Guerrilha considerada 'menor', ELN ameaça acordo de paz na Colômbia

Marie Delcas

  • Jaime Saldarriaga/Reuters

    16.jul.2013 - Integrantes do Exército de Libertação Nacional (ELN) no oeste da Colômbia

    16.jul.2013 - Integrantes do Exército de Libertação Nacional (ELN) no oeste da Colômbia

Em um momento em que as negociações com as Farc se encaminham para uma conclusão, o Exército de Libertação Nacional lança uma ofensiva

Estariam os líderes do Exército de Libertação Nacional (ELN, centro) pretendendo sabotar a paz na Colômbia? Agora que a grande guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, extrema-esquerda) se prepara para assinar um acordo histórico com o governo de Juan Manuel Santos (centro-direita), o pequeno ELN não demonstra querer colaborar.

No domingo (14), o comando central (Coce) do ELN anunciou "três dias de ação armada em todo o território nacional". Três policiais foram mortos na segunda-feira. No norte do país, um ataque contra uma torre de transmissão deixou milhares de casas sem energia elétrica. Dois ônibus incendiados fizeram com que as companhias de transporte intermunicipal hesitassem em tirar seus veículos das garagens em diversas regiões. As autoridades departamentais de Arauca (leste), reduto do ELN, decidiram suspender as aulas durante três dias.

"Nossa ação não é dirigida contra a população", afirmava o comunicado do Coce, que recomendava à população que "não se aproximasse de instalações militares ou policiais". Também houve ataques contra oleodutos, e um balanço provisório aponta para a ocorrência de 35 ações armadas.

Segundo o presidente Santos, "os líderes guerrilheiros estão redondamente enganados se acham que assim conseguirão chegar em posição de vantagem à mesa de negociações".

O "diálogo exploratório" iniciado entre governo e o ELN visando uma negociação de paz já dura quase dois anos, sem nenhum resultado concreto. Uma agenda de conversas já teria sido definida, mas os "elenos" relutam em ir além, parecendo muito divididos e descontentes por serem tratados como guerrilha de segunda classe. Santos fez da paz com as Farc a prioridade absoluta de seu governo.

De acordo com uma pesquisa recente, 67% dos colombianos não acreditam que o ELN queira a paz. Governo e observadores parecem igualmente céticos. "Os elenos nos irritam", suspira um colaborador do presidente colombiano. "O governo agora não tem nenhum interesse em iniciar negociações de paz com o ELN. Os elenos se apressariam para contestar o que foi concedido às Farc, correndo o risco de colocar tudo a perder", acredita o analista Camilo Echandia.

Segundo fontes oficiais, o ELN possui menos de 2.000 combatentes armados, contra 8.000 no caso das Farc. Mas, nas regiões onde ele está estabelecido, mantém uma base social sólida, sobretudo entre os sindicatos, e um certo prestígio entre os estudantes de extrema-esquerda.

Foi em comemoração ao cinquentenário da morte do sacerdote guerrilheiro Camilo Torres, morto em 1966 durante seu primeiro combate, que o ELN decretou três dias de ativismo armado. Professor de sociologia antes de entrar para a igreja e para o ELN, Camilo Torres continua sendo um mito da esquerda radical.

Como lembra Walter J. Broderick, autor de uma biografia sobre Camilo Torres, o ELN e as Farc não possuem as mesmas origens nem a mesma relação com a política. As Farc vieram da luta agrária e do movimento camponês; já o ELN surgiu entre os meios universitários urbanos.

Nascido na esfera da revolução cubana e da "teologia da libertação", por muito tempo dirigida por um padre espanhol, o ELN permaneceu marcado por misticismo e messianismo. "Suas origens poderiam dar a entender que o ELN seria mais intelectual, mais político. Mas não é o caso", afirma Broderick.

"Poder de estrago"

O ELN pode complicar a aplicação dos acordos assinados com as Farc, já que seria difícil verificar um possível cessar-fogo com as Farc se ele continuar atuando. A longo prazo, é grande o risco de que o ELN recupere os territórios ocupados pelas Farc.

O governo quer acreditar que, uma vez assinada a paz com as Farc, o Exército poderá dedicar todos os seus esforços à luta contra o ELN. Na terça-feira, o general Juan Pablo Rodríguez, comandante das forças armadas, afirmava que 90% das ações terroristas tentadas pelo ELN nas últimas 48 horas haviam sido frustradas.

"Mas a vitória está longe de garantida", acredita Camilo Echandia. "O poder de estrago dos elenos é difícil de destruir."

Tradutor: UOL

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