Países começam a abandonar o uso do dinheiro

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

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O dinheiro em espécie é muitas vezes um cúmplice no crime, seja no tráfico de drogas, na lavagem de dinheiro, em subornos ou na sonegação fiscal. A troca analógica e antiquada de dinheiro em papel é feita em grande parte anonimamente, tornando-a a forma perfeita para criminosos fazerem negócios. Veja o suborno, por exemplo: o Banco Mundial calcula que cerca de US$1 trilhão em propinas sejam pagos em todo o mundo a cada ano. Boa parte dessa soma é em dinheiro vivo.

Diante disso, muitos países --grandes e pequenos, ricos e pobres-- estão fazendo um esforço conjunto para criar economias sem, ou praticamente sem dinheiro.

A Suécia, um dos primeiros países a introduzirem o papel-moeda, nos idos de 1661, pode ser o primeiro deles a abandoná-lo, já dentro de cinco anos. Os bancos suecos adotaram o depósito direto para os trabalhadores nos anos 1960. Recentemente, a Suécia começou a se afastar da moeda de papel a sério depois que uma série de assaltos bastante midiatizados assustou os clientes. Os bancos começaram a fechar caixas automáticos e a lidar com menos dinheiro vivo, em geral. Então, em 2012, eles lançaram um serviço de pagamento por celular chamado Swish, um aplicativo que hoje é imensamente popular e permite que os clientes transfiram dinheiro em poucos segundos.

Niklas Arvidsson, um professor associado do Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo (KTH), diz que o dinheiro em circulação na Suécia em relação ao PIB é de menos de 2%, em comparação com os 7% dos Estados Unidos. E somente cerca de 20% dos pagamentos de consumidores na Suécia no ano passado foram feitos com dinheiro vivo, em comparação com uma média de 75% no resto do mundo, de acordo com a Euromonitor International.

A Suécia está longe de ser uma exceção em querer minimizar o uso do dinheiro. O resto da Escandinávia está se encaminhando na mesma direção, assim como o resto da Europa, especialmente a França e a Holanda. E também está acontecendo na Ásia: a Coreia do Sul espera se tornar uma sociedade sem dinheiro até 2020.

Até a Índia está deixando o dinheiro de lado, acredita Nandan Nilekani, o bilionário cofundador da gigante de tecnologia da informação Infosys. Apesar da população enorme e relativamente pobre do país e de sua imensa economia informal, a Índia "está na verdade em uma posição singular para dar um grande salto na tecnologia de pagamentos e fazer com que a economia dependa cada vez menos do dinheiro", diz Nilekani.

Nilekani começou em 2009 ajudando o governo a implantar um moderno sistema de identificação parecido com o cartão de Seguridade Social americano para monitorar os benefícios pagos aos cidadãos indianos. Conhecido como Aadhaar, o novo sistema colocou cartões de identificação de alta tecnologia nos bolsos de aproximadamente 1 bilhão de indianos, que dão a seus titulares a capacidade de transferir fundos para outros titulares de cartões e instituições.

De acordo com Nilekani, esse sistema de pagamentos, combinado a outras mudanças recentes --incluindo o rápido crescimento no número de usuários de smartphones (mais de 200 milhões e com tendência a aumentar) e os esforços do governo em persuadir os indianos a abrirem contas bancárias-- está levando a Índia para um "ponto de ruptura" que causará "um aumento drástico nas transações sem dinheiro".

É claro que existem razões legítimas para que os indianos e todos nós fiquemos preocupados em abrir mão de nosso dinheiro, em especial a falta de independência dos grandes bancos e das instituições governamentais que controlariam nossas transações.

A própria pesquisa de Arvidsson sobre nosso relacionamento com o dinheiro sugere um paradoxo intrigante: a maior parte de nós vê o dinheiro como um direito humano básico, mas há cada vez menos de nós preferindo usá-lo. Isso pode significar que, à medida que o dinheiro vai perdendo seu valor prático, ele está retendo e até aumentando seu valor simbólico. Em outras palavras, para alguns suecos, uma cédula de 100 coroas é equivalente à bandeira sueca.

"O dinheiro é um símbolo do Estado da Suécia e as pessoas gostam disso", diz Arvidsson. "Gostamos quando a equipe nacional de hóquei no gelo ou de futebol jogam. Nós nos sentimos como suecos. E parece ser o mesmo com o dinheiro. Nós nos sentimos suecos quando vemos dinheiro sueco, ainda que não o usemos."

Tradutor: UOL

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