorcismos "porque é um dom" que queria compartilhar com seus paroquianos em El Espinal. Ele era um dos 300 católicos apostólicos romanos (a maioria do clero, mas também homens e mulheres leigos com cartas de autorização de seus bispos) atendendo ao 13º curso anual de uma semana "Exorcismo e Oração para Libertação", que os organizadores esperam que recrute e treine exércitos de exorcistas potenciais para confrontar a disseminação de forças demoníacas.

Os participantes pagaram cerca de US$ 372 (a tradução simultânea custava US$ 309 adicionais, ou cerca de R$ 1.268 e R$ 1.054, respectivamente) para participar das sessões, patrocinadas por grupos católicos conservadores e realizadas na Universidade Pontifícia Regina Apostolorum, dirigida pela ordem religiosa conservadora Legionários de Cristo.

9.fev.2018 - Sacerdote católico participa de curso de exorcismo no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma, Itália - Divulgação - Divulgação
Sacerdote católico participa de curso de exorcismo em Roma
Imagem: Divulgação

Os aspirantes a exorcistas culpam a internet e o ateísmo pelo que veem como um aumento do mal, mas a urgência evidente no curso também parece ter algo a ver com o crescente ponto de vista conservador de que a Igreja se desencaminhou sob o papa Francisco e o que fim dos tempos se aproxima.

O papa atordoou recentemente os conservadores quando foi citado, de forma incorreta segundo o Vaticano, por um repórter italiano com problemas de credibilidade, como não acreditando no inferno. "Isso está além do que é tolerável", disse na ocasião o cardeal americano Raymond Burke, um líder da resistência conservadora a Francisco.

Na verdade, o papa fala com frequência no diabo. Na exortação apostólica deste mês, "Alegra-te e Seja Feliz", ele escreveu que apesar de nos tempos bíblicos a "epilepsia, por exemplo, podia ser facilmente confundida com possessão demoníaca", os fiéis não devem concluir "que todos os casos citados nos Evangelhos eram transtornos psicológicos e portanto o diabo não existe ou não está atuando".

Cárdenas não tinha dúvidas a respeito da crença do papa no diabo. Nem Simoni, que já encontrou o mal pessoalmente, sobrevivendo décadas em prisões e campos de trabalhos forçados por praticar sua fé sob o regime comunista albanês de Enver Hoxha.

Durante o discurso principal na segunda-feira, o cardeal respondeu as perguntas dos padres colegas de Cárdenas, como um padre francês que pediu que compartilhasse seus segredos de exorcismo. "Reze sem interrupção", disse o cardeal, lembrando à plateia que "mais que qualquer coisa, a castidade" é crucial.

Ao ser perguntado se preferia o ritual antigo ou as novas normas do Vaticano, introduzidas em 1999, Simoni disse: "Jesus conhece todas as línguas".

Outro padre perguntou como diferenciar entre uma personalidade bipolar e uma possessa. "É importante diferenciar entre transtornos, males e patologias mentais", disse o cardeal. "Satã você pode reconhecer."

"Esse tema será tratado na tarde de terça-feira", interveio o professor Giuseppe Ferrari, um organizador do curso, que dirige um grupo de pesquisa sociorreligioso.

A essa altura, Cárdenas folheou seu programa azul, ilustrado com a Transfiguração de Rafael. Na terça-feira, haveria uma aula sobre "A Oração da Libertação, uma Abordagem Teológica e Pastoral" ou "Auxiliar de Exorcista: Habilidades e Deveres".

Na quarta-feira, seria "Elos Mágicos, Esotéricos e Ocultos com Algumas Terapias Alternativas e Terapias Energéticas", seguida na sexta-feira por "A Vida, Escolhas e Erros do Exorcista". Mas ele estava especialmente interessado pela palestra na quarta-feira sobre "Feitiçaria na África".

O Vaticano tem um relacionamento desconfortável com alguns de seus exorcistas africanos mais conhecidos. O Arcebispo da Zâmbia, Emmanuel Milingo, ganhou notoriedade como curandeiro e exorcista nos anos 90, quando viveu na Itália e onde era conhecido como "o bispo curandeiro". Ele posteriormente se casou com uma mulher coreana em um casamento coletivo presidido pelo reverendo Sun Myung Moon e foi excomungado por ordenar como padres quatro homens casados.

Mais recentemente, o Vaticano reconheceu formalmente em 2014 uma Associação Internacional de Exorcistas, que mantém seus cerca de 250 membros atualizados a respeito das melhores práticas para confrontar o diabo. A morte em 2016 do padre Gabriele Amorth, o mais famoso removedor de demônios da Itália, provocou um novo clamor nacional por recrutas.

Um documentário sobre exorcismo, "Livrai-me", foi premiado no Festival de Cinema de Veneza em 2016. O filme acompanha um rotundo padre siciliano vestido como frade e com gorro de lã. Em uma cena, ele puxa as franjas de uma mulher, que ao comando dele grunhe que ela ama seus vizinhos.

No filme, em uma conversa separada por celular com uma mulher possuída, o padre implora: "Eu exorcizo você, Satã". Ele então se despede: 'Ok, falo com você em breve" e "dê um alô ao seu marido por mim".

("É uma boa forma de aprender como não fazer um exorcismo", disse Ferrari.)

Na segunda-feira no seminário, Simoni relatou sucessos dramáticos. Ao ser perguntado por um padre como sabia que um exorcismo tinha funcionado, ele respondeu. "Ah, você consegue ver imediatamente", explicando que uma pessoa possuída passa de se debater e "manter três ou quatro homens ocupados" a se levantar com um "sorriso feliz".

"Seus exorcismos são muito eficazes, ao que parece", disse Ferrari, que então disse à plateia: "Nós nos reencontraremos aqui após a pausa para o café".

Os estudantes se dirigiram a uma longa mesa com lanches e refrigerantes enquanto os repórteres pressionavam Simoni sobre a realização de exorcismos por celular, o que é tecnicamente proibido pela lei da igreja. (Ele já os fez "100, 1.000 vezes", ele disse.)

Cárdenas aguardou no corredor, com seu celular em punho, na esperança de tirar uma foto de si mesmo com o cardeal. Mas o exorcista veterano passou por ele, deixando o colombiano resmungando, mas não demoniacamente.

Voltando ao assunto, Cárdenas alertou que magia negra pode ser transmitida por meio das telas ("os filmes americanos também são um problema"), que demônios entram no corpo pela "parte posterior do cérebro" e que traumas na infância, como abuso sexual, podem tornar uma pessoa vulnerável a homossexualidade e demônios que, em casos graves, podem causar tendências suicidas ou violentas e precisam ser expulsos.

A poucos metros de distância, o reverendo Joseph Poggemeyer, de Toledo, Ohio, disse que os exorcistas precisam confrontar a disseminação do mal pela internet. Ele disse que toda diocese deveria ter um exorcista, mas que as reformas do Concílio Vaticano Segundo e sua "confusão" minaram a perícia em exorcismo e privaram os seminaristas de instrução em demonologia.\

9.fev.2018 - Grupo acompanha curso de exorcismo no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma, Itália - Divulgação - Divulgação
Grupo acompanha curso de exorcismo no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum
Imagem: Divulgação

"Isso simplesmente se perdeu", ele disse. "Muitas dioceses nos Estados Unidos não possuem exorcistas há muito tempo."

Os organizadores chamaram os padres de volta para uma aula sobre o papel do bispo no exorcismo, após a qual pararam para o almoço. Enquanto os exorcistas aguardavam na fila pelo prato de massa atrás de estudantes enviando mensagens de texto, ou discutiam manifestações do mal enquanto tomavam iogurte, Ferrari disse que espera convidar o exorcista favorito do papa, um luterano, para a conferência do ano que vem.

Descansado, Cárdenas e os outros voltaram para o salão para a sessão da tarde, "Exorcismo como Ministério da Misericórdia e Consolo em meio à Desorientação da Sociedade Contemporânea".

Ela foi conduzida pelo arcebispo Luigi Negri, que foi notícia em 2015, quando foi ouvido em um trem desejando a morte de Francisco. O pontífice posteriormente o afastou da liderança da arquidiocese de Ferrara.

Na segunda-feira, Negri alertou aos padres sobre as forças sombrias que enfrentariam.

"O agente desse mal, essa entidade diabólica e maligna", ele explicou, "é maior que qualquer homem individual".