Os atentados do "Charlie Hebdo" vistos com o olhar do teatro

Joëlle Stolz

  • Eric Feferberg/AFP

Em Munique, Elfriede Jelinek, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2004, dedica sua peça "Wut" aos ataques de Paris

Não importa o quão rápido ela escreva, a realidade sempre alcança Elfriede Jelinek. No sábado, 16 de abril, em Munique, ela apresentou seu novo petardo teatral, "Wut" ("fúria", em alemão): a resposta da autora austríaca aos massacres perpetrados por terroristas islâmicos, um ano antes em Paris, contra a redação do "Charlie Hebdo" e um supermercado kasher.

Dois dias antes da estreia, militantes de extrema direita perturbaram, no grande anfiteatro da Universidade de Viena, uma apresentação de sua peça anterior, "Die Schutzbe-fohlenen" ("Aqueles que têm direito à proteção", termo jurídico alemão), dedicado aos requerentes de asilo.

Os xenófobos espirraram sangue artificial nos atores, requerentes de asilo que representavam seu próprio papel, e estenderam uma faixa criticando a "hipocrisia", segundo eles, da atitude de compaixão para com os estrangeiros.

Redigido em 2013, depois que requerentes de asilo ocuparam durante semanas uma igreja vienense, esse texto foi encenado na Áustria e na Alemanha, sobretudo desde que a crise dos refugiados passou a dominar a Europa.

Uma "pequena epopeia"

Em compensação, não houve manifestações hostis em Munique, onde a plateia dos Münchner Kammerspiele já estava ganha pela iniciativa da escritora, laureada pelo Prêmio Nobel de Literatura em 2004, por sua capacidade de cutucar as feridas de nossos tempos, desde a herança do nazismo até os abusos do liberalismo.

Hoje recuada do mundo por causa de uma grave agorafobia, Elfriede Jelinekl divide seu tempo entre Viena, onde por muito tempo ela viveu junto com sua mãe, e Munique, onde vive seu marido. E continua extraordinariamente reativa à atualidade, combatente das palavras emboscada por trás de sua única arma: o computador.

No dia seguinte aos atentados de janeiro de 2015, ela começou essa "pequena epopeia", como ela a apresenta na edição online (mais de 110 páginas bem espremidas), com um aviso ao leitor, em uma piada sobre sua propensão a escrever textos longos: "Então, Elfi—diminutivo de Elfriede--, não dava para ser mais curto?"

Faz tanto tempo que o teatro de Jelinek abandonou qualquer tentativa de definir personagens ou de recortar diálogos, que ele mais parece um processo de escrita automática. A cada vez que a autora ativa sua máquina infernal, o texto se fabrica sozinho (ela nunca relê seus próprios textos), integrando os desdobramentos cuspidos pela mídia.

Esquivas verbais

Pela primeira vez, ela não forneceu qualquer indicação de cena àqueles que se encarregaram de dar a "Wut" uma forma sonora e visual. "Jelinek entendeu, como pouquíssimos autores conseguem, que uma peça de teatro é o produto de um trabalho coletivo", explica Benjamin von Blomberg, diretor artístico do Kammerspiele. "Quando ela diz: 'Façam o que quiserem', não se trata de uma faceirice intelectual, mas sim de uma atitude radical, que nos dá em troca uma incrível liberdade."

Um texto como esse deve ser lido em voz alta, com um ouvido musical, antes de ser trabalhado: segundo Blomberg, determinar a versão cênica (pouco menos de quatro horas sem intervalo, mas os espectadores podem sair para esticar as pernas mais ou menos na metade), "já é a encenação, e as melhores situações muitas vezes surgem das primeiras tentativas dos atores de dar vida ao texto".

Cada peça de Jelinek é um "work in progress", uma obra sempre suscetível a alterações, como alusões bastante atuais ao escândalo de Böhmermann, o humorista que na Alemanha foi acusado de ultraje ao chefe do Estado por ter provocado o presidente turco Erdogan na televisão, dia 31 de março.

É um diretor experiente nesse formato instável, o alemão Nicolas Stemann, em sua nona colaboração com Jelinek, que está comandando o projeto, com seus métodos de costume: música ao vivo e projeção de vídeo, figuras grotescas e ícones da cultura pop, sem esquecer da presença intermitente de Stemann entre os sete atores, onde se destacam a formidável Annette Paulmann, bem como Julia Riedler, que encarna uma atriz desafiando a dupla Stemann-Jelinek, e em outro momento, Jesus Cristo convidando outras divindades (Buda, Zeus e Ganesha) a uma reunião amigável, coroada por um selfie. Sem a presença de Alá e do profeta Maomé.

O público leva um segundo susto quando aparece o ator Franz Rogowski, de minissaia dourada e salto alto: "Ei!", este logo tranquiliza a plateia, "vocês não estão achando que sou Maomé, né? Sou uma caricatura de Böhmermann".

Isso porque apesar de incessantes acrobacias e esquivas verbais, o assunto abordado por Jelinek é sério. "Wut", essa palavra que tem a mesma raiz que "Wotan", o deus germânico da guerra, é a fúria destrutiva, a fúria de Héracles que, cegado por Hera, aniquila sua própria família. É a fúria dos jihadistas europeus que massacram outros europeus. Durante a apresentação é possível ouvir a voz de Jesse Hughes, o cantor do Eagles of Death Metal, que tocavam no Bataclan durante os ataques de 13 de novembro de 2015, mas também a de François Hollande anunciando que "A França está em guerra."

Então a guerra assombra esse texto como já assombrava "Babel" (2005), a peça de Jelinek sobre a intervenção americana no Iraque após o 11 de setembro. Ali é possível encontrar a mesma fascinação horrorizada pelos instrumentos do massacre—dos verbetes da Wikipedia sobre os mísseis, as pessoas passam para os dos fuzis kalashnikov--, com a diferença de que este tem acontecido em nossas terras, e que o do Oriente Médio tem levado às nossas portas centenas de milhares de refugiados.

A autora, que completará 70 anos em outubro, não teve força física para assistir a um único ensaio, ainda que tenha dado à equipe do teatro uma entrevista pela internet. Ela declarou a eles que "Wut" seria seu texto derradeiro. "Ela realmente teme que tenhamos entrado em uma era de confrontos, que seja o fim do diálogo, que a fúria esteja tomando conta de tudo", diz Benjamin von Blomberg. "Mas se ela realmente parar de escrever, quem vai substituí-la?"

Tradutor: UOL

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