Jovens praticam canibalismo em ritual de iniciação de traficantes

Luis Pablo Beauregard

  • David Peinado/ Xinhua

    6.jul.2017 - Policial é visto através de vidro de janela atingida por balas após conflito entre grupos armados, México

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O terror do narcotráfico continua se estendendo pelo México, e por onde avança espalha seus costumes sombrios e cerimônias macabras. A Promotoria de Tabasco, Estado no sudeste do país, alertou sobre o surgimento da antropofagia, ou canibalismo, entre as práticas dos criminosos locais. Dois adolescentes que começavam na carreira criminosa admitiram que foram obrigados a comer a carne de uma de suas vítimas como parte de um ritual de iniciação do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), que luta para se transformar na organização criminosa hegemônica no México.

A promotoria foi muito cuidadosa com a informação relacionada aos menores, de 16 e 17 anos. A junção de três cenas de crimes levou as autoridades à descoberta macabra. O início dessa história violenta foi em 22 de maio. Na tarde desse dia, um grupo de criminosos chegou à Autos Aladino, uma loja de automóveis em Villahermosa, capital de Tabasco. Os criminosos irromperam no comércio em várias motocicletas, disparando. As câmeras de segurança da firma revelaram depois que os criminosos decapitaram viva uma das cinco vítimas do ataque. Primeiro eles mataram dois outros e então cortaram suas cabeças, e os outros dois foram degolados. Para coroar a cena sádica, os criminosos deixaram no lugar um cobertor com uma mensagem assinada pelo CJNG.

Esse caso sacudiu Tabasco, uma região rica em petróleo que viu a criminalidade disparar enquanto os preços do cru despencavam. A queda do petróleo provocou uma crise de segurança no Estado. Em janeiro de 2016, por exemplo, foram registrados 11 homicídios; um ano depois, foram 28. Em maio deste ano o número de assassinatos chegou a 37. Alguns especialistas acreditam que a onda de violência foi provocada por uma disputa entre vários grupos do crime organizado pelo controle da região.

A força de reação imediata mista seguiu a pista do grupo de criminosos depois do golpe à Autos Aladino. Uma nova pista chegou em 26 de maio. Um corpo esquartejado foi encontrado em uma estrada estadual em El Cedro, no município de Nacajuca, a 11 km da capital do Estado --a poucos metros de uma escola militarizada. Junto dos membros encontrados havia outra mensagem: "Isso me aconteceu por mesquinharia e por pedir dinheiro... Todos os Zetas, CDG [Cartel do Golfo], extorsionistas e os que ajudem vão terminar assim. Já começou a limpeza". Assim o CJNG anunciou o início de uma guerra de extermínio de seus rivais.

As extremidades espalhadas pelo asfalto tinham pouco sangue. Isso levou os peritos a determinar que os membros tinham sido congelados. A vítima, entre 19 e 22 anos de idade, tinha sido assassinada 12 horas antes.

As autoridades não puderam ligar os fatos até três dias depois. Um comboio foi atacado com armas longas em 29 de maio enquanto patrulhava a fazenda de Tierra Amarilla, em Nacajuca, próximo do local onde foi encontrado o corpo desmembrado. A polícia tinha seguido as pistas dadas por uma denúncia anônima, e ali foi recebida com rajadas de alto calibre. O apoio do Exército foi determinante para deter 12 pessoas, entre as quais estavam os dois menores. Nenhum dos detidos é originário de Jalisco, Estado onde surgiu a Nova Geração, uma cisão do Cartel de Sinaloa. Um dos detidos era originário da Guatemala. Os demais, de Tabasco.

As declarações do Ministério Público aventaram que algumas partes do corpo da vítima encontrada em Nacajuca haviam sido guardadas em um congelador de uma das casas de segurança do bando. Os menores cortaram alguns pedaços para comer. Uma fonte da promotoria confirmou a "El País" que os jovens criminosos estavam drogados com "pedra (crack) e ácidos" quando degustaram a carne humana. As autoridades também disseram que os menores não demonstraram arrependimento algum depois do fato.

A promotoria não quis dar detalhes sobre o ato de antropofagia. Um jornalista local que tinha escutado alguns investigadores comentarem essa atrocidade perguntou diretamente ao promotor Fernando Valenzuela. "Tem-se conhecimento de que estavam na execução de vários delitos. [Entre eles] um processo de iniciação no qual cometeram atos atrozes", disse o funcionário em uma entrevista à imprensa.

Apesar de escandaloso, o caso não é novo no México. Grupos do narcotráfico como a Família Michoacana e os Zetas recorreram ao canibalismo como batismo de fogo. Um ex-policial de Tamaulipas contou que há alguns anos um bandido originário da Guatemala admitiu que fumou algumas de suas vítimas. O assassino contratado, parte do sanguinário exército dos Zetas, reconheceu em um depoimento ao ministério que cozinhou em diesel o corpo das pessoas que assassinava. As cinzas restantes eram misturadas com maconha em um cigarro que era fumado pelo homicida. "Isso começou a ser feito pelos 'kaibiles' [soldados de elite do Exército da Guatemala] que chegaram com os Zetas. Fumavam o espírito do morto e sua força", conta o ex-policial, que pede para se manter no anonimato. Anos depois, a prática derivou para o consumo de carne humana. A antropofagia é costumeira no longo catálogo de horrores do narcotráfico mexicano.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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