Vaticano tem sistema de poder misto que une o laico e o religioso

Miguel Mora

Roma (Itália)

  • Paulo Cunha/AFP

    Em Portugal, papa Bento 16 lembra aniversário de aparições de Fátima diante de fiéis

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Os Gentis-homens de Sua Santidade fazem parte da família pontifícia como o comandante da Guarda Suíça ou os clérigos que trabalham com o papa. Antes se chamavam Camareiros de Capa e Espada, e havia os secretos e os de honra. Em março de 1968, dois meses antes que em Paris fosse proibido proibir, em Roma Paulo 6º aboliu a Corte vaticana e criou os gentis-homens. Montini escreveu com um toque de pena: "Tanto na Igreja inteira, especialmente depois do concílio ecumênico Vaticano 2º, como na opinião pública mundial, abriu caminho uma mais atenta, digamos mais zelosa, sensibilidade sobre a preeminência dos valores puramente espirituais, uma exigência de verdade, ordem e realismo em relação ao eficaz, funcional e lógico, contra o que é só simbólico, decorativo e exterior".

Morto o patriciado, parecia que a modernidade finalmente havia chegado ao Vaticano. E o papa tentava explicá-lo "motu proprio": "Nossa antiga e benemérita Corte - que agora será designada unicamente com seu original e nobre apelativo de Casa Pontifícia - continuará resplandecendo em seu prestígio autêntico, compreendendo eclesiásticos e laicos que, além de sua particular competência e autoridade, se distingam por seus destacados serviços no campo do apostolado, da cultura, da ciência, das diversas profissões, pelo bem das almas e a glória do nome do Senhor".

Saiba-se que os gentis-homens de Sua Santidade não recebem do Vaticano, mas às vezes trabalham dando pompa aos ritos. Vestem-se de preto rigoroso e levam o peitoril do fraque forrado de medalhas. Altivos, fugidios e misteriosos, fazem parte do clube mais exclusivo do mundo e têm a categoria mais alta a que um laico pode aspirar no Vaticano.

Hoje, o trabalho secreto dessa nova nobreza negra é muito estimado em São Pedro. Sua "competência e autoridade" e seus "destacados serviços" representam ações beneméritas para a Santa Sé. Em alguns casos, dir-se-ia que o requisito básico para entrar no clube é ajudar a engordar as arcas do Estado pontifício, o paraíso fiscal mais rico, melhor decorado e mais visitado do mundo.

Alguns gentis-homens são verdadeiros prodígios das finanças. Tomemos por exemplo Herbert Batliner. Nascido em 1928 em Liechtenstein, é considerado pela polícia alemã um dos maiores peritos em criar sociedades fiscalmente obscuras, um grande especialista em lavar dinheiro sujo. Batliner é um dos banqueiros que se movem na sombra das finanças vaticanas. O presidente da Fundação Peter Kaiser trabalha há décadas em silêncio pelo bem da Europa cristã. Pelo menos desde 1970. Foi nomeado gentil-homem por João Paulo 2º em 1998, e continua sendo.

No ano de 2000, segundo revelou uma recente reportagem de "La Repubblica", um empregado do escritório de Batliner entregou à promotoria de Bochum, Alemanha, um CD cheio de dados secretos. Nesse momento ele foi qualificado como o rei dos evasores fiscais em um relatório do serviço secreto alemão, que definiu o "sistema Batliner" como um mecanismo que durante anos havia subtraído ao fisco pelo menos 250 milhões de euros.

Polícia

Apesar do anterior, em 9 de setembro de 2006, Batliner se encontrou com o papa Joseph Ratzinger em Ratisbona, Batliner foi até lá para doar pessoalmente à Igreja local um órgão avaliado em 730 mil euros. Sobre ele pesava uma ordem de busca e captura da polícia alemã. Mas conseguiu entrar no país graças aos bons ofícios da diplomacia vaticana. E não foi detido. Apenas um ano depois, no verão de 2007, Batliner admitiu suas culpas e fez um pacto com o Estado alemão, aceitando pagar uma multa de 2 milhões de euros. Cinco anos antes, a Suprema Corte de Liechtenstein confirmou em uma sentença que Batliner já era em 1990 o fiduciário do equatoriano Hugo Reyes Torres, indicado como chefe mafioso da droga, que nesse ínterim foi condenado.

Enquanto Ratzinger emprega em suas homilias e encíclicas a ética da economia e clama contra os especuladores e "os sacerdotes que tentam fazer carreira para enriquecer", alguns membros desse clube de cavalheiros parecem entender o contrário.

Nem todos, é claro. No clube laico papal figuram 147 notáveis. Embora o título seja vitalício, o papa pode revogá-lo quando considerar oportuno. Batliner ainda não foi expulso. Mas Angelo Balducci, sim.

Balducci é um engenheiro que durante 25 anos se encarregou de executar as obras públicas na região do Lácio, onde se encontram Roma e o Vaticano. Dali passou ao governo central como responsável pelo Conselho Superior de Obras Públicas. Depois de uma vida dedicada a melhorar as infraestruturas italianas e vaticanas, Balducci, de 62 anos, vive hoje na prisão romana de Regina Coeli.

Desde fevereiro Balducci é o principal acusado no escândalo de corrupção da todo-poderosa Proteção Civil italiana, que por enquanto tem mais de 50 pessoas acusadas ou sob investigação. Desde 2001 até agora, o superministério que depende da Presidência do Governo (primeiro-ministro) gastou fundos públicos no valor de 13 bilhões de euros, segundo o último relatório da Autoridade para Vigilância dos Contratos Públicos.

O dinheiro era administrado pelo chefe da Proteção Civil, o secretário de Estado Guido Bertolaso, também acusado de corrupção, e pelo executor das obras, Balducci, graças a uma argúcia autorizada pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, para superar a maldita burocracia e enfrentar as emergências com mais rapidez: a licitação de contratos públicos sem concurso, a dedo, abolindo-se os procedimentos comuns.

Esse tratamento especial criou um monstro de mil cabeças. A Proteção Civil de Berlusconi não se encarrega só de calamidades. Também organiza provas esportivas como o Mundial de Natação, cúpulas internacionais como a do G-8, restaurações de museus e teatros e todo tipo de atividades religiosas.

A investigação dos fiscais de Perugia vinculou desde o início a Igreja Católica com a trama corrupta. Descobriu, por exemplo, que o padre Evaldo Biasini, de 83 anos, gerente da Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue de Jesus, guardava grandes quantias de dinheiro para o construtor Diego Anemone, a quem os promotores acusam de ter recebido numerosos contratos da Proteção Civil em troca de comissões, presentes e favores de toda sorte, desde massagens em seu clube esportivo até reformas de apartamentos. Desde aquele dia, o ancião dom Evaldo passou a ser conhecido como "Dom Bancomat" (dom caixa automático).

Eventos

O "sistema gelatinoso", como o definiram os promotores em seu texto de acusação, "inclui nomes de grande espessura institucional" e se expande por diferentes vias religiosas. A lista de eventos católicos organizados pela Proteção Civil e pagos nestes anos pelo contribuinte italiano é longa, desde o Giro pela Itália do papa no Ano Paulino até as exéquias de João Paulo 2º ou as canonizações do Padre Pio e de São Josemaría Escrivá.

Balducci foi nomeado gentil-homem pelo papa Wojtyla em 1995. Quinze anos depois caiu em desgraça e o Vaticano foi obrigado a cancelar seu nome do anuário pontifício. Mas seu pecado, ironicamente, não foi roubar. Balducci só foi riscado da lista quando se tornou público que recorria com frequência a um tenor africano do coral suplente de São Pedro para que organizasse encontros com jovens seminaristas e sem-papéis. As escutas telefônicas interceptadas do corista e do gentil-homem eram deste estilo: "Tenho um bailarino da RAI", "Tenho um negro...".

Como Balducci, os cavaleiros papais se destacam por seus contatos, seu poder e seu patrimônio. No índice são abundantes os banqueiros, empresários, príncipes, políticos e diplomatas. A Itália encabeça de longe a lista, com 114 "gentiluomini". São seguidos por EUA, com sete, e Áustria e Espanha com cinco cada.

Poucos meses depois de chegar ao trono, em 2005, Bento 16 nomeou seus primeiros sete gentis-homens. Embora a doutrina e a teologia sejam os assuntos favoritos do papa alemão, também lhe preocupa a eficácia organizacional. Nessa primeira lista apareceu o personagem central das perigosas amizades Igreja-Estado. Trata-se do jornalista e político Gianni Letta, 75, secretário de Estado da Presidência do Governo e número 2 de fato do Executivo de Berlusconi em 1994, 2001 e 2008, mentor e protetor de Guido Bertolaso, herdeiro do estilo e da arte para a tubulação política de Giulio Andreotti.

Curiosamente, o poderoso Letta se transformou em gentil-homem muitos anos depois que o anônimo técnico Balducci. Ex-forense, ex-diretor de "Il Tempo" e ex-jornalista da Mediaset, vice-presidente da Fininvest Comunicações, supervisor dos serviços secretos e conselheiro externo do Goldman Sachs para investimentos na Itália, Letta talvez seja o único berlusconiano que adora negociar. Dá-se bem com todos, e comenta-se que é o único político italiano capaz de contentar a maçonaria e a Opus Dei. É o grande mediador, o homem que atende ao telefone quando há problemas.

Abuso de poder

E sua referência na cúria é Ratzinger. "Sob sua aparência de homem religioso, a fatura que Letta passa ao Vaticano é a mais discreta, mas também a mais cara", afirma o sacerdote e vaticanista Filippo di Giacomo. "O doutor Letta tem tanto poder que se permite nomear bispos a sua conveniência, como fez há alguns meses em L'Aquila ao promover seu amigo Giovanni d'Ercole."

No plano familiar, Letta não está só. Seu sobrinho Enrico é um alto dirigente católico do Partido Democrata. Sua filha Marina é casada com o restaurador Ottaviani: é dele o monopólio do "catering" da Proteção Civil. Até agora o nome de Letta só apareceu de forma colateral nas 410 mil ligações telefônicas que os promotores têm depositadas em Perugia. Embora em novembro de 2008 tenha sido imputado por abuso de poder e estelionato em um assunto que parece diferente, mas não é tanto: supostamente, mediou a favor de uma cooperativa do movimento Comunhão e Libertação para a contratação de um centro de assistência para imigrantes.

Quando se revelou o caso da Proteção Civil, o papa dedicou a Letta um "pensamento especial" durante um discurso público. Coisa rara, que significa: é um amigo. Como se explica essa condescendência em um papa tão estrito? Segundo o filósofo Paolo Flores d'Arcais, o problema de Ratzinger é que está preso em um dilema existencial e histórico. "Estou convencido de que sua vontade de limpar a Igreja dos dois pecados capitais, sexo e dinheiro, é séria", diz o diretor da revista "Micromega". "Sua linha é a do Concílio de Trento: dogmatismo radical e ataque aos comportamentos imorais. Quer acabar com os padres pederastas e os prelados corruptos. Mas fazer isso supõe o impossível: sentar Wojtyla no banco dos réus. E isso não é tão fácil quanto pedir perdão pela condenação de Galileu. Representaria reconhecer que seu antecessor encobriu Marcinkus (presidente do banco vaticano IOR entre 1971 e 1989) e Marcial Maciel (dirigente dos Legionários de Cristo). Limpar de verdade o obrigaria a revelar porcaria a granel e a demitir meia cúria. Mas se não o fizer a Igreja continuará perdendo credibilidade. É esse seu dilema."

Letta é o eixo da aliança de Berlusconi com o cardeal Camillo Ruini, ex-chefe da Conferência Episcopal italiana e criador do projeto cultural que ajudou a arrebatar da esquerda a hegemonia intelectual e informativa na Itália. Quando a Democracia Cristã desapareceu em 1993 sob o terremoto de Tangentópolis (o escândalo das comissões dos partidos), seus componentes se distribuíram entre Força Itália e a católica Margarita da centro-esquerda. Depois o católico Romano Prodi nomeou Guido Bertolaso chefe da Proteção Civil em 1996. E o católico Francesco Rutelli, ex-prefeito de Roma, pôs para trabalhar juntos Balducci e Bertolaso no Ano Santo do Jubileu.

Corrupção

Ali nasceu o sistema gelatinoso. O cardeal Crescenzio Sepe, que acaba de ser denunciado por corrupção, era o secretário-geral do comitê organizador do jubileu. O Ano Santo foi uma maionese de negócios, obras, subvenções, presentes, silêncios e favores que ligou altos funcionários públicos com a cúria da Opus Dei e os Legionários de Cristo.

Protegido de Wojtyla, Sepe, agora arcebispo de Nápoles, foi entre 2001 e 2006 o responsável pela Propaganda Fide, hoje chamada Congregação para a Evangelização dos Povos. É o ministério vaticano que se encarrega de financiar as missões e de administrar o patrimônio imobiliário do Vaticano. E seu principal assessor era Angelo Balducci.

A acusação afirma que o cardeal Sepe concedeu de graça um dos 2 mil apartamentos que a Propaganda Fide possui em Roma ao chefe da Proteção Civil, Guido Bertolaso. E que além disso vendeu em 2004 um luxuoso palacete romano a preço de banana (entre 3 e 4 milhões de euros, quando valia 9 ou 10 milhões) ao então ministro de Infraestruturas, Pietro Lunardi, também acusado formalmente por essa operação. A hipótese dos promotores é que em troca Lunardi financiou com dinheiro estatal da sociedade Arcus obras milionárias da Propaganda Fide que nunca foram realizadas.

O cardeal se defendeu acusando seus superiores: "A administração vaticana aprovou todas as operações", disse. E insiste em se considerar um mártir: "Trabalhei sempre com transparência e pelo bem da Igreja, uma Igreja sempre perseguida". Segundo Sepe, foi Francesco Silvano, outro de seus assessores na Propaganda Fide, membro da Comunhão e Libertação e atual economista do arcebispado de Nápoles, quem lhe recomendou emprestar e vender as propriedades.

A investigação revelou que os apartamentos são o principal objeto de intercâmbio de favores entre a Itália e o Vaticano. Chefes dos serviços secretos, da polícia fiscal, dos Carabineiros, magistrados, políticos, empresários e o próprio Bruno Vespa, o jornalista preferido de Berlusconi e de Wojtyla, vivem ou viveram em apartamentos da Propaganda Fide.

O cardeal Sepe foi afastado da Propaganda Fide por Bento 16, no que hoje parece uma tentativa de afastar a cúria italiana e a Comunhão e Libertação da gestão imobiliária. Depois de cinco anos de papado, é um segredo em voz alta que Ratzinger não confia em sua cúria, com exceção de um pequeno punhado de fiéis. Embora tenha substituído o núcleo duro de Wojtyla, o governo vaticano continua nas mãos de grupos como a Opus Dei - seus porta-vozes se empenham em negá-lo -, a citada Comunhão e Libertação e os Legionários de Cristo, embora hoje esteja prestes a desaparecer como movimento carismático para pagar pelos crimes de seu fundador.

Presença dos laicos


Os movimentos eclesiásticos ganharam peso no Vaticano desde o último concílio. Aparentemente solidários, lutam pelo controle dos melhores cargos e negócios, e na refrega esquecem o que for preciso do Evangelho e se dedicam a um ajuste de contas permanente, enquanto os fiéis atônitos assistem ao espetáculo.

E os laicos eclesiásticos controlam amplos setores da política, da informação, da empresa, da caridade, da educação, da saúde e da magistratura. Em Roma exercem uma influência cada vez maior, em estreita e democrática conivência com a centro-direita ateia-devota, mas também com a lânguida oposição do Partido Democrático e a cúria dos bons e felizes tempos do papa viajante.

A fragilidade das ordens religiosas, castigadas pela escassez de vocações, favoreceu a sufocante presença dos laicos. "Em 1998, Ratzinger aumentou a integração laica durante um congresso organizado por Wojtyla", lembra Paolo Ciani, membro da Comunidade de São Egídio, um movimento eclesiástico que conta com 50 mil voluntários distribuídos pelo mundo e só 25 empregados. "Ratzinger releu a experiência das ordens religiosas e monásticas junto com a dos movimentos eclesiais e reconheceu a estes, com seu dinamismo e competência, um papel na Igreja. A mensagem foi que para sobreviver era preciso confiar no rebanho fiel."

Hoje a Cúria Romana é uma máquina ingovernável e reumática que custa anualmente ao Vaticano 102,5 milhões de euros. A estrutura depende da Secretaria de Estado, uma espécie de conselho administrativo com um presidente (o secretário de Estado) e um diretor-geral (o substituto), as duas únicas pessoas que têm acesso direto ao gabinete do papa. No Vaticano trabalham 2.748 pessoas. Delas, 778 são eclesiásticos, contra 333 religiosos e 1.637 laicos (destes, 425 são mulheres).

Os laicos tomaram o poder cooptando bispos e cardeais menos cristãos do que se supõe. "A nulidade da cúria se deve a sua falta de informação e a seu excesso de italianidade", explica o sacerdote e canonista Filippo di Giacomo. "Das dioceses chega o pessoal com conta-gotas porque os bispos demoram para enviar seus melhores homens. As ordens, antes canteiro privilegiado de inteligência e talento, têm cada vez menos matéria cinzenta a que recorrer. Os bons chegam a bispos, e à cúria só chega o pior de cada família."

Assim nasceu um sistema de poder misto que confunde o laico e o religioso, a Igreja e o Estado, a Itália e o Vaticano, a cúria com a elite civil. O sistema se baseia em um enorme poder econômico, sensação de impunidade, gosto pela "omertà" e o encobrimento e a capacidade de infiltração.

A ambição desse sistema é conseguir a fusão fria entre Itália e Vaticano. Em seus esquemas mentais, essa nova cúria negociante e carnal não visualiza dois Estados, mas um único país que poderia se chamar, abreviando, Vaticália. "Impossível confiar em canalhas que usam Deus para satisfazer sua atrofiada vaidade!", diz o padre genovês Paolo Farinella.

A grande caixa-forte laica do momento se chama Comunhão e Libertação (CL). Nascida em 1954 e assim denominada desde 1969, está presente em 70 países; na Itália controla empresas, meios de informação, dioceses, colégios, universidades, hospitais privados e públicos e inclusive uma holding de cooperativas sociais, a Auxilium, que administra vários centros de identificação e expulsão de imigrantes para o Ministério do Interior.

"Há 20 anos a Auxilium é o braço clerical da ultra-direita milanesa", explica Di Giacomo. "Sua estratégia é cultural e política. Seus padres povoam os seminários lombardos; seus prelados se mobilizam onde for preciso." Afirma também que seus chefes ideológicos ditam a lei em diferentes jornais e que sua presença é constante em televisões e rádios: "Mandam a torto e a direito".

Roberto Formigoni é há 15 anos presidente da Lombardia, a região italiana com renda mais alta da Europa, junto com a de Paris-Ile de France. Pertence de pleno direito, e não o oculta, à Comunhão e Libertação. Isso poderia lhe permitir inclusive aspirar a suceder Berlusconi. Nos últimos meses, o governador distribuiu entre os homens da CL, os postos fundamentais da organização da Expo Milão 2015. Um paraíso de contratos públicos, privados e mistos no qual a magistratura já detectou a penetração das máfias.

Quase diariamente vêm à luz novas amizades perigosas. Há poucas semanas os juízes enviaram uma comissão rogatória ao Vaticano porque suspeitam que o tesouro oculto do bando gelatinoso pode estar depositado no IOR - Instituto para Obras Religiosas. E esta semana reclamaram por via oficial os documentos da Propaganda Fide, a imobiliária da Santa Sé.

Embora o trabalho dos promotores seja exaustivo, em Vaticália se sabe que não será fácil para eles apurarem a verdade. O Vaticano continua sendo um paraíso fiscal, o "concordato" lhe concede amplas cotas de imunidade e as contas secretas que prosperam à sombra do IOR, da APSA - a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, a antiga Propaganda Fide e um longo número de empresas participantes são o segredo mais bem guardado.

Apesar dos apelos à limpeza de Ratzinger, as coisas não parecem ter mudado muito. Aqui os mistérios se resolvem com tempo. Com muito tempo. Balducci é por enquanto o grande bode-expiatório. Durante 15 anos ninguém viu nada nem suspeitou de nada: era um gentil-homem e os sinos tocavam a "omertà". Hoje se fala dele, mas logo tudo voltará a seu ser e a gelatina continuará se ampliando. Hoje, em junho de 2010, os italianos ainda não têm uma lei de casais de fato; os imigrantes sem papéis são considerados criminosos e não se respeita o direito de asilo; os homossexuais são agredidos diariamente nas ruas e as mulheres que querem se submeter a inseminação artificial devem emigrar.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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