Opinião: Irã, perdoe nossas ofensas ocidentais

Michel Guerrin

  • Stephane De Sakutin/Pool/Reuters

Para não ofender os olhos do presidente iraniano, Hassan Rohani, que visitou Roma nos dias 25 e 26 de janeiro, a Itália decidiu cobrir as estátuas de Vênus que ornam os Museus Capitolinos. Além de um museu sem nus, o presidente iraniano teve direito a uma refeição sem vinho, Pode-se dizer que são concessões razoáveis, assim como oferecer um cardápio sem carne de porco a estudantes muçulmanos, concessões tradicionais e sutilezas do protocolo por países que procuram vender aviões sendo atentos com o cliente. Mas muitas figuras na Itália, inclusive a do ministro da Cultura, criticaram o que seria uma "rendição" de nossos valores culturais, ainda mais pelo fato de que foi o Irã que pediu para que as esculturas fossem cobertas. O jornal "La Repubblica" resume a questão: "Para não ofender o presidente iraniano devemos ofender a nós mesmos?"

Esse é um assunto delicado que a França preferiu contornar, não prevendo nenhum museu ou jantar, no máximo um lanche e, portanto, sem vinho, para a visita de Rohani a Paris, nos dias 27 e 28 de janeiro. Lembremos que em 1999 a vinda do presidente iraniano Mohammad Khatami teve de ser adiada em seis meses após um incidente diplomático: ele não queria ver nenhum vinho à mesa. O palácio do Eliseu respondeu que não seria possível, pois eles estavam em sua própria casa. "O jantar foi substituído por um lanche oficial", lembra François Nicoullaud, ex-embaixador da França em Teerã.

Esse caso ocorrido na Itália mancha um pouco mais o princípio da universalidade das obras, encarnada por Vênus, que simboliza o amor e a beleza. Em outras palavras, uma obra pertence menos a um país que a conserva do que à humanidade, que deve protegê-la e mostrá-la. O outro princípio prejudicado foi o da reciprocidade. Renzi escondeu suas estátuas, mas se ele for a Teerã ele terá de pedir a suas conselheiras que usem um véu leve, não poderá exigir que suas interlocutoras iranianas não o usem e não terá vinho à mesa, afirma Nicoullaud.

Abismo entre Norte e Sul

A ofensa feita a Vênus ilustra sobretudo o abismo que não para de se aprofundar entre o Norte e o Sul sobre os conceitos de paridade e de diversidade cultural. Em outros termos, enquanto a Europa e os Estados Unidos discutem o lugar das mulheres ou das minorias raciais em seu cenário criativo, o mundo árabe-muçulmano as esconde ou as humilha. Um país como o Egito acaba de condenar a três anos de prisão a cronista Fatma Naout por ter criticado o abate de animais durante o Aid el-Adha, a festa muçulmana do sacrifício, enquanto no Marrocos a atriz Loubna Abidar foi brutalmente agredida no rosto por ter atuado no filme "Much Loved", que fala sobre prostituição.

Em Hollywood, a polêmica tem sido intensa desde que se soube que não havia nenhum negro entre os vinte atores e atrizes indicados ao Oscar deste ano, cuja cerimônia acontecerá no dia 28 de fevereiro. Mas a discussão também tem se dado sobre a questão do gênero. Quando o ator Matt Damon declarou que "Hollywood devia fazer muito, muito mais", ele estava pensando também nas mulheres. A atriz e diretora Julie Delpy ainda deu uma declaração infeliz à revista "The Wrap", no dia 22 de janeiro: "Às vezes eu queria ser afro-americana, pois as pessoas não os detonam tanto".

Curiosamente, no mesmo momento a França das histórias em quadrinhos batia boca por uma razão similar: os trinta nomes pré-selecionados para o Grande Prêmio do Festival de Angoulême eram todos masculinos. De ambos os lados do Atlântico se ouviram vozes dissonantes. Sobre o mesmo tema. Em Hollywood, o ator Michael Caine disse que não se devia zombar do conceito do mérito. Em Angoulême, o desenhista japonês Katsuhiro Otomo, vencedor do Grande Prêmio de 2015, declarou: "No mundo dos quadrinhos ou do mangá, somente o talento conta."

Essas polêmicas mostram que não, o talento não é a única motivação. Então é preciso agir. E as respostas variam. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que administra o Oscar, é uma empresa privada, que trata o mal como se fosse um deficit do comercio exterior. Esse órgão decidiu feminizar e diversificar em quatro anos seus 6.261 membros, uma vez que em sua grande maioria eles são homens, brancos e velhos. É algo muito americano e louvável esse tipo de plano de negócios, mas que evita a questão principal: por que se imagina uma mulher mais na frente do que atrás das câmeras e um negro em lugar nenhum?

Na França, a pouquíssima presença de não-brancos nos palcos franceses continua sendo um tabu, apesar de algumas poucas iniciativas. Em compensação, a feminização de diretores de instituições culturais se tornou um tópico importante nos últimos anos, tendo sido uma luta de Aurélie Filippetti. Tivemos Frédérique Bredin na presidência do Centro Nacional do Cinema, Sophie Makariou à frente do Museu Guimet, Irina Brook no Teatro de Nice, Delphine Ernotte na France Télévisions, e mais recentemente Sylvie Hubac, no Grand Palais. E o caso de Muriel Mayette, no Villa Médicis em Roma, cujo perfil está tão distante do posto que acabamos nos lembrando de que uma mulher também poderia ser ilegítima.

Duas francesas receberam no exterior a oferta de cargos que elas não teriam recebido na França. A discreta Sylvie Patry, curadora do Museu d'Orsay, acaba de ser nomeada vice-diretora da Fundação Barnes, na Filadélfia, um dos museus mais fascinantes do mundo. Já Christine Macel, curadora do Centro Pompidou, será a diretora artística da edição de 2017 da Bienal de Veneza. Ela será a quarta mulher a ocupar esse prestigioso cargo em 122 edições. Uma de suas exposições em Beaubourg foi Dionysiac (2005), em cujo catálogo consta um diálogo seu com o artista Jean-Marc Bustamante, que desde então se tornou diretor da Escola de Belas Artes de Paris e soltou esta: "O homem precisa conquistar territórios; a mulher encontra seu território e ali fica..." Christine Macel não ficou.

Tradutor: UOL

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