Análise: O surgimento do "trumpismo"

Alain Frachon

  • Jim Young/Reuters

Sua vulgaridade é evidente, difícil não notar! Todos conhecem suas tiradas racistas, segundo as quais os mexicanos seriam "estupradores" ou "criminosos". Todos sabem de sua propensão em insultar seus adversários; o "New York Times" contou mais de 200 tweets incendiários assinados por Donald. É impossível ignorar que ele é apaixonado por si mesmo; o "trumpismo" seria, em primeiro lugar, um narcisismo.

Deve-se reconhecer que é um homem com talento de bufão digno de um apresentador de reality show de sábado à noite, coisa que ele é também. Já entendemos que ele é "muito rico", assim como ele se apresenta como "malvado" mas "inteligente", duro nos negócios, e que ele colocará todas essas "enormes" qualidades a serviço de seu programa de governo. "Enorme" também é esse programa, de "devolver aos Estados Unidos sua glória passada".

Mas, politicamente, quem seria Donald Trump, o líder entre os aspirantes à candidatura republicana para as eleições presidenciais de 8 de novembro? O que é o "trumpismo" no tabuleiro político americano?

Não é um epifenômeno, um óvni que surgiu de repente na campanha eleitoral. O trumpismo é produto do Partido Republicano, ou, mais exatamente, aquilo que esse partido se tornou nos últimos 30 anos. A marca registrada do trumpismo é uma cultura política diretamente originada na concepção que os republicanos têm de vida pública: uma guerra civil.

No "Washington Post", o analista político Robert Kagan, que durante um tempo flertou com o neoconservadorismo, diz que os republicanos pariram um "Frankenstein" que vai devorá-los. No decorrer de uma deriva direitista desvairada, iniciada no final dos anos 1980, o partido passou para as mãos dos "puros", um grupo dominado em sua maior parte por fundamentalistas cristãos, que têm uma obsessão: reverter as conquistas libertárias dos anos 1960, restaurando a ordem moral pré-sixties. Os três "G" do programa social são para: God ["Deus"] (a favor), Guns ["Armas"] (a favor) e Gays (contra).

Vitória total ou nada

Mas o programa não conta aqui. O que está em jogo é uma determinada concepção da política, em forma de jogo de soma zero: a vitória total ou nada. A plataforma agora tem valor bíblico, todo candidato deve se submeter a ela ao pé da letra. A própria noção de conciliação é uma "traição", e o acordo bipartidário, uma deslealdade.

Se os republicanos têm a maioria no Congresso (como hoje), sua missão é simples: destruir o presidente. Todas suas iniciativas devem ser contestadas, com uma única estratégia: a obstrução.

Os republicanos se tornaram "o partido do não". Eles entravam uma democracia baseada em um jogo institucional sutil, os famosos "pesos e contrapesos", que requer incessantes concessões entre a Casa Branca e o Congresso. Mas a partir do momento em que o programa é sacralizado e o adversário é demonizado, o acordo é um sacrilégio.

Aqueles que cedem a ele devem ser combatidos. O Tea Party, última encarnação do "purismo" republicano, brilha na denúncia das elites de Washington e na promoção, na política, do "insurgente", aquele que não vem do "meio". Melhor ainda se ele não tiver nenhuma experiência, pois chega virgem de qualquer concessão.

Nessa batalha, tudo é permitido: insinuações, teorias da conspiração, rumores espalhados por uma nova categoria de mídia—desde a Fox News até o editorialista conservador Rush Limbaugh—e, mais ainda, pelas redes sociais. Fazendo o papel da figura insurrecional, que insulta as elites do país, Trump se apoia nos seis milhões de seguidores de seu perfil no Twitter (quem ainda lê a imprensa tradicional?).

Trump é produto da degeneração política, uma mistura de fé no homem providencial e da recusa da complexidade, impulsionada pelos republicanos há 30 anos. Mas, embora tenha entrado na onda anti-imigrantes, ele não resgatou todo o programa republicano.

Como rei dos cassinos, ele não prega a volta à ordem moral.  Na economia, ele bica da esquerda democrata. Aproveitando a desilusão com o livre-comércio, ele defende os grandes programas sociais, a tributação de Wall Street e o protecionismo. Ele pretende construir um exército "tão poderoso que ninguém ousará desafiar os Estados Unidos", mas condena as aventuras bélicas dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Em compensação, ao criticar a imprensa, as associações de classe e a elite, ele segue o retrocesso republicano, encarnando uma tendência em ascensão nas democracias: o autoritarismo. Partidário assumido da tortura e admirador de Vladimir Putin, ultranacionalista e xenófobo, ele respeita a força e despreza a conciliação, além de defender programas sociais e protecionistas, o que cheira um tanto aos anos 1930 e a ascensão de uma certa extrema direita na Europa.

No "Financial Times", Jacob Weisberg, fundador da "Slate", cita um livro do escritor americano Sinclair Lewis (1885-1951) ao falar de Trump. O romance de 1935, chamado "It Can't Happen Here" ("Isso não pode acontecer aqui"), faz uma alusão à emergência das direitas duras europeias.

Mas no livro "isso" acontece, com um empresário eleito presidente, o ultranacionalista Buzz Windrip, que despreza as liberdades políticas e, que assim como Trump, quer um governo de empresários. Windrip tem como programa "Voltar a fazer dos EUA um país orgulhoso e rico", slogan que, assim como o de Trump, seduz uma ampla parte do eleitorado que sofre com a crise econômica...

Windrip continua sendo um personagem de ficção. Mas, até poucas semanas atrás, os especialistas acreditavam que uma vitória de Trump nas prévias republicanas seria algo absurdo, e hoje, o trumpismo é uma realidade política.

O que mais se ouve em um comício de Trump? "Saia daqui"

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Tradutor: UOL

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