Candidatos às presidenciais no México não têm visão que supere ceticismo da opinião pública

Luis Prados

Na Cidade do México

  • Molly Riley/Reuters

    O presidente Felipe Calderón entregará o poder com um balanço de mais de 50 mil mortos

    O presidente Felipe Calderón entregará o poder com um balanço de mais de 50 mil mortos

A crise nos EUA e o crime organizado marcam as presidenciais de julho. O PRI pretende recuperar o poder que dominou durante 71 anos e perdeu em 2000

O México se prepara para eleições presidenciais cruciais em 1º de julho próximo, nas quais estão em jogo a oportunidade de realizar reformas políticas e econômicas que devolvam ao país sua liderança regional ou mais seis anos de estancamento institucional e crescimento medíocre. Muito dependerá para isso da correlação de forças que se estabeleça no novo Congresso - evitando a paralisia dos últimos anos - e de que os partidos sejam capazes de um consenso sobre as grandes políticas de Estado.

A crise nos EUA, que pende como uma espada de Dâmocles sobre a economia mexicana, e a violência do crime organizado - o presidente Felipe Calderón entregará o poder com um balanço de mais de 50 mil mortos - serão dois fatores decisivos na votação. O bem-estar de milhões de cidadãos depende da recuperação econômica do gigante do norte, e a insegurança que açoita o país provocou o temor de que os cartéis da droga influam no resultado eleitoral, seja através de ameaças e compra de candidatos, seja porque os partidos pactuem em segredo com o narcotráfico.

Parte como favorito o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que aspira a voltar ao poder depois de 12 anos. Apresenta um candidato jovem e telegênico, Enrique Peña Nieto, ex-governador do Estado do México, que tenta oferecer uma imagem renovada do antigo partido hegemônico e não parece atado por velhos tabus - pronunciou-se a favor da abertura ao investimento privado do monopólio estatal de petróleo pela Pemex.

Entretanto, uma série de deslizes nas últimas semanas, como confundir autores e títulos de livros e desconhecer o valor do salário mínimo, amplificados pelas redes sociais, que sem dúvida terão um papel importante nas eleições, abriu um debate sobre sua idoneidade para ser presidente.

O PRI leva vantagem sobre seus rivais em organização, logística eleitoral e poder territorial. Governa a maioria dos estados que desde o fim da chamada "presidência imperial" se transformaram em vice-reinados e cuja dívida pública disparou.

O Partido da Ação Nacional (PAN), católico, de centro-direita e no poder primeiro com o presidente Vicente Fox (2000-2006) e depois com Calderón, não decidirá seu candidato até fevereiro. À espera de a quem o presidente dará seu apoio, a melhor situada, segundo as pesquisas, é Josefina Vázquez Mota, ex-secretária (ministra) da Educação. Veem-se como seus pontos fortes sua proximidade com a população e sua condição de mulher. A visita do papa em março e a cúpula do G-20 em junho jogarão a favor do panista eleito.

A esquerda repete candidato com Andrés Manuel López Obrador (Amlo). O PRD (Partido da Revolução Democrática) optou a partir de pesquisas pelo velho caudilho radical contra Marcelo Ebrard, o popular prefeito da Cidade do México, representante de uma centro-esquerda de tom europeu. Amlo, que nunca aceitou sua derrota por estreita margem contra Calderón em 2006, modelou sua mensagem com apelos à reconciliação nacional e à renovação moral da sociedade.

Outro fator a se levar em conta será o papel do Instituto Federal Eleitoral (IFE), árbitro das eleições, cujo prestígio se desvalorizou nos últimos anos por causa da luta partidária.

Ganhe quem ganhar, o vencedor encontrará uma economia cheia de disfunções e reformas - energética, fiscal e trabalhista - inadiáveis. Apesar de o México ter-se mantido a salvo da crise financeira global, os investimentos estrangeiros continuarem fluindo e ter crescido nos últimos dois anos, não conseguiu reduzir a pobreza nesse período nem aumentar a concorrência, e a economia informal emprega mais de 60% da população. No âmbito político, o desafio será consolidar o Estado de direito, contendo a impunidade e a corrupção. A sete meses das eleições, nenhum dos candidatos conseguiu oferecer uma visão do país que supere o ceticismo da opinião pública.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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