Vazamento de óleo atinge sonho americano de vietnamitas na Louisiana

Corine Lesnes

Enviada especial a Nova Orleans (EUA)

Encontramos esses pescadores em Versailles. Não a do castelo, mas sim a do leste de Nova Orleans (Louisiana), a quilômetros do Vieux Carré, o centro histórico. O bairro empresta seu nome de um complexo de apartamentos no qual os primeiros vietnamitas foram alojados quando chegaram aos Estados Unidos, em 1975. Católicos que fugiam do regime comunista, eles haviam respondido ao convite da arquidiocese de Nova Orleans.

Pescadores de camarões no delta do Mississipi, assim como o eram no do Mekong, eles estão sendo diretamente afetados pela maré negra. Hoje a comunidade de Versailles tem mais de 20 mil pessoas, a maior concentração de nativos do Vietnã fora do país, segundo o padre Vien Nguyen, da igreja Mary Queen of Vietnam.

A igreja permaneceu no centro do bairro, e abriu um centro comunitário e uma clínica. Após a passagem do furacão Katrina, em 2005, os vietnamitas de Versailles foram os primeiros a voltar. Em 2008, eles enviaram a Washington o primeiro político de origem vietnamita à Câmara dos Representantes, Joseph Cao, que se destacou no cenário nacional em 2009 por ter sido o único republicano a votar a favor da reforma do sistema de saúde na Câmara.

Os barcos vietnamitas representam um terço dos pesqueiros de camarões no Golfo do México. Os cajuns [descendentes dos acadianos expulsos do Canadá e que se fixaram na Louisiana] não gostam muito deles, e as comunidades vivem em universos separados. Os pescadores vietnamitas passam semanas no mar, e vivem menos nos pântanos do que em Versailles, em pequenos lotes. Eles não alimentam o sonho cajun, mas sim o sonho americano.

A maré negra os atingiu em cheio. Oitenta por cento da comunidade vive da pesca ou dos frutos do mar. Eles foram meio esquecidos até o dia 7 de maio, quando o padre Vien organizou uma primeira reunião de informação. A British Petroleum (BP) enviou dois tradutores, estudantes vietnamitas que falavam uma língua que parecia um pouco demais com “a do regime” de Saigon, segundo uma coordenadora do centro comunitário. A reunião foi interrompida. Desde então, a BP aceitou recrutar tradutores locais.

Em maio, a empresa pagou os primeiros cheques de indenização: US$ 2.500 para os ajudantes, US$ 5.000 para os capitães de barcos. Ela está pagando as indenizações de junho. Mas a ajuda da BP não é suficiente, em uma comunidade onde a precariedade domina. No centro comunitário de Versailles, são dezenas de pessoas que vêm todos os dias pedir ajuda. Ou compartilhar sua ansiedade, como Linda Dins, 55, que chegou em 1981, mas mal fala inglês. Por não poder pescar, seu marido fica em casa bebendo cerveja, quando não sai para jogar em caça-níqueis. Depois do Katrina, estudos mostraram que a violência doméstica aumentou.

Trang Hung veio pedir uma ajuda para pagar o aluguel de seu apartamento. Depois que chegou, em 2006, ele trabalhou no setor de construção civil: o boom pós-Katrina estava no auge. Há dois anos ele fabrica armadilhas para caranguejos. Todas as manhãs, ele vai até a Johnny Crab Trap, uma loja de equipamentos de pesca na Chef Menteur Highway. Se não tem trabalho no dia, ele volta para casa às 13h. Trang Hung não recebeu nada da BP. E com razão: seu empregador não o registrou.

A BP não recusou nenhum caso, mas milhares de reclamações estão na fila de espera. O comandante Thad Allen, responsável pelas operações, teve de escrever ao presidente da empresa Tony Hayward, no dia 8 de junho, para lhe pedir que acelerasse o pagamento das indenizações, especialmente às pequenas empresas que têm empréstimos e juros para pagar. A companhia respondeu que já havia atendido a 19 mil reclamações, em um total de US$ 53 milhões (cerca de R$ 95 milhões). Na Louisiana, ela fez uma doação de US$ 1 milhão para a Igreja Católica financiar vales-alimentação, como os recebidos pelos frequentadores da Mary Queen of Vietnam.

Kim Lee, 44, de cabelos descoloridos, quase loiros, tem seis filhos. Ela recebeu US$ 2.500, mas teve de brigar por eles. A BP lhe pediu que apresentasse um contrato de trabalho, mas ela cozinha em barcos pesqueiros de camarões e geralmente só é contratada de última hora. Ela quer saber se a BP pagará indenizações. Nesse caso, ela pegaria o dinheiro e deixaria a região: há “calamidades demais” em Nova Orleans, acredita.

Tradutor: Lana Lim

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