Seriam os ricos realmente menos generosos que os pobres?

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

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Como você já deve ter ouvido falar, a desigualdade de renda está aumentando em boa parte do mundo ocidental. E estudos sugerem que tal desigualdade pode prejudicar o crescimento econômico.

Mas e quanto às relações interpessoais? Será que ser rico —ou pobre— afeta como tratamos uns aos outros?

A maior parte dos dados científicos até hoje não foi muito encorajadora: os ricos têm maior probabilidade de tirar doces de crianças, de mentir durante uma negociação, de trapacear em seus impostos e de endossar comportamentos antiéticos no trabalho.

É claro, poderia ser simplesmente verdade que pessoas ricas têm mais oportunidades de trapacear em seus impostos do que os pobres. O comportamento egoísta de uma pessoa não precisa necessariamente se correlacionar com atitudes egoístas inveteradas. O contexto é importante.

É verdade também que muitas das descobertas recentes de que os ricos são mais egoístas se baseiam em pesquisas de opinião ou experimentos em laboratório. E pode ser complicado medir o altruísmo dessa maneira, por uma série de motivos, entre os quais o fato de que pessoas que sabem estar participando de um estudo podem se comportar de forma diferente do que fariam fora do laboratório. Além disso, os participantes de alguns desses estudos eram membros de um único grupo homogêneo, mais especificamente estudantes.

Em uma tentativa de abordar alguns desses problemas, três economistas —James Andreoni, da Universidade da Califórnia, em San Diego; Nikos Nikiforakis, da NYU Abu Dhabi; e Jan Stoop, da Erasmus School of Economics na Holanda— colaboraram recentemente em um audacioso experimento de campo no mundo real para determinar se os ricos realmente são mais egoístas do que as outras pessoas.

Esses pesquisadores identificaram 360 famílias na Holanda: 180 ricas, 180 pobres. As famílias pobres foram encontradas através de registros de auxílios públicos e moradia subsidiada; as ricas, com base no valor de mercado das casas. Stoop vestiu então o uniforme oficial de uma empresa de entrega de correspondências na Holanda—obtido através de amigos—e se pôs a entregar "errado" cartas para todas as 360 casas. Cada envelope semitransparente continha ou dinheiro (em um total de 5 ou 20 euros, equivalente a R$16 ou R$64) ou um cartão de transferência bancária (nesses mesmos valores). Os cartões de transferência só podem ser usados pelos titulares.

Dentro de cada envelope também havia um bilhete escrito por um avô fictício a seu neto "Joost", oferecendo o dinheiro como presente. Joost era uma pessoa real—um pesquisador da equipe—e seu endereço estava escrito de forma clara no envelope.

Os pesquisadores se puseram então a esperar: quem devolveria os euros perdidos do pequeno Joost, e quem ficaria com eles?

Stoop e seus colegas ficaram chocados com suas descobertas iniciais. As famílias ricas tinham uma probabilidade mais de duas vezes maior (81% x 38%) de devolver o dinheiro do que as famílias pobres, e não fazia diferença se haviam recebido dinheiro vivo ou não. "Pensei: 'Falhamos. Descobrimos o resultado errado'", disse Nikiforakis. "De certa forma, eu esperava mesmo que os pobres fossem se sair muito melhor, em termos de bondade, do que os ricos".

Mas quando os pesquisadores se aprofundaram na investigação, começaram a ver que a não devolução do dinheiro por parte dos pobres não se devia ao seu egoísmo inerente, mas sim ao estresse geral que envolve a pobreza (a frustração de viver com o dinheiro contado etc.), o que, como estudos já demonstraram, pode afetar o processo de tomada de decisões e tornar mais difícil executar tarefas básicas. Mesmo as famílias pobres que devolveram seus envelopes o fizeram após um período significativamente mais longo do que as ricas, em média.

Também existe o fato de que 20 euros representam muito mais para, digamos, uma mãe solteira que trabalhe de vendedora do que para uma mãe rica com um trabalho de escritório e um marido que trabalha. Em outras palavras, o dinheiro de Joost significava mais para as famílias pobres do que para as ricas.

Quando os pesquisadores levaram tudo isso em conta, separando qualquer tipo de motivação ética inerente em relação a Joost do estresse da pobreza e do valor mais elevado dado ao dinheiro pelas famílias pobres, eles descobriram que os ricos e os pobres eram na verdade igualmente altruístas. De acordo com Andreoni, "a tendência básica de querer fazer a coisa certa é a mesma para ricos e pobres".

É claro que este é só um estudo. A pesquisa sobre a relação da desigualdade com o altruísmo e outros comportamentos chamados pró-sociais ainda está em evolução. No entanto, ela tem implicações potencialmente profundas para como nós vemos os custos sociais mais amplos da pobreza. "Quando alguém perde parte de sua renda, isso não os afeta só pessoalmente", diz Nikiforakis, "isso também afeta as pessoas ao seu redor, que em outra situação poderiam se beneficiar de ações pró-sociais, de ações altruístas daquela pessoa que agora está pobre. Então quando estamos pensando sobre os benefícios e o custo dos programas de combate à pobreza, precisamos levar em conta esse fator".

Tradutor: UOL

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