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EUA dizem que vão abrigar crianças migrantes em bases militares, mas ninguém sabe como

U.S. Customs and Border Protection
Crianças imigrantes em um centro de detenção de imigrantes ilegais em McAllen, no Texas, próximo à fronteira dos Estados Unidos Imagem: U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP

Michael D. Shear, Helene Cooper e Katie Benner

Em Washington (EUA)

23/06/2018 02h00

Os EUA se preparam para abrigar até 20 mil crianças migrantes em quatro bases militares americanas, disse um porta-voz do Pentágono na quinta-feira (21), enquanto autoridades federais lutavam para seguir a ordem do presidente Donald Trump de manter as famílias imigrantes unidas depois de apreendidas na fronteira.

As 20 mil camas em bases no Texas e no Arkansas abrigariam "crianças estrangeiras desacompanhadas", segundo um porta-voz do Pentágono, o tenente-coronel Michael Andrews. Mas outros órgãos federais deram explicações conflitantes sobre como os abrigos serão usados e quem será colocado neles.

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Não ficou claro se os abrigos militares também receberiam os pais de crianças migrantes detidas, e autoridades da Casa Branca, do Departamento de Defesa e do Departamento de Saúde e Serviços Humanos disseram na quinta-feira que não podiam dar detalhes.

O anúncio do Pentágono se seguiu à ordem executiva de Trump na quarta-feira (20) para manter as famílias juntas depois que elas cruzassem ilegalmente a fronteira mexicana com os EUA.

Trump disse que suspenderia a prática de separar os pais dos filhos e pediu a detenção das famílias nos mesmos locais.

Os congressistas democratas questionaram o plano de 20 mil camas. "É ao menos factível?", indagou no plenário o senador Chuck Schumer, de Nova York.

Advogados dos imigrantes manifestaram preocupação sobre a perspectiva de vastos assentamentos de famílias abrigadas em bases militares e descreveram uma incerteza generalizada na fronteira.

"Estão sendo dadas instruções conflitantes", disse Michelle Brané, diretora de Direitos de Migrantes e Justiça na Comissão de Refugiados das Mulheres. "É mais um exemplo deste governo fazendo grandes anúncios de políticas ousadas sem um plano para implementá-las."

"Vai aumentar o caos em campo", disse ela.

Alfândega e proteção de fronteiras dos EUA
Autoridades publicaram esta imagem com imigrantes em uma espécie de jaula Imagem: Alfândega e proteção de fronteiras dos EUA

Segundo estimativas, mais de 2.300 crianças com menos de 12 anos, muitas delas bebês, estão detidas em abrigos especiais para "idade tenra".

Inicialmente, um porta-voz do governo disse na quarta-feira à tarde que o governo não reuniria as crianças com seus pais. Mas isso foi desmentido na quarta à noite por uma autoridade mais graduada. Na quinta, autoridades do Departamento de Justiça negaram um relatório, aparentemente emitido por autoridades de outro órgão, de que o processamento judicial de imigrantes detidos com famílias tinha sido suspenso.

Lutando para se adaptar e acatar a ordem presidencial, a Patrulha de Fronteiras temporariamente parou de enviar casos de imigração para processo ao Departamento de Justiça, provocando rumores de que eles seriam suspensos totalmente.

Isso obrigou o departamento a insistir em um comunicado que "não houve mudança na política de 'tolerância zero' do departamento de processar os adultos que cruzarem nossa fronteira ilegalmente, em vez de solicitarem asilo em qualquer porto de entrada na fronteira".

Dois e-mails da Alfândega e Proteção de Fronteiras mostrados ao jornal The New York Times revelam uma confusão semelhante.

Eles mostram que às 21h54 de quarta-feira (20) uma autoridade do alto escalão da Patrulha de Fronteiras disse aos supervisores que poderiam continuar a enviar processos para um pai que entrou no país ilegalmente se houvesse outro adulto migrante presente.

Mas às 4h09 de quinta-feira essa autoridade, o agente-chefe de patrulha Brian Hastings, enviou outro e-mail, dizendo que os agentes deveriam "manter a unidade familiar para famílias de multipais/adultos, e suspendeu as remessas de processo Seção 1325". Essa seção da lei de imigração se refere à entrada ilegal de estrangeiros nos EUA.

Mas a confusão pouco serviu para alterar as dificuldades de muitas crianças migrantes que estão sendo detidas.

Em Washington, os advogados de Trump pediram que a juíza distrital dos EUA Dolly Gee, em Los Angeles, modificasse uma decisão judicial de 1997 para permitir a detenção indefinida de famílias.

A decisão, conhecida como o acordo Flores, exige que as crianças sejam libertadas da custódia das autoridades de imigração em 20 dias. Depois disso, elas devem ser transferidas aos cuidados de um membro da família ou colocadas sob a custódia de um abrigo licenciado para crianças, patrocinado pelo governo.

O Departamento de Justiça disse que a única maneira de evitar que crianças migrantes sejam separadas dos pais, enquanto se aplicam as leis contra a entrada ilegal no país, seria deter as famílias inteiras. Isso parecia sugerir que a prática de separar famílias poderia ser retomada se a juíza se recusasse a modificar a decisão de 1997.

Não ficou claro na quinta-feira se os militares teriam um papel mais central no plano de Trump. Ele não comentou publicamente como seu decreto estava sendo implementado.

Ele também voltou a criticar de maneira agressiva os "democratas extremistas de fronteira aberta" depois de recuar sobre a questão de separar as famílias. E Trump mais uma vez culpou falsamente os democratas pela crise política que continua corroendo seu governo e foi ampliada nos últimos dias por imagens e gravações de crianças chorando por seus pais.

Escolhendo comentários radicais em uma reunião do Gabinete antes que a Câmara marcasse a votação da reforma das leis de imigração, Trump suplicou pelo apoio dos deputados democratas para a legislação, enquanto disse que eles estavam "causando tremendo prejuízo e destruição e vidas". Ele repetiu a falsa afirmação de que os democratas forçaram separações de famílias.

"Eles não se importam com as crianças. Eles não se importam com os danos. Eles não se importam com os problemas", disse Trump, com expressão séria no rosto e os braços cruzados. "Eles não se importam com nada."

Trump disse que instruiu sua administração a "manter juntas as famílias de imigrantes ilegais e reunir esses grupos previamente separados". Mas não deu detalhes sobre como o governo pretende reunir as famílias.

Melania Trump, a primeira-dama, visitou uma instalação em McAllen, no Texas, que está mantendo 55 crianças que foram separadas dos pais. Ela percorreu o Abrigo de Crianças New Hope e se reuniu com algumas crianças mantidas lá.

De volta à Casa Branca, a atitude de Donald Trump foi menos graciosa quando ele começou o dia com uma série de postagens irritadas no Twitter e pedidos de mudanças nas leis de imigração do país.

Deputados tinham agendado a votação de duas amplas propostas sobre imigração na quinta-feira, enquanto a ordem executiva aliviou em parte a pressão para agir rapidamente.

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Crianças são mantidas presas nos Estados Unidos; desde maio, pelo menos 2,3 mil menores foram separados dos pais na fronteira dos Estados Unidos com o México Imagem: Getty Images

Mas líderes republicanos retardaram uma votação sobre a lei mais ampla, que forneceria um caminho para a cidadania a jovens imigrantes não autorizados enquanto manteria as famílias migrantes juntas na fronteira. A medida parecia destinada a falhar enquanto os republicanos continuavam divididos sobre a imigração.

A lei, um compromisso entre republicanos moderados e conservadores, estava prevista para votação no início da tarde de quinta, mas agora só ocorrerá na próxima semana. A Câmara rejeitou uma lei de imigração linha-dura em uma votação na tarde de quinta, como se esperava.

Trump disse mais uma vez na quinta-feira que a ação do Congresso seria a melhor maneira de resolver a crise política e humana na fronteira envolvendo famílias imigrantes.

Mas os críticos do presidente anunciaram que não esperariam a ação do Congresso. Uma coalizão de dez Estados moveu uma ação destinada a garantir que o governo Trump não continue a separar crianças de seus pais na fronteira.

"O presidente Trump assinou um decreto vazio e sem sentido que afirma renegar políticas que ele mesmo implementou como um golpe político", disse Xavier Becerra, o secretário de Justiça da Califórnia, que é um queixoso nessa ação. "Enquanto isso, essas crianças, seus pais e pessoas do mundo todo precisam de respostas sobre o que virá a seguir."

A União Americana de Liberdades Civis já moveu um processo que pede que o governo pare de separar famílias e reúna as crianças que já foram separadas aos pais que as trouxeram para os EUA.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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