Refugiados participam de primeira conferência internacional na Alemanha

Frédéric Lemaître

  • Alexandros Avramidis/Reuters

Mais de 1.600 imigrantes vindos de diversos países europeus realizaram sua primeira conferência internacional

Eles vieram da Itália, França, Reino Unido, Tunísia, Polônia, Dinamarca, Bélgica e, é claro, de outras cidades da Alemanha. No total, mais de 1.600 refugiados e militantes se encontraram entre os dias 26 e 28 de fevereiro em Hamburgo para participar de uma "conferência internacional dos refugiados e imigrantes", neste momento em que a Europa tem fechado cada vez mais suas portas.

Entre togoleses, camaroneses, malineses, sírios, afegãos, eritreus, ganenses e iraquianos, muitas vezes sem documentos e sempre sem dinheiro, muitos deles assumiram o risco de passar por uma ou mais fronteiras para se exprimirem e passarem uma imagem de si mesmos diferente daquela que é veiculada pelos discursos políticos.

Os responsáveis por esse fascinante encontro foram os "Lampedusa em Hamburgo", um grupo de africanos que, depois de terem chegado à Itália em 2011, acabaram indo parar nessa cidade portuária do Báltico onde já conduziram diversas ações com a palavra de ordem: "Estamos aqui para ficar".

Com a poderosa ajuda do teatro de Kampnagel, um dos quatro teatros públicos de Hamburgo, que colocou sua logística à disposição deles, os "Lampedusa" reuniram 70 mil euros (sendo 24 mil da fundação Robert Bosch) para pagar pela viagem e pelas refeições dos participantes. Já para a hospedagem, as 800 pessoas que não vinham de Hamburgo, em sua maior parte, ficaram hospedadas na casa de particulares. Os debates em sessão plenária (traduzidos por voluntários para sete idiomas) e as oficinas foram mais consensuais do que se poderia imaginar.

Ainda que nos abrigos a coabitação entre católicos e muçulmanos ou entre árabes e africanos nem sempre seja fácil, os participantes conseguiram passar por cima dessas divergências. Todos traziam duas reivindicações principais: a liberdade de circulação e a liberdade de instalação. "Como é possível que dentro do espaço Schengen muitas vezes não tenhamos o direito de sair de determinado departamento, no caso da França, ou de determinado Estado-região, no caso da Alemanha?", observa Sisseko, um ativista parisiense da coalizão internacional dos imigrantes em situação irregular (CISPM).

Criada em 2011 por iniciativa de refugiados na França e na Itália, a CISPM agora está presente em diversos países europeus e começa a ser reconhecida pelas autoridades europeias.

O egoísmo da Europa

É claro, esses refugiados são os mais bem posicionados para saber que suas reivindicações não estão realmente na pauta do momento. Patrick, membro italiano da CISPM, chega a acreditar que, após o fechamento da fronteira austríaca na passagem de Brenner, "existe uma outra Lampedusa sendo formada no nordeste do país".

Os refugiados evidentemente não têm a mesma abordagem da situação que os ocidentais. "Em 2008, eu precisei de quase um ano para passar da Turquia para a Grécia. Agora bastam alguns dias", comemora Adam, um africano que vive em Berlim. Longe de criticar os coiotes, todos denunciam a agência Frontex, criada pela União Europeia para proteger as fronteiras, e atacam o egoísmo da Europa.

"Desde a conferência de Berlim em 1885 que a África está em uma situação caótica. É preciso reescrever a história da Alemanha e da África e proceder com a reconciliação", acredita Emmanuel, da República Democrática do Congo, em referência à reunião organizada pelo chanceler Bismarck que facilitaria a partilha da África entre as potências coloniais. "Estão expulsando os imigrantes, mas ao mesmo tempo empresas europeias estão comprando nossos terrenos para produzir artigos destinados à exportação. A população não tem terras", ele diz.

Mas será que migrar realmente vale a pena?

"Fugir da guerra para morrer no mar, isso não funciona. Eu tento dissuadir as pessoas de virem. É preciso sobretudo lutar pela democracia em nosso próprio país", constata uma africana que emigrou para Londres. Para tentar limitar os naufrágios no Mediterrâneo, "120 militantes distribuídos por 14 países criaram em outubro de 2014 o Alarm Phone, um número de emergência. Quando nos ligam a partir de um barco, sabemos imediatamente sua posição e alertamos o resgate. Já recebemos 5.000 chamadas", explica o tunisiano Mouni.

Os problemas começam bem antes da Europa. "Vim para a Europa porque os argelinos e os marroquinos são muito racistas", conta Dao, um malinês refugiado na Alemanha. "No Marrocos, eles matam os imigrantes", afirma o camaronês Trésor.

Em toda parte a situação só parece se agravar. "Considerando os conflitos no Oriente Médio e as diferenças de renda entre a África e a Europa, a onda migratória vai continuar" independentemente das medidas adotadas pela União Europeia, acredita Ali, um dos organizadores da conferência. Um sinal de que eles não esperam nada dos políticos é o fato de que nenhum foi convidado para falar. A próxima reunião será no outono, em Berlim.

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