Premiê britânico atenua política de austeridade por aqueles que apoiam "Brexit"

Philippe Bernard

  • Yves Herman/Reuters

David Cameron é obrigado a atenuar sua política de austeridade por causa de partidários conservadores do "Brexit"

A três meses de um referendo sobre o "Brexit", de alto risco para o governo de David Cameron, o primeiro-ministro britânico tentou, na segunda-feira (21), na Câmara dos Comuns, apaziguar a profunda querela que abala o Partido Conservador desde a súbita renúncia, na noite de 18 de março, do ministro do Trabalho, Iain Duncan Smith, figura proeminente da ala do "out" (a favor da saída da União Europeia).

Oficialmente, Duncan Smith, ex-líder do partido (2001-2003), justifica sua saída por sua oposição à política de austeridade que afeta os mais pobres conduzida pelo ministro das Finanças George Osborne. Mas a retórica da justiça social usada pelo ministro demissionário disfarça mal a crescente ruptura entre os tories a respeito da União Europeia.

Esse conflito sobre a austeridade é atiçado, senão suscitado, pela perspectiva do referendo do dia 23 de junho e pelas rivalidades que essa data exacerba, sobretudo em caso de vitória dos partidários do "Brexit". Ao deixar o governo, o ministro do Trabalho associa os responsáveis pela política de austeridade ao campo pró-europeu que ele combate e compromete as chances do pró-europeu George Osborne de suceder Cameron, como ele ambiciona.

No domingo, em uma bombástica entrevista para a BBC, Duncan Smith acusou Osborne de ter apresentado um orçamento "profundamente injusto" e acusou Cameron de "se deixar levar para uma direção que divide a sociedade em vez de uni-la". Duncan Smith diz ter renunciado em protesto contra um corte de 1,3 bilhão de libras esterlinas (R$ 6,7 bilhões) que afetariam os auxílios pagos a deficientes.

O ministro faz um paralelo entre a austeridade imposta aos mais desfavorecidos, as isenções fiscais concedidas no mesmo orçamento aos contribuintes mais ricos (diminuição de imposto sobre ganho de capital e sobre as empresas) e a proteção para a renda dos aposentados, tradicional clientela eleitoral dos tories. Ele chega a acusar o governo conservador de gerir o orçamento dos benefícios sociais como "uma caixinha que não tem importância porque seus beneficiários, os trabalhadores pobres, não votam em nós."

Adesão dos eleitores de esquerda

David Cameron, que apresenta os tories como "o partido das pessoas que trabalham", é diretamente criticado. Na segunda-feira, diante dos deputados, ele afirmou que Osborne e ele mesmo dirigiam um "governo moderno e compassivo".

Enquanto o "Times" relata declarações pouco amenas --"ele deu uma bola fora", teria dito Cameron a respeito de seu número dois--, o primeiro-ministro defendeu seu "honorável amigo" George Osborne afirmando que o progresso social era impossível "sem finanças públicas sadias". "Devemos continuar aliviando o deficit, controlando o custo dos benefícios sociais e gastando dentro dos limites", disse o primeiro-ministro. Do outro lado, Jeremy Corbyn, o líder dos trabalhistas, pediu a demissão de George Osborne, criticando um orçamento "cuja desigualdade está no coração", sem realmente conseguir ser ouvido em meio à comoção causada pelas declarações de Duncan Smith.

Este último, em uma alfinetada venenosa contra Osborne, na véspera havia zombado das "restrições que impusemos a nós mesmos" e que são "cada vez mais vistas como especificamente políticas e não voltadas para o interesse econômico do país". A referência era contra as ambições políticas do ministro que quer a qualquer preço obter um excedente orçamentário até 2020, ano em que ele ambiciona ser o sucessor de David Cameron.

Mas a repentina revolta de Duncan Smith contra a austeridade não convenceu muito. Até hoje, o ministro não havia encontrado nada de novo para dizer sobre os cortes orçamentários feitos nos orçamentos sociais. A principal reforma que ele defendia visava incentivar os pobres e deficientes a aceitarem empregos mal-pagos para reduzir os custos sociais.

Consequentemente, sua verdadeira motivação seria minar a campanha a favor da manutenção na União Europeia. Colocando-se como defensor da justiça social, ele poderia buscar conseguir a adesão dos eleitores de esquerda à causa do "Brexit". Ao atacar Osborne de frente, ele enfraquece, em um momento crucial, um homem cujos bons resultados macroeconômicos (desemprego em 5,1%, crescimento de 2,2% em 2015) consolidam a autoridade na campanha contra a saída da UE.

Na segunda-feira, Stephen Crabb, o novo ministro do Trabalho, foi obrigado a anunciar a retirada de todos os cortes orçamentários que afetariam os deficientes. Essa capitulação deixa um buraco escancarado em um orçamento que Osborne terá de defender em uma difícil tarefa a partir de terça-feira, diante dos deputados.

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Tradutor: UOL

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