Universidades francesas discutem a quem o 'Charlie Hebdo' representa

Adrien De Tricornot

  • AFP

    4.jan.2016 - Capa da edição que relembra os atentados ao 'Charlie Hebdo'

    4.jan.2016 - Capa da edição que relembra os atentados ao 'Charlie Hebdo'

Houve grande comoção e muitas manifestações no ensino superior após os atentados de janeiro de 2015. A universidade fez sua parte na mobilização pelos valores da República, com debates, colóquios e uma atualização do Guia da Laicidade, além da abertura de cursos, como o de Brigitte Basdevant, coordenadora da disciplina de graduação República e Religiões da Universidade Paris-Sul, cujas aulas começaram em novembro: "Direito prático e diretamente aplicável, ressituado em um contexto de sociologia das religiões e da França. Nenhum de nós se permite fazer teologia: não temos competência para isso", explica aquela que recebe 25 estudantes em educação continuada.

"É uma iniciativa educativa e explicativa, para criar adesão e compreensão", diz Jean-Paul Udave, diretor da faculdade de educação da Universidade de Montpellier, que abriu no segundo semestre uma disciplina sobre laicidade e multiculturalismo em situações profissionais.

"Perspectiva memorial"

A universidade procurou colocar as coisas em perspectiva e debater o slogan "Je suis Charlie" ("Eu sou Charlie"). "Dizer 'Je suis Charlie' não é necessariamente adotar as linhas editoriais do semanário desde sua criação, mas sim defender a liberdade de expressão. Para isso, é preciso se aprofundar na história do 'Charlie', que tanto para os leitores mais antigos como para mim era o jornal de todas as mobilizações de esquerda, contestador, contra o nacionalismo exacerbado", explica Jean-Claude Zancarini, professor emérito no ENS Lyon, organizador junto com a Lyon-2 e o Sciences Po Lyon do ciclo de conferências e debates "Reflexões pós-Charlie".

"Nós procuramos dar uma perspectiva memorial, partindo da guerra da Argélia—onde esse jornal foi antimilitarista e anticolonialista--, até a Marcha pela Igualdade e Contra as Discriminações etc.", conta Tramor Quemeneur, professor-pesquisador do departamento Europa-Magreb na Paris-8, Universidade de Bernard Maris. Para o historiador, as discussões durante a jornada de estudos "A quem o Charlie representa?" mostraram "uma verdadeira comunhão nos valores comuns da República, originados na Revolução Francesa. Mas ficou em evidência que eles não eram suficientemente aplicados."

Essa constatação foi confirmada por Mélissa Nehari, estudante de línguas estrangeiras aplicadas em Nanterre, preocupada com o aumento de discriminações: "Fomos quase considerados como cúmplices dos terroristas quando não compramos o 'Charlie Hebdo' na ocasião de sua republicação, e agora são os mesmos estudantes que ficam chocados com as últimas capas..."

O Observatório da Laicidade registrou em 2015 uma dezena de casos de discriminação reconhecida que necessitaram de uma punição da escola, sobretudo de professores que se recusaram, apesar da lei, a dar aula diante de uma ou mais estudantes de véu. Somente 140 casos de "desacordos ou conflitos pontuais" ligados á laicidade, envolvendo todas as religiões, foram registrados entre os 2 milhões de universitários.

Tradutor: UOL

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