Por decreto, Putin coloca ex-guarda-costas no comando de nova guarda nacional

Isabelle Mandraud

  • Dmitry Lovetsky/AP

    Em foto de arquivo, o presidente russo, Vladimir Putin, e seu então guarda-costas, Viktor Zolotov, em Sochi

    Em foto de arquivo, o presidente russo, Vladimir Putin, e seu então guarda-costas, Viktor Zolotov, em Sochi

Viktor Zolotov está atento. Atos terroristas, golpes, tumultos, agora qualquer coisa que possa entravar o governo de Vladimir Putin entra no campo de ação do chefe de uma nova guarda nacional, criada por decreto presidencial. No dia 18 de maio, a Duma, câmara baixa do Parlamento russo, começará a examinar o projeto de lei.

É uma simples formalidade, uma vez que os deputados da Ccomissão de Defesa já previram dar a essa nova entidade o poder de atirar contra as multidões em casos de "ataques terroristas, de distúrbios em grande escala ou de ataques armados contra uma propriedade do Estado".

Ao final dessa reforma inédita, o ex-guarda-costas e companheiro de judô do chefe do Kremlin dirigirá todas as Forças Armadas internas do país, ou seja, cerca de 350 mil pessoas. Ele controlará todo o comércio de armas e supervisionará as empresas privadas de segurança.

No pequeno círculo dos "siloviki", termo usado na Rússia para os oficiais vindos de serviços de segurança e de inteligência, o general do Exército Viktor Zolotov, 61, tomou uma dianteira sobre seus muitos concorrentes na órbita do Kremlin.

"Todos fazem parte de uma mesma geração formada nas escolas soviéticas dos anos 1970-1980 com uma visão bastante estreita de mundo e um enorme desprezo pelo Ocidente", observa Fiodor Krasheninnikov, presidente do Instituto pelo Desenvolvimento e pela Modernização das Relações Sociais em Yekaterimburgo.

"Mas dentro desse grupo, Zolotov se torna o novo 'braço direito' de Putin, que passa por cima do governo."

De fato, o atual ministro do Interior, Vladimir Kolokoltsev, está tendo amputadas de si suas forças de intervenção, entre elas a Omon (anti-distúrbios) e as SOBR (unidades de intervenção rápida).

Nascido em Riazan, 180km ao sul de Moscou, Viktor Zolotov entrou já nos anos 1970 para a KGB, onde ele integrou o "departamento 9" encarregado da segurança dos dirigentes soviéticos.

Sob ordens de Alexandre Korjakov, então chefe da segurança pessoal de Boris Yeltsin, ele figurava ao lado deste último, quando no dia 19 de agosto de 1991, o futuro primeiro presidente da Rússia se opôs contra a tentativa de golpe dos comunistas conservadores. Uma foto imortaliza Yeltsin empoleirado sobre um tanque em frente à Casa Branca, a sede do Conselho dos Ministros em Moscou, cercado por dois homens.

Mas -- o mais importante -- Viktor Zolotov vem do clã de São Petersburgo. Tendo se tornado muito rapidamente o guarda-costas de seu prefeito reformista, Anatoli Sobtchak, ele conheceu ali, no início dos anos 1990, seu vice Vladimir Putin.

Em 1996, Zolotov passou para o setor privado, trabalhando para a empresa de segurança Baltik Eskort, fundada por um ex-siloviki, Roman Tsepov (cujo nome verdadeiro é Belinson), que lidava também com gangues mafiosas.

Envolvido em diversos processos criminais, o empresário foi alvo de várias tentativas de assassinato antes de falecer em 2004, aos 42 anos de idade, em condições bem parecidas com as de Alexandre Litvienko, um ex-agente da KGB envenenado com polônio dois anos mais tarde, em Londres. Zolotov assistiu ao enterro de seu amigo Tsepov. Nessa época, ele já havia entrado para o Kremlin.

Eleito presidente em 2000, Vladimir Putin assim que tomou posse já o nomeou chefe de sua guarda pessoal, um posto que ele veio a ocupar até 2013.

Os dois homens não se separaram mais. A alta estatura de Zolotov, fosse à paisana ou de uniforme, o rosto inexpressivo por trás de seus óculos escuros, agora aparecia em todas as fotos, um passo atrás de seu mentor. Dizem que sua lealdade é à prova de tudo.

"Ele verifica a comida do presidente, que teme cada vez mais um envenenamento", escreveu a revista russa "The New Times", que em 2014 lhe dedicou um perfil intitulado "O homem por trás".

"Para se ter uma ideia do grau de confiança que Vladimir Putin depositou nele, foi sob seu controle que construíram o palácio de Guelendjik", uma residência de 12 mil m2 à beira do mar Negro de propriedade de um oligarca, mas atribuída ao presidente.

Nomeado em maio de 2014 primeiro adjunto do ministro do Interior, Zolotov, cujos bens foram avaliados em 940 milhões de rublos (R$ 50 milhões) pelo opositor Alexei Navalny, já era cogitado para dirigir uma futura guarda nacional.

"Fortaleza sitiada"

"O projeto nasceu naquele momento, em reação aos acontecimentos da Praça da Independência na Ucrânia, mas também às grandes manifestações de 2012 na Rússia, para combater eventuais ameaças internas que são levadas muito a sério pelo Kremlin", ressalta Alexei Makarkine, especialista do Centro de Tecnologias Políticas de Moscou, um think tank independente.

Com a aproximação das eleições legislativas de setembro, essa grande reforma tem alimentado um pouco mais os temores da oposição.

"A ideologia da fortaleza sitiada", para usar a expressão de Yevgueni Minshenko, autor de um estudo que todo ano é atualizado sobre o círculo de contatos do chefe do Estado, "Politburo 2.0", é reforçada e favorece "a posição dos belicistas bem como os fatores de lealdade e de devoção ao presidente".

Com a guarda nacional, "o intuito é criar uma estrutura de força vertical, sob ordem direta do presidente, e Zolotov é um ator importante, pois ele tem uma longa história de contato pessoal com Putin", observa Minshenko.

Essa ascensão conspícua provavelmente não agradou a todo mundo. No dia 18 de abril, em um artigo de rara violência publicado no "Kommersant-Vlast", um outro belicista, Alexandre Bastrykin, chefe do Comitê de Investigação, o braço armado do Kremlin, defendeu o modelo chinês para o controle da mídia e das ONGs.

"Está na hora de erguer uma barreira eficaz contra a guerra de informações" conduzida pelos ocidentais, segundo ele. "Já chega de brincar de uma falsa democracia seguindo valores pseudo-liberais".

Para descrever os jogos de poder soviéticos, Winston Churchill tinha uma frase célebre: "Uma briga de buldogues sob um tapete". Vinte e cinco anos após a queda da URSS, essa deliciosa expressão parece continuar mais atual do que nunca.

Tradutor: UOL

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