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Áudio de criança imigrante clamando pelo pai provoca revolta nos EUA

Nomaan Merchant e Anita Snow

Associated Press

19/06/2018 15h06

Uma gravação de áudio que parece captar as tristes vozes de crianças pequenas clamando por seus pais, em espanhol, em um centro de imigração nos Estados Unidos virou o assunto principal da crescente discussão sobre a política do governo Trump de separar crianças imigrantes de seus pais.

“Papa! Papa!”, diz uma criança chorando no arquivo de áudio que foi divulgado pela primeira vez na segunda-feira (18) pela organização sem fins lucrativos ProPublica e posteriormente fornecido à Associated Press.

A advogada de direitos humanos Jennifer Harbury disse que recebeu a gravação de um denunciante e afirmou à ProPublica que o áudio foi registrado na semana passada. Ela não forneceu detalhes sobre onde exatamente foi gravado.

17.jun.2018 - Crianças imigrantes em um centro de detenção de imigrantes ilegais no Texas, nos Estados Unidos - U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP - U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP
Crianças imigrantes em um centro de detenção em McAllen, no Texas
Imagem: U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP

A secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, disse que não ouviu o áudio, mas afirmou que as crianças levadas sob custódia pelo governo estão sendo tratadas com humanidade. Segundo ela, o governo tem altos padrões para os centros de detenção e as crianças são bem cuidadas, ressaltando que o Congresso precisa preencher lacunas na lei para que as famílias possam ficar juntas.

O áudio veio à tona quando políticos e defensores se reuniram na fronteira entre os EUA e o México para visitar os centros americanos de detenção de imigrantes e aumentar a pressão sobre o governo Trump.

E a reação sobre a política de imigração se ampliou. A Igreja Mórmon disse que está "profundamente perturbada" pela separação das famílias na fronteira e pediu aos líderes nacionais que encontrem soluções solidárias. O governador de Massachusetts, Charlie Baker, republicano, reverteu a decisão de enviar um helicóptero da Guarda Nacional de seu Estado para a fronteira mexicana para ajudar em um destacamento, citando a política "cruel e desumana" do governo.

Na fronteira, cerca de 80 pessoas se declararam culpadas na segunda-feira (18) por acusações de imigração ilegal, incluindo algumas que perguntaram ao juiz questões como "o que vai acontecer com minha filha?" e "O que acontecerá com meu filho?"

17.jun.2018 - Agente de imigração observa detidos em um centro de detenção de imigrantes ilegais em McAllen, no Texas, próximo à fronteira dos Estados Unidos - U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP - U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP
Agente observa imigrantes detidos próximo ao Vale do Rio Grande, no Texas
Imagem: U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP

Os advogados das audiências disseram que os imigrantes levaram duas dúzias de meninos e meninas para os EUA, e o juiz respondeu que ele não sabia o que aconteceria com seus filhos.

Vários grupos de legisladores visitaram uma instalação próxima a Brownsville, no Texas, que abriga centenas de crianças imigrantes.

O deputado democrata Ben Ray Lujan, do Novo México, disse que o local era um antigo hospital que foi transformado em alojamento para crianças, com quartos divididos por faixa etária. Havia até um pequeno quarto para bebês, com duas cadeiras altas, onde dois meninos usavam camisas de rúgbi com listras laranja e brancas.

Outro grupo de legisladores visitou no domingo (17) um antigo depósito em McAllen, no Texas, onde centenas de crianças são mantidas em gaiolas feitas de cercas de metal. Uma delas continha 20 jovens.

Mais de 1.100 pessoas estavam dentro da grande e escura instalação, que é dividida em alas separadas para crianças desacompanhadas, adultos sozinhos e mães e pais com filhos.

Imigrantes que entraram ilegalmente nos EUA são colocados em gaiolas no Texas - U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP - U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP
Imigrantes que entraram ilegalmente nos EUA são colocados em gaiolas no Texas
Imagem: U.S. Customs and Border Protection's Rio Grande Valley Sector via AP

No Vale do Rio Grande, no Texas, o corredor mais movimentado de pessoas que tentam entrar nos EUA, funcionários da Patrulha de Fronteira dizem que devem reprimir migrantes e separar adultos de crianças como um impedimento para outros que tentam entrar ilegalmente nos EUA.

"Quando você livra um grupo de pessoas da lei... isso cria um atrativo", disse Manuel Padilla, o principal agente da Patrulha da Fronteira.

A líder da minoria da Câmara, Nancy Pelosi, falando a repórteres durante uma visita às instalações de detenção de imigrantes em San Diego com o deputado Juan Vargas e outros democratas da Câmara, disse que a separação familiar é "um assunto bárbaro e doloroso que pode ser mudado em breve pelo presidente da República caso ele revogue sua ação".

"Isso desafia de tal maneira a consciência de nosso país de que deve ser mudado e deve ser mudado imediatamente", disse ela durante uma coletiva de imprensa em um terminal de San Diego que está ligado ao aeroporto de Tijuana, no México, por uma ponte.

O senador norte-americano Ted Cruz, do Texas, anunciou na segunda-feira que estava introduzindo uma legislação de emergência destinada a manter as famílias de imigrantes juntas.

"Todos os americanos estão horrorizados com as imagens que estamos vendo no noticiário, de crianças em lágrimas se afastando de suas mães e pais", disse Cruz. "Isso deve parar."

O presidente Donald Trump defendeu enfaticamente a política de seu governo na segunda-feira, novamente culpando falsamente os democratas.

“Os Estados Unidos não serão um campo de migrantes ou um centro para refugiados”, declarou ele. "Não no meu mandato."

Tradutor: Thiago Varella