Suicídios da Foxconn revelam as duras condições de trabalho na China

Brice Pedroletti

Em Xangai (China)

  • Mike Clarke/AFP

    Manifestantes chineses queimam produtos eletrônicos durante ato contra uma série de suicídios ocorridos entre funcionários da empresa Foxconn

    Manifestantes chineses queimam produtos eletrônicos durante ato contra uma série de suicídios ocorridos entre funcionários da empresa Foxconn

Desde janeiro, onze funcionários se suicidaram nesta empresa terceirizada pela Apple e pela Nokia

Conhecido por sua relutância em falar com a imprensa, Terry Gou, presidente do grupo taiwanês Foxconn, principal fabricante terceirizada mundial da Apple, mas também de outras marcas como Nokia, Dell e Sony, abriu na quarta-feira (26) as portas de sua fábrica de Longhua (província de Shenzhen) a dezenas de jornalistas da China, de Hong Kong e de Taiwan. Nesse local de montagem do iPhone (300 mil empregados), onze funcionários, dos quais o mais jovem tinha 16 anos, se suicidaram desde o início de 2010 jogando-se do alto dos edifícios da fábrica. Como uma zombaria mórbida da operação midiática organizada na quarta-feira, o último se matou na mesma noite.

Vindo de Taiwan em jato particular, Gou apresentou suas desculpas, ao mesmo tempo em que ressaltava que “o índice de suicídios em uma sociedade sobe junto com o aumento do PIB”. Ciente do impacto sobre a imagem de seus prestigiosos clientes, ele prometeu medidas drásticas. Redes já foram instaladas, haverá um maior número de psicólogos, e várias hotlines estarão à disposição dos operários.

Ele reconheceu que a circular distribuída aos empregados no dia 25 de maio, pedindo-lhes que se comprometessem a “não se machucar”, a “aceitar serem enviados ao hospital em casos de problemas mentais” e a não “processar a empresa fazendo exigências excessivas de indenizações”, tinha “uma forma grosseira”.

Estruturas essenciais da globalização, essas ECM (Electronic Contract Manufacturing), empresas terceirizadas encarregadas da montagem de produtos eletrônicos, operam em um ambiente econômico difícil. “Seus clientes sabiam quais eram seus custos de trabalho, e fazem estudos regulares sobre os preços de componentes. As ECM ficam sob fortes pressões, de qualidade, de confidencialidade, de prazo”, explica o representante de um fornecedor de componentes para a Foxconn. A fabricante de computadores Dell anunciou, na quinta-feira, que analisaria as condições de trabalho da Foxconn.

“Gestão militar”

Essa empresa é, segundo ele, “típica do gerenciamento à maneira taiwanesa: de um lado, um diretor superrígido, multibilionário e conhecido por suas traquinagens; de outro, uma forte pressão na fábrica, sem direito a erros, e uma gestão de estilo militar”. O grupo havia causado polêmica em 2006, após uma reportagem sobre as condições de vida em Longhua. Em julho de 2009, o suicídio de um empregado suspeito de ter roubado um iPhone, e perturbado pelo interrogatório e pelas revistas às quais diz ter sido submetido, desencadeou as críticas na internet e na mídia chinesa. O inquérito policial não permitiu determinar a responsabilidade da Foxconn.

Esses suicídios reavivaram a revolta contra a Foxconn. Em Hong Kong, ONGs como a Students and Scholars Against Corporate Misbehaviour (Sacom) organizaram, na terça-feira, um funeral simbólico diante da sede do grupo em Hong Kong. Segundo a Sacom, os operários da Foxconn sofrem uma forte pressão e se sentem isolados. Eles trabalham em média 12 horas por dia, com um salário de base mensal de 900 yuans (cerca de R$ 202), que chega a 2.000 yuans com as horas extras.

Tradutor: Lana Lim

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