Apesar de derrota regional, Merkel pode continuar chanceler em 2017

Arnaud Leparmentier

  • Fabrizio Bensch/Reuters

"There is no alternative": todos se lembram do slogan urticante da falecida Margaret Thatcher, "não há alternativa", que queria impor em marcha forçada sua revolução neoliberal.

A expressão foi retomada no ano passado em sua versão bruxelo-luxemburguesa pelo presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, a respeito das tentativas dos gregos de se libertarem das regras do euro ao mesmo tempo em que permaneciam na zona do euro: "Não há uma alternativa democrática para os tratados europeus". E eis que essa doença atravessou o Reno: "There is no alternative to Merkel", apesar do revés eleitoral sofrido no domingo (13) pela chanceler alemã.

As eleições em três Estados-regiões viram a extrema-direita invadir com tudo o cenário político alemão. O Alternative für Deutschland (AfD) obteve 12,6% dos votos na Renânia-Palatinado e 15,1% em Baden-Württemberg, regiões fronteiriças da França, e 24,3% na Saxônia-Anhalt, terra miserável da antiga Alemanha Oriental.

No entanto, nada vai mudar. Em Baden-Württemberg, são os Verdes que manterão o posto de ministro-presidente. Na Renânia-Palatinado, os social-democratas (SPD), e na Saxônia-Anhalt a União Democrata Cristã (CDU) de Angela Merkel. Tudo está bem quando acaba bem.

É verdade que em nível nacional, a chanceler lamentou ter sido "um dia difícil" para seu partido. Ela violou a implacável lei da direita alemã, de nunca deixar subir um partido que esteja à direita da União Cristã-Social (CSU) da Baviera.

Esse partido, que é uma curiosa mistura de conservadorismo social, de catolicismo, de alta tecnologia e de festa da cerveja em short de couro, até hoje permitia saciar os impulsos direitistas de toda a Alemanha. Mas a crise dos refugiados acabou com essa barreira.

"Entrave mútuo"

No entanto, a chanceler decidiu não mudar sua política de asilo, que foi a responsável por esse ardor extremista. Porque ela se manteve fiel a suas convicções e, alguns dirão, em um tom tanto mitterrandiano, porque é de seu interesse: a ascensão dos extremistas paradoxalmente convém a Merkel, que reinventou o jogo onde quem perde é quem ganha, com a aproximação das eleições gerais do outono de 2017.

A política alemã é um jogo de alianças entre os partidos que obtêm mais de 5% dos votos. A ascensão dos extremistas do AfD e a estabilidade dos esquerdistas do Die Linke, se essas tendências se confirmarem, reduzirão consideravelmente as possíveis combinações entre os partidos de governo: uma CDU, que apesar de tudo chegue em primeiro lugar, uma SPD ainda mais moribunda pelo fato de que Merkel vem esvaziando seu eleitorado ao conduzir uma política de centro-esquerda, e os Verdes.

Resultado: Merkel tem todas as chances de continuar sendo chanceler em 2017, a menos que ela caia, como vítima de um golpe interno. Mas as pessoas confiam nela: "Mutti", que começou sua carreira nocauteando no final de 1999 Helmut Kohl e seu sucessor Wolfgang Schäuble, continuou sua carreira de aniquiladora: no domingo, como se não fosse nada, ela se livrou da estrela em ascensão da CDU, Julia Klöcker, que não conseguiu conquistar a Renânia-Palatinado.

No entanto, a grande coalizão à la Merkel tem produzido efeitos perversos a longo prazo: ela reduz a competição política entre partidos democráticos e facilita, como se viu, a emergência dos radicais. Moderação demais prejudica a moderação. Pelo menos a Alemanha é governada com prudência, segundo as convicções da maioria dos eleitores e dos parlamentares. Então ela é privilegiada se comparada com a França, que é incapaz de se reformar e tem enfrentado o tripartidarismo com a ascensão da Frente Nacional.

Todos conhecem o sistema americano, onde o candidato que chega em primeiro lugar leva todos os mandados: "the winner takes it all'. Como somos franceses e mais inteligentes, inventamos um outro sistema, ainda mais grotesco: "the loser takes it all" ("o perdedor leva tudo").

Foi o verde Daniel Cohn-Bendit que revelou o óbvio. "Em junho de 2017, a eleição presidencial consagrará a FN como maior partido da França", escreveu Cohn-Bendit junto com o jornalista Hervé Algalarrondo ("Et si on arrêtait les conneries", Ed. Fayard). Mas Marine Le Pen não será eleita, e os autores deduzem a partir disso que "a França será motivo de chacota para o mundo democrático, pois o segundo maior partido do país—o Les Républicains ou o Partido Socialista—estará prestes a monopolizar todos os poderes: o Eliseu (presidência), Matignon (primeiro-ministro) e a Assembleia Nacional."

Dany, que deveria ser um idiota em matemática, levanta curiosas equações: 31,2=55,5 e 28,6=50,3. Nós encontramos a resposta: o desempenho de Sarkozy e de Hollande em 2007 e 2012 no primeiro turno da presidencial se transformou em maioria absoluta no Parlamento pela magia da eleição majoritária.

No entanto, o caso leva à paralisia, uma vez que nem Sarkozy nem Hollande efetuaram a "ruptura" ou a "mudança" prometidas. Porque a base popular das maiorias eleitas é estreita demais. Porque cada campo é profundamente dividido.

"A esquerda não tem mais legitimidade para governar sozinha e a direita não está em uma forma muito melhor", acredita Cohn-Bendit. Já se ouve a voz da FN, que se alimentou das acusações da UMPS. Injustamente. "A verdade é que a FN se alimenta essencialmente não de uma suposta cumplicidade entre a esquerda e a direita, mas sim da rixa permanente entre elas, que resulta em um entrave mútuo", escrevem Cohn-Bendit e Algalorrondo.

Logicamente, o líder do Maio de 68 faz um apelo para que se siga a Alemanha, com a introdução do sistema proporcional nas eleições legislativas, a criação de uma grande coalizão que permitiria "dividir as responsabilidades para de fato exercê-las".

Quando a França tiver sido governada e reformada muito ao centro e por muito tempo, será a hora de denunciar os danos do consenso à moda alemã.

Tradutor: UOL

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