Escritor egípcio é condenado à prisão por suas 'ousadias eróticas'

  • Amr Nabi/AP

     Abdel Fattah al-Sissi, presidente do Egito

    Abdel Fattah al-Sissi, presidente do Egito

Ao folhear a edição de agosto de 2014 da revista literária egípcia "Akhbar al-Adab", Hani Saleh Tawfik sentiu palpitações cardíacas e uma queda na pressão. A leitura de um capítulo do romance ilustrado "Usando a Vida" ("Istikhdam al-Hayat", Ed. Dar al-Tanwir, 2014), do jovem autor egípcio Ahmed Naji, chegou a deixar o homem de 65 anos gravemente doente.

As cenas de sexo que pontuam as peregrinações de Bassam, o jovem herói que arrasta suas frustrações pelas ruas do Cairo, chocaram esse leitor. A história poderia ter parado por aí se Tawfik, ferido em seu "senso de moral", não tivesse decidido entrar com uma ação na Justiça.

Diante do relato do querelante perante a Corte, a defesa apresentou romances do patrimônio islâmico e árabe, igualmente impudicos. Os célebres escritores Sonallah Ibrahim e Mohamed Salmawy foram testemunhar a favor de Ahmed Naji, e ele mesmo lembrou que a obra havia sido aprovada pela censura. O tribunal, considerando que não havia "intenção maliciosa de violar a santidade da moral e dos bons costumes", como afirmava a promotoria, o absolveu em janeiro.

Condenações de artistas e de jornalistas

Como a polêmica cresceu na mídia, o Ministério Público recorreu. No sábado (20), Ahmed Naji foi condenado a dois anos de prisão, a pena máxima por "atentado ao pudor", pelo tribunal de apelação do Cairo. Seu advogado, Mahmoud Othman, contestou este que seria um veredito "contrário à Constituição, que proíbe as penas privativas de liberdade para artistas julgados por suas obras".

As condenações de artistas, de autores e de jornalistas por ultraje ao islamismo ou à moral se multiplicaram nos últimos dois anos. No final de janeiro, a poetisa Fatima Naoot foi condenada a três anos de prisão por ter criticado o abate de animais durante as festas do sacrifício.

Em dezembro de 2015, o tribunal de apelação confirmou uma pena de um ano de prisão contra Islam al-Beheiry, que havia feito um apelo para que retirassem textos religiosos que promoviam o extremismo.

Ibrahim Eissa, na capa de seu jornal "Al-Maqal", escreveu um cáustico editorial dirigido ao presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi. "Seu Estado está violando a Constituição, persegue os pensadores e criadores e aprisiona os escritores e autores", escreveu este crítico dos moralistas e dos islamitas. "Seu Estado é uma teocracia, senhor presidente, sendo que o senhor está sempre falando em um Estado moderno e civil."

Tradutor: UOL

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