Tropicalismo em ritmo de rock - ''Aguento as desvantagens da velhice, e são muitas'', admite Caetano Veloso

Carlos Galileam

Em Madri

  • Rafael Andrade / Folha Imagem

    Caetano Veloso, posa para foto em hotel no bairro do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro (13/04/2009)

    Caetano Veloso, posa para foto em hotel no bairro do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro (13/04/2009)

Muito próximo dos 68 anos – ele faz aniversário em 7 de agosto – e com mais de 40 discos lançados, Caetano Veloso tocou na quarta-feira a Madri (dentro da programação de “Veranos de la Villa”) com três músicos que poderiam ser seus filhos. “Com Pedro, que tem 38, trabalho desde “Tropicália 2” e foi ele quem me falou de Ricardo e Marcelo, oito anos mais novos e que tocavam com seu irmão. Sabem muito da música brasileira tradicional, de Nelson Cavaquinho, Ary Barroso, Noel Rosa, e sabem tudo de Devo, dos Smiths e das novas bandas de língua inglesa, que dominam o pop.”

O latino de “Fina Estampa”, intérprete de “A Foreign Sound”, deixou em casa violinos e violoncelos, e desceu para a garagem com os rapazes. Nos seus dois últimos discos em estúdio – “Cê” e “Zii e Zie” (Tios e Tias) – retomou de forma direta suas relação com o rock. Uma referência constante em sua vida. Aquele rock dos anos sessenta, expressão de energia sexual, presente no tropicalismo e em discos como “Velô”, “Uns” e “Transa”. Caetano, que deixou reflexões estimulantes no livro “Verdade Tropical” e em seu filme “Cinema Falado”, possui um conhecimento enciclopédico da canção brasileira do século passado, mas também escuta Radiohead, Pixies e Dirty Projectors.

Suas músicas ajudaram a formar uma geração de poetas e compositores. Ainda que diga que há músicas demais, e que ele mesmo escreveu uma quantidade absurda delas, continua sentindo necessidade de compor. E anda entusiasmado com as que está criando para o próximo disco de Gal Costa, para o qual contará com a ajuda de seu filho Moreno. Pode-se dizer que este filho de Oxóssi nunca faz o que se espera dele. “Mas ou menos, sim”, diz rindo por telefone desde Roma quem sempre fugiu do caetanismo: “não me sigam porque eu não sei para onde vou”, dizia. Em Santo Amaro da Purificação, diante da casa onde nasceu, há um pequeno monumento com a inscrição: “Caetano Veloso, filho da terra, te amamos”.

Pergunta: Como foram recebidos os discos “Cê” e “Zii i zie”?

Resposta: “Cê” teve uma resposta muito boa da crítica no Brasil. Principalmente por parte daqueles que pensavam que iam reagir muito mal, os críticos de rock. “Zii i zie” agradou mais as pessoas acostumadas com meu trabalho anterior. E as pessoas gostam mais desse show. Curiosamente tem menos músicas conhecidas porque as que escolhi do período tropicalista não são sucessos como “Baby”, mas sim “A voz do morto”, “Não identificado”... As músicas de “Zii i zie” têm ritmos de samba e muitas letras políticas.

Pergunta: A letra de “A Base de Guantánamo” diz: “O fato de que os americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar”. Com a chegada de Obama à Casa Branca muitos acharam que essa música ficaria defasada...

R. “Tomara que Obama resolva esta questão tão complicada porque isso me fará feliz”, eu dizia. Mas eu não acreditava. Uma música não fica obsoleta porque os problemas se resolvem. Conhecemos canções históricas que falam de assuntos que eram problemas numa determinada época e vivem porque são um documento do que se sentiu. Seria como se não pudéssemos ler “O Navio Negreiro” de Castro Alves porque a escravidão já foi abolida.

P. Fidel Castro não gostou da letra...

R. Escreveu um texto contra mim no qual me citava junto com Yoani Sánches, e fiquei muito honrado. Agora em Portugal, um desses jornalistas de hoje deslumbrados por um conservadorismo capitalista muito superficial e que se consideram geniais, expressão desse jornalismo que é uma mistura de má fé e estupidez, escreveu um artigo intitulado “Esquerda lá, lá, lá”. Dizendo que é a mesma ladainha absurda da esquerda que pinta Cuba como o paraíso e os EUA como o vilão. Mas minha música diz quase o contrário!

P. Você comentou que Obama lembra seu pai...

R. Na minha família todo mundo acha. Meus irmãos e minha mãe sempre dizem “ele se parece tanto com o papai” quando o veem. Obama mantém a racionalidade sendo coerente. Até quando enfrenta decisões que estariam em desacordo com o que ele prometeu ou com o que ele gostaria de fazer. Não aparece aquela tradição de político que diz uma coisa e depois de ser eleito faz outra e começa a falar como se o anterior tivesse que ser esquecido.

P. Você disse que há algo politicamente trágico nele.

R. Os EUA são um país revolucionário, mas ali se produz um grande esforço contra s próprias promessas fundacionais. E Obama, inclusive na questão racial, surge como uma solução viva. Ele é a mensagem. Mas a direita redobra seu ódio a isso e a esquerda se agarra ao modelo multiculturalista, que não é o modelo que ele representa. Obama representa mais aquele caminho de Martin Luther King de que somos todos um só povo, do quero que meus filhos não sejam julgados pela cor de sua pele mas sim por suas virtudes e capacidades. Eu não gosto do multiculturalismo, isso de que cada grupo tem direito a... Gosto dos princípios universais, como na revolução norte-americana e na francesa. A ideia de cidadão.

P. Cidade é a palavra que mais o agrada na língua portuguesa?

R. Minha preferida. Cidade para mim é aquela em que, como em Paris, Madri, Rio de Janeiro ou Buenos Aires, você sai na rua e é de todos. Todo tipo de gente se encontra nesse espaço e todas têm em princípio os mesmos direitos.

P. Em seu último show em Madri você fez piada dizendo que no Brasil era famoso por falar muito. E, desde maio, tem uma coluna semanal no jornal “O Globo”. Seus encontrões com jornalistas dariam um livro e, segundo o “Estado de São Paulo”, chamou o presidente Lula de analfabeto e mal-educado.

R. As pessoas ficaram com o título e ninguém leu nada [exalta-se do outro lado da linha]. Eu disse que Marina [Marina Silva, do Partido Verde], minha candidata nas eleições à presidência da república, era Lula e Obama. Porque tem a pele escura como Obama e, como ele, fala bem e não tem aquela linguagem grosseira de Lula. Tudo o que disse é certo. Mas eu estava elogiando Lula implicitamente. Acho que foi um presidente muito bom e a sequencia Fernando Henrique Cardoso-Lula foi boa para o Brasil. O fato de um homem de origem humilde que não teve acesso a educação chegar à presidência com a aprovação de praticamente toda a população demonstra que o povo brasileiro não tem preconceitos sociais nem linguísticos. E isso é uma glória para nós.

P. Como vive agora que entrou na infância da velhice?

R. Desfrutando o que se pode desfrutar, aguentando as desvantagens. E há muitas. Antes fazia uma turnê como esta e saí em cada cidade. De dia para olhar as coisas, ir a museus, e de noite para jantar e conversar com amigos. Agora não. Preciso descansar.

P. Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse...

R. Lembro de ter ouvido isso quando era criança em Santo Amaro e me pareceu inteligente. Depois, ao virar adulto entendi melhor, e hoje sei perfeitamente a que se referia [diz, rindo].
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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