Marselha fecha o cerco em tradicional ponto de prostituição da cidade

Luc Leroux

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Após o fechamento de dez "american bars" pela Justiça, a prefeitura espera transformar o bairro do Ópera

Dez "american bars" do bairro do teatro Ópera de Marselha, a dois passos do Porto Velho, tiveram seu fechamento ordenado pela Justiça após uma ampla operação efetuada no final de 2015, alvos de uma investigação por exploração de prostituição.

Esse quadrilátero hipster durante o dia, formado por algumas ruas em torno do teatro municipal, se transforma em submundo à noite. Mas não por muito mais tempo se depender da prefeitura, que quer aproveitar esses fechamentos para transformar o bairro.

Seria esse um dos últimos capítulos de uma Marselha pitoresca que a polícia judiciária encerrou? Foram colocados lacres nas fachadas muitas vezes decadentes do Ginger, do 5e Saëns, do Dark Side, do Brasilia e do Sweet Lady, que até ontem ficavam abertos até as 6h da manhã. Os neons de cores berrantes não piscam mais, e as mulheres de vestidos curtos deixaram seus banquinhos nas vitrines, de onde elas chamavam os homens que passam pela rua Glandeves: "Ei, querido!"

"Bonus da rolha"

Batizada de "Caso Brazil" pela brigada de repressão ao tráfico e à exploração da prostituição, a investigação aberta após a queixa de uma antiga acompanhante em 2014 levou uma dezena de gerentes suspeitas de atuarem como cafetinas à prisão feminina de Baumettes. A maior parte delas é sexagenária, a mais velha delas tendo quase 70 anos.

Meses de monitoramento telefônico convenceram a Justiça de que esses "bares de champanhe"—as acompanhantes os chamam de "bares de programa" ou de "puteiros"—abrigavam um "proxenetismo discreto".

Nesses estabelecimentos, o cliente pagava pela garrafa de champanhe entre 250 e 400 euros, um preço que na verdade esconde o pagamento de um programa praticado em um hotel vizinho, em "uma sala privativa" do bar ou até "atrás de uma cortina". O serviço sexual é diferente quando se paga por um simples drinque, entre 20 e 60 euros. As acompanhantes recebiam 20 euros por noite e o "bônus da rolha" lhes rendia 80 euros por garrafa e 10 euros pela taça.

Elementos sempre presentes nesse proxenetismo, todas as gerentes e as garçonetes de bar, muitas delas tendo praticado a prostituição ou trabalhado como acompanhantes, negam terem sido cafetinas.

"Não, nós vendemos vento", afirma a dona do Sweet Lady. "Eu só peço para que elas conversem com o cliente, o seduzam", confirma "Gigi" do Dark Side. "Enquanto eu não vir com meus próprios olhos que as acompanhantes estão se prostituindo, não acreditarei", afirma Chantal, gerente do Brasilia e do Beverly. E quando o juiz de instrução pergunta: "Então que vantagem há para o cliente em comprar uma garrafa de 300 euros?", a gerente responde: "Existe um lado festivo, é divertido."

No entanto, uma garçonete do Sweet Lady reconheceu, indiretamente: "Acontecia de depois de uma ou duas garrafas, se o cliente quisesse, se houvesse um bom entendimento com a acompanhante e se ela estivesse de acordo, eles se isolarem um uma das duas salas privativas."

Nas escutas, quando as gerentes falam entre si são mais explícitas, ressaltando que a prostituição das acompanhantes é o melhor meio de ter um faturamento. Muitas vezes o champanhe servido era misturado com água, ou, como admite uma proprietária, "é espumante comprado a 1,50 euro no mercadinho em frente."

Cocaína

As vítimas são muitas, em razão de uma grande rotatividade das acompanhantes. Uma delas contou como a gerente a contratara "simplesmente para incentivar os clientes a consumirem" e a aconselhava a se mostrar "mais sedutora".

"Um dia ela me disse que eu devia me soltar, e pediu para que eu subisse junto com um cliente frequente da casa. Ela disse que tinha meus documentos em casa e que eu tinha uma dívida com ela". Para conseguirem aguentar, já que "os clientes chegam às 3h ou 4h da madrugada e as noites são longas", as acompanhantes consumiam cocaína. Dois fornecedores dos bares do Opéra foram indiciados.

Em 2001 a polícia já havia intercedido nesses bares que são chamados de "american bars" porque tempos atrás as paradas dos navios de guerra dos Estados Unidos no porto de Marselha lhes traziam uma grande clientela. Dessa vez a prefeitura pretende acabar com essa nefasta Marselha da noite e "requalificar" o bairro do Opéra.

"Eu já sei o que não quero", explica Sabine Bernasconi (Partido Les Républicains), prefeita dos 1º e 7º distritos. "Não quero bar de narguilé nem botecos ou qualquer coisa que possa baixar o nível, sendo que com dez pontos comerciais sendo liberados de uma vez temos a oportunidade de substituir esses comércios de maneira ambiciosa."

"Clientela controlada e comportada"

No entanto, a ideia não é acabar com a vida noturna do Opéra, onde funcionam casas noturnas e bares, verdadeiras instituições "com uma clientela controlada e comportada". A polícia também mostra "uma vontade de sanear o setor, ao mesmo tempo em que ele preserva sua vocação noturna".

Tanto à direita quanto à esquerda há quem insista na necessidade de se "gentrificar" esse bairro, onde durante o dia já funcionam bares e restaurantes da moda. "Sinceramente", diz Patrick Mennucci, deputado da região pelo Partido Socialista, "ter inferninhos fuleiros assim não é mais interessante, quando hoje a prostituição se dá pela internet".

A morte anunciada dos "american bars" só comove alguns poucos nostálgicos. "Marselha é um porto com marinheiros; para quê limpar esse centro da cidade se, nesses estabelecimentos onde trabalham essas coitadas, não há violência?", questiona Jean-Jacques Campana, advogado de uma das gerentes.

Edouard, que em sua minúscula oficina de relojoaria que dá para a praça do Opéra consertou os relógios de luxo dos mafiosos corso-marselheses que tiveram o bairro como reduto por muito tempo, era perfeitamente adaptado à coabitação.

Aos 77 anos de idade, ele conta que um dia, enquanto consertava a joia de uma prostituta do bairro, esta foi chamada por uma colega: "Rachel, rápido! Os barcos americanos chegaram!" E a cliente respondeu: "Não saio com americanos, eles bebem como poloneses e suam em cima da sua barriga". "Era assim nossa velha Marselha", suspira o artesão, que reconhece: "É verdade que hoje as coisas estão totalmente diferentes."

Tradutor: UOL

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