Como ser um "superprevisor" do futuro?

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Você não gostaria de ser capaz de prever o futuro? Claro que sim. Com a volatilidade dos mercados de ações e as ameaças de terrorismo em ascensão, seria bom saber quando o próximo desastre vai acontecer.

Bem, Philip Tetlock pode ajudar. Ele não pode ensiná-lo a ver o futuro, mas transformá-lo em alguém que faz previsões mais inteligentes e confiantes sobre os acontecimentos do mundo, e você nem precisa de um doutorado em política ou economia.

Em seu livro recente "Superforecasting: The Art and Science of Prediction" (Superprevisores: A arte e a ciência de prever o futuro, em tradução livre), Tetlock --que é professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia-- descreve como supervisionou uma equipe de previsores voluntários em um enorme campeonato de previsão, com quatro anos de duração, promovido por uma agência de pesquisa associada ao escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA. Milhares de pretensos previsores participaram.

Os integrantes da equipe de Tetlock, que não eram necessariamente especialistas de qualquer tipo (quem quisesse participar podia simplesmente se inscrever online), foram convidados a prever se determinados eventos internacionais relacionados à segurança dos Estados Unidos aconteceriam no futuro próximo: a Grécia vai deixar a zona euro? A classificação de crédito da Rússia vai cair? Haverá um confronto violento no Mar do Sul da China?

O Good Judgement Project, como a equipe de Tetlock era conhecida, abordou cerca de 500 destas questões, tendo um ótimo resultado. Ao longo dos anos, Tetlock identificou os hábitos e as habilidades dos integrantes do grupo que tiveram melhor desempenho (o top 2%, a quem ele chamou de "superprevisores") --hábitos que, segundo ele, todos nós podemos adaptar para nós mesmos.

Stephen Dubner encontrou Tetlock recentemente para perguntar o que é e o que não é necessário para ser um superprevisor. A seguir estão trechos editados da conversa:

P: Como os superprevisores veem o mundo?

R: Eles têm uma tendência menor de acreditar no destino do que pessoas comuns, os mortais comuns. E têm mais probabilidade de acreditar no acaso. Se você rolar os dados vezes suficientes, coincidências improváveis vão ocorrer. Nossas vidas são nada além de uma série de coincidências bastante improváveis.

P: E quanto ao nível de confiança ou arrogância de um superprevisor?

R: Acho que eles costumam ter orgulho do que conseguiram, mas são realmente muito humildes sobre seus julgamentos. Eles sabem que costumam estar muito próximos de prever o desastre. Eles precisam ser cautelosos.

P: Então você diria que a humildade é uma característica que contribui para prever o futuro?

R: Acho que a humildade é uma parte essencial de ser um superprevisor, mas isso não significa que os previsores sejam covardes que ficam em cima do muro do talvez. Você não ganha um torneio de previsão dizendo talvez o tempo todo. Você ganha um torneio de previsão fazendo apostas bem ponderadas.

P: Vamos falar das habilidades e estilos de pensamento dos superprevisores.

R: Eles tendem a ter a mente mais aberta. Eles tendem a tratar suas crenças não como bens sagrados a serem guardados, mas sim como hipóteses testáveis que podem ser descartadas quando surgem evidências contrárias. Essa é outra maneira em que eles diferem de muitas pessoas. Eles tentam não ter uma ideologia muito rígida.

P: E quanto a uma formação em matemática, ciência ou engenharia? Esses diplomas são úteis?

R: Não são. Há alguns matemáticos e estatísticos entre os superprevisores, mas eu não diria que a maioria dos previsores sabem muita matemática em profundidade.

P: Você pode falar um pouco sobre métodos específicos que parecem contribuir para o sucesso dos superprevisores?

A: Uma das diferenças mais distintas entre a forma como previsores abordam um problema e como os meteorologistas comuns o abordam é que os superprevisores têm o que [o autor Daniel] Kahneman chama de "visão de fora" mais acentuada, em vez da "visão de dentro".

Se eu lhe fizer uma pergunta sobre se um determinado ditador da África subsaariana conseguirá sobreviver no poder mais um ano, um previsor comum pode [começar] procurando os fatos sobre aquele determinado ditador naquele determinado país, enquanto que os superprevisores provavelmente vão se sentar e dizer: 'bem, qual a probabilidade de ditadores subsaarianos que estiveram X anos no poder sobreviverem a mais um ano?' E a resposta para essa pergunta específica tende a ser muito alta. É de cerca de 85 a 95%. E isso significa que o julgamento inicial dos superprevisores será baseado na taxa básica de ocorrências semelhantes no mundo. Eles vão começar com isso e, em seguida, eles irão ajustar gradualmente em resposta às circunstâncias internas idiossincráticas.

Então, sem saber nada sobre o ditador africano ou o país, eu olho para a taxa básica e digo: 'Hmm, parece que cerca de 87%.' Então eu começo a estudar algo sobre o país e o ditador. E se eu descobrir que o ditador em questão tem 91 anos de idade e tem câncer de próstata avançado, devo ajustar minha probabilidade. E se eu descobrir que há motins na capital e indícios de golpe militar em andamento, eu deveria voltar a ajustar a minha probabilidade.

P: E quanto ao QI?

A: É justo dizer que ajuda muito ter uma inteligência um pouco acima da média se você quiser ser um superprevisor. Também ajuda muito saber mais sobre política do que a maioria das pessoas. Eu diria que são quase as condições necessárias para fazer bem. Mas elas não são suficientes, porque há muitas pessoas que são muito inteligentes e de mente fechada. Há muita gente inteligente que acha que é impossível associar probabilidades a eventos exclusivos. Existem muitas razões pelas quais as pessoas muito inteligentes nunca se tornam superprevisores e muitas razões pelas quais as pessoas que sabem muito de política nunca se tornam superprevisores.
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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