O mistério do 'quarto comando' nos atentados recentes de Paris

Soren Seelow

  • Michel Euler/AP

    30.dez.2015 - Soldado faz patrulha em frente à catedral de Notre Dame, em Paris, no reforço de segurança implantado em locais públicos após os ataques do Estado Islâmico

    30.dez.2015 - Soldado faz patrulha em frente à catedral de Notre Dame, em Paris, no reforço de segurança implantado em locais públicos após os ataques do Estado Islâmico

Dois falsos refugiados, detidos na Áustria, tiveram contato com os organizadores dos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris

Um mês após os atentados de Paris, dois requerentes de asilo que viajavam com passaportes sírios falsos foram detidos para averiguações, no dia 10 de dezembro de 2015, em um centro de refugiados de Salzburgo, na Áustria, por porte de documentos falsos. Vários elementos logo levaram os investigadores franceses a suspeitarem que eles teriam alguma ligação com os autores dos ataques de 13 de novembro.

Será que esses dois homens formavam um quarto comando que deveria ter atacado Paris naquela noite ou uma célula dormente que poderia ser ativada na Alemanha? A natureza exata da missão deles ainda não foi estabelecida. Apesar das repetidas mentiras contadas durante a custódia, os investigadores da Direção Geral da Segurança Interna (DGSI) por fim conseguiram descobrir o estado civil deles e revelar seus contatos com os autores dos atentados do 13 de novembro.

Segundo informações obtidas pelo "Le Monde", o primeiro deles, que dizia se chamar Faisal A., na verdade se chama Muhammad U.

Uma informação vinda de outro país descreve esse paquistanês de 22 anos como tendo sido o "artífice" para dois grupos jihadistas paquistaneses punjabis, com a reputação de serem próximos da Al Qaeda: o Lashkar-e-Jhangvi e o Lashkar-e-Toiba.

O segundo, que se apresentava uma hora como Fozi B., outra hora como Fozy A., apareceu na documentação especializada com a identidade de Adel H., um argelino de 28 anos que teria se juntado à organização Estado Islâmico (EI) em fevereiro de 2015.

Esses dois homens chegaram à ilha de Leros, na Grécia, no dia 3 de outubro de 2015, entre um grupo de 199 migrantes no qual se infiltraram os dois terroristas iraquianos do Stade de France, eles também portadores de passaportes sírios falsos, como relatou o "Le Parisien" em meados de fevereiro. Segundo informações do "Le Monde", Abdelhamid Abaaoud, o suposto organizador dos atentados de 13 de novembro, teria estado em Leros durante esse período. Alguns dias antes de sua morte, uma testemunha relata que ele se vangloriou de ter aproveitado o fluxo de imigrantes para trazer "90 terroristas" para dentro da Europa.

Estoque de passaportes em Raqqa

Ao assumir o controle da cidade síria de Raqqa, o EI se apoderou de um grande estoque de passaportes virgens, que distribuiu aos homens enviados em missão para a Europa. Essa técnica de infiltração havia alertado as agências de inteligência após os atentados de Paris: os dossiês contendo fotos e impressões digitais de 197 migrantes que aportaram em Leros naquele dia, com os dois terroristas de Saint-Denis, haviam sido imediatamente repassados para todos os países europeus.

Mas, no dia 3 de outubro, quando Muhammad U. e Adel H. desembarcaram na Grécia, os ataques de Paris ainda não haviam ocorrido, e as autoridades locais não conseguiam dar conta do fluxo de imigrantes. Os dois homens foram detidos por "porte de passaportes falsos" até o dia 28 de outubro, um contratempo que pode tê-los impedido de executar sua missão. Quando eles saíram da cadeia, foram alvo de um procedimento simples de deportação que determinava que eles deveriam deixar a Grécia com seus próprios recursos em um prazo de 30 dias.

Eles voltaram a ser rastreados no início de dezembro, na Áustria. Os dois homens, que seguiam a rota dos migrantes através da Macedônia, da Sérvia, da Croácia e da Eslovênia, entraram com um pedido de asilo junto às autoridades austríacas usando identidades diferentes das de seus passaportes falsos. A comparação de suas impressões digitais com as do controle de Leros os desmascarou, e eles voltaram a ser colocados sob custódia por porte de documentos falsos.

Já no dia seguinte à detenção deles, os juízes franceses encarregados da instrução dos atentados de novembro enviaram uma comissão rogatória para a Áustria, para que os dois homens fossem ouvidos pela DGSI, e declararam: "As investigações efetuadas tanto na França quanto na Bélgica determinam que outros atentados estavam previstos para breve, nesses dois países e talvez também em outros países europeus, que várias equipes penetraram na Europa com esse intuito, de maneira que é muito provável ou até certo que outros terroristas se encontrem atualmente em solo europeu, prontos para cometer ataques."

As primeiras declarações dos requerentes de asilo pareceram amplamente "fantasiosas" na opinião dos investigadores da DGSI. Adel H., que usa três identidades diferentes, afirmou ter tomado um voo entre Argel e Istambul no dia 15 de outubro, uma data incompatível com sua verificação na ilha de Leros, feita duas semanas antes. A investigação estabeleceu que, na verdade, ele havia pego um voo Argel-Istambul oito meses antes, em 15 de fevereiro de 2015. Em seguida, ele teria aproveitado para entrar para o EI antes de voltar para a Europa.

"Eu queria ir à Alemanha", ele explicou aos investigadores. "É um belo país. As pessoas são legais lá. Gosto da seleção de futebol deles. Queria ir para a capital alemã, em Frankfurt".

A Alemanha, onde se multiplicaram as detenções dentro da esfera jihadista nas últimas semanas, é considerada um alvo do EI em razão de sua política de acolhimento a refugiados sírios. "Você tem contato com pessoas em algum outro país da União Europeia (UE)?" perguntou o investigador. "Não, não conheço ninguém na Europa. Não tenho contatos", respondeu Adel H.

Células dormentes

No entanto, os policiais encontraram no telefone de Adel H. uma série de números austríacos, gregos, italianos, ingleses, espanhóis, franceses, alemães, turcos e belgas, dentre os quais identificaram sobretudo dois que confirmaram a ligação terrorista. No dia 3 de novembro, uma tentativa de chamada para um telefone turco, apagada da memória do aparelho, remetia a um número conhecido dos investigadores: ele constava, rabiscado, em um papel amassado encontrado no bolso de um dos dois terroristas do Stade de France, que chegaram a Leros no dia 3 de outubro.

Esse número interessou muito às agências de inteligência, que o descreveram como "associado a membros de uma rede de apoio logístico para a organização Estado Islâmico". Ele aparece também na lista de Omar D., um belga de 35 anos próximo de Abdelhamid Abaaoud, detido em Atenas no dia 17 de janeiro de 2015, na ocasião do desmantelamento da célula de Verviers, que planejava um atentado na Bélgica. Um outro número de telefone, este grego, também constava nos contatos desse cúmplice de Abaaoud e de Adel H., confirmando as ligações entre as duas células.

"Várias hipóteses foram levantadas", explicou uma fonte policial. "Era para esses dois falsos imigrantes terem cometido o atentado previsto para o dia 13 de novembro no 18º distrito de Paris, mencionado no comunicado de reivindicação do EI, e foram impedidos de agir por terem sido detidos em Leros, ou eles formavam uma célula levada a agir posteriormente em algum outro país da UE, como a Alemanha."

Os juízes franceses, que não pretendem fazer do caso do 13 de novembro o receptáculo de todas as células dormentes disseminadas na Europa, esperam definir com mais precisão a missão desses dois homens antes de indiciá-los. A Justiça austríaca, por sua vez, abriu um processo contra eles por participação de um movimento terrorista.

Tradutor: UOL

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