Voto no uribismo sociológico na Colômbia

Miguel Ángel Bastenier

  • John Vizcaino/Reuters

    O candidato Juan Manuel Santos é o continuador máximo da obra do atual presidente colombiano

    O candidato Juan Manuel Santos é o continuador máximo da obra do atual presidente colombiano

Mockus defende, como Santos, o neoliberalismo, o atlantismo e a intransigência com a guerrilha

A Colômbia vai votar no uribismo sociológico sem Uribe. No domingo, 30, se realizará o primeiro turno das eleições presidenciais, e a unanimidade das pesquisas estabelece duas constatações: que não haverá maioria absoluta e que ao segundo turno passarão Juan Manuel Santos Calderón, do panteão patrício bogotano, e Antanas Aurelijus Mockus Sivackis, filho de imigrantes lituanos, embora felizmente para suas aspirações batizado católico. E apesar de o grau de devoção ao presidente em exercício, o liberal-conservador Álvaro Uribe Vélez, não ser em ambos os casos exatamente o mesmo, há mais motivos para falar de renovação dentro de uma continuidade básica do que de mudança profunda.

Uribe quis ou ameaçou que queria se apresentar para um terceiro mandato, mas o Tribunal Constitucional frustrou essa eventualidade, e embora as pesquisas dessem uma sólida maioria a favor de que pudesse fazê-lo a decepção dos eleitores por ficar sem a reeleição não foi maciça. A campanha de Mockus - um ex-prefeito de sucesso em Bogotá -, que há apenas algumas semanas parecia irrelevante, logo pegou força com um programa de saneamento do uribismo, o que soube transformar em proposta de mudança. Nas últimas semanas, Mockus disputou um cerrado "mano a mano" nas pesquisas ao candidato inicialmente favorito, e mais de uma casa de apostas o dá como vencedor no segundo turno, graças ao conhecido fenômeno colombiano do TCS: Todos Contra Santos.

O candidato da casa editorial "El Tiempo" - o grande jornal do país -, que encarna o uribismo injetado na veia, é o continuador máximo da obra de seu patrono, de quem foi ministro da Defesa e portanto o braço armado da série de vitórias sobre a guerrilha bandoleira e terrorista das Farc, e o próprio presidente, embora sem transportes de entusiasmo, o proclamou seu delfim. Igualmente, sua política social se prevê tão sucinta quanto a do mandatário de saída, e o alinhamento com Washington pode bater o recorde mundial de genuflexões.

Mockus defende no genérico coisas muito parecidas com Uribe e Santos. Neoliberalismo econômico, atlantismo, intransigência diante da guerrilha, mas se é verdade que o estilo é o homem nos encontramos então diante de planetas de sistemas diferentes. O presidente e seu sucessor são totalmente "establishment", mansão no morro ou fazenda de Antioquia, e ambos políticos profissionais. Mockus, por sua vez, é um acadêmico, filósofo e matemático, que vende honradez, transparência, liquidação de pragas como os chamados falsos positivos de quando altos comandos militares se dedicavam a assassinar agricultores camuflados de guerrilheiros.

O escritor Héctor Abad Faciolince escreveu em "El Espectador de Bogotá" que os colombianos têm de escolher entre "o pai-patrão, o deus pistola na mão, o presidente pavio-curto, ou se afinal poderemos ter no poder um pai moderado". Mas a mudança radical só ameaçava a vitória de Rafael Pardo, a quem seu partido, o Liberal, ou o abandonou ou se abandonou a si mesmo; ou do homem do povo, Gustavo Petro, também deixado ao Deus-dará pela esquerda que representa. Um e outro apontaram a responsabilidade de Uribe nos despropósitos que infestaram seu mandato, enquanto Mockus deixava claro que não acreditava na culpabilidade do presidente.

As hostes do acadêmico confiam que ocorrerá um tsunami da juventude urbana que encha as urnas. Desde os anos 50 nunca votaram nas presidenciais mais de 40% do eleitorado. E nesse sucinto país político, que vive como em circuito fechado, o peso dos que nasceram para mandar e sua disciplinada clientela costuma ser decisivo, e dentro desses limites Santos deveria se considerar favorito. Os seguidores de Mockus, porém, afirmam que desta vez não será assim, sonhando com votações de até 60%. Mas a verdade é que 50% já constituiriam toda uma revolução cidadã.

A candidatura de Santos tem o inconveniente de que parece desgastada mesmo antes de abrir a boca, porque raramente dá um bom slogan confiar no passado, por mais meritório que seja; e a de Mockus, a vantagem de que propõe uma mudança sem risco, tão calculada que o vencedor também seria o uribismo sociológico: de peito aberto no primeiro caso ou com laivos de modernidade no segundo. Mas pelo menos até que o vencedor chegue ao palácio Nariño e possa se dissociar de seu antecessor o uribismo ainda define a natureza e os limites das presidenciais colombianas.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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