O trabalho dos climatólogos é isento de qualquer suspeita

Stéphane Foucart

  • AFP

    As ciências climáticas estavam desacreditadas na Europa

    As ciências climáticas estavam desacreditadas na Europa

Muito barulho por nada. Ou nada demais. Dois relatórios divulgados recentemente diminuem em muito a dimensão dos escândalos que, nos últimos meses, colocaram em polvorosa a blogosfera e a imprensa britânica, desacreditando as ciências climáticas.

O primeiro, publicado na segunda-feira (5) pela Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL), avalia a qualidade do último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). A credibilidade deste último havia sido abalada no início do ano com a descoberta de um erro grosseiro sobre a data estimada do derretimento das geleiras do Himalaia.

O segundo relatório, revelado na quarta-feira (7), era muito esperado. Ele relata a investigação, conduzida por um painel científico independente a pedido da Universidade de East Anglia (Reino Unido), sobre o verdadeiro impacto do “Climagate”.

Esse escândalo nasceu da divulgação na internet, no fim de novembro de 2009, de cerca de mil emails, hackeados nos servidores do Climatic Research Unit (CRU) da Universidade de East Anglia. Trechos selecionados dessa correspondência entre climatólogos haviam alimentado – e continuam a alimentar – a ideia de que as ciências do clima são fundamentadas sobre a manipulação e o ocultamento de dados, bem como sobre uma conspiração destinada a reduzir qualquer “dissidência” científica. Alegações difundidas especialmente na França por personalidades como o ex-ministro Claude Allègre, ou ainda o filósofo Dominique Lecourt.

Esse climagate, cujos patrocinadores são desconhecidos, foi alvo de uma atenção considerável na Inglaterra e nos Estados Unidos. Seu espectro também pairou sobre as negociações de Copenhague. Em 7 de dezembro de 2009, durante a primeira sessão plenária da conferência, o representante saudita havia declarado que “o nível de confiança” nas ciências climáticas havia sido “abalado”. Mohammed al-Sabban fazia referência implícita ao conteúdo dos emails hackeados.

Sinal da considerável repercussão midiática do caso, nada menos que três outras investigações foram feitas por universidades e pelo Parlamento britânico. Suas conclusões foram divulgadas nas últimas semanas. A última investigação, publicada no dia 7 de julho, e coordenada por Sir Muir Russell, ex-reitor da Universidade de Glasgow, não destoa das precedentes. Ela exonera de quaisquer desvios os climatólogos do CRU. Segundo o relatório de Russell, “não há dúvidas” sobre “o rigor e a honestidade científicas” destes últimos.

Os estudos conduzidos no CRU são cruciais. Eles consistem particularmente em compilar os dados meteorológicos mundiais para extrair deles a temperatura média da Terra. Portanto, a medição do aquecimento recente depende, em parte, desses trabalhos. Os investigadores dizem “não terem encontrado elementos” que pudessem “pôr em xeque a confiança” depositada nessas pesquisas. Nem ocultamentos, nem manipulações. O relatório Russell exonera também os pesquisadores do CRU de qualquer tentativa de entravar os trabalhos dos céticos.

Entretanto, o relatório Russell não está isento de críticas. O CRU não conseguiu “demonstrar o nível apropriado de abertura”, especialmente na divulgação de determinados dados a terceiros que a pediam. Isso não é tudo. O CRU produziu uma curva de variações de temperaturas que os relatores consideram “enganosa”. Esta, entretanto, se dedicava somente a ilustrar um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), publicado em 1999.

Nessa figura, os pesquisadores reuniam temperaturas termométricas recentes e temperaturas antigas, deduzidas da espessura dos anéis de crescimento das árvores. Os relatores consideram o procedimento lícito, mas acreditam que a legenda do diagrama deveria ter indicado as diferentes proveniências dos dados e as margens de erro. Entretanto, o relatório Russell não encontra “nenhuma prova de que o comportamento dos pesquisadores do CRU enfraqueça as conclusões do relatório do IPCC”.

Este último está no centro da auditoria conduzida pela Agência Holandesa de Avaliação Ambiental. No embalo do “Climagate” e do fracasso das negociações de Copenhague, várias informações da imprensa assinalaram um grande número de erros e imprecisões no relatório do IPCC – e mais precisamente em seu segundo volume (“Impactos, vulnerabilidade, adaptação”), dedicado aos impactos regionais do aquecimento.

O IPCC reconheceu dois deles. O primeiro consistia na avaliação incorreta do derretimento total das geleiras do Himalaia, que um erro de digitação estabelecia em 2035. O segundo colocava 55% do território holandês abaixo do nível médio do mar, contra 26%, que seria o correto (sem contar os 29% do território em zona inundável, o que gerou a confusão). Os jornais britânicos, por sua vez, ressaltaram um grande número de outros supostos erros: exagero na sensibilidade da floresta amazônica à seca, abusiva relação estatística entre aquecimento e danos ocasionados, referências arbitrárias, exagero dos riscos de propagação de certas doenças como a malária, etc.

A maior parte dessas alegações é fantasiosa ou muito exagerada. Na verdade, segundo a agência holandesa, não existe, no “Resumo à atenção das autoridades decisórias” do relatório examinado, “nenhum erro significativo”. “Nosso trabalho não contradiz em nada as principais conclusões do IPCC sobre os impactos, a adaptação e a vulnerabilidade às mudanças climáticas”, escreve a agência holandesa. “Há amplas provas observacionais de que os sistemas naturais são influenciados pelas mudanças climáticas em escalas regionais. Esses impactos negativos apresentam no futuro riscos substanciais na maioria das regiões do mundo, sendo que os riscos aumentam com uma temperatura média global mais alta”.

Entretanto, a agência holandesa formula algumas críticas. Ela pede por mais transparência sobre a proveniência de determinadas afirmações do “Resumo”. E explica ter detectado um terceiro erro significativo nas cerca de mil páginas do corpo do relatório. Trata-se de um erro de cálculo da diminuição dos estoques de anchovas na costa da África Ocidental, como resposta ao aquecimento.

A agência holandesa acrescenta que o “Resumo” dirigido às autoridades decisórias é tendencioso: ele coloca mais ênfase sobre os aspectos negativos do que sobre os aspectos positivos da mudança climática. “Nós acreditamos que essa crítica é infundada”, diz Martin Parry, professor da Imperial College de Londres (Reino Unido) e copresidente do grupo 2 do IPCC. “A tarefa que nos foi incumbida pelos governos é identificar os impactos mais importantes a se levar em conta. Resumindo, devemos colocar ênfase sobre as mudanças das quais devemos nos proteger, em vez daquelas que constituiriam oportunidades”.
 

Tradutor: Lana Lim

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