Milícia de mascarados persegue "coiotes" na Líbia

Frédéric Bobin

  • Hani Amara/Reuters

    Miliciano participa de ação contra a imigração ilegal em Trípoli, na Líbia

    Miliciano participa de ação contra a imigração ilegal em Trípoli, na Líbia

Europeus temem uma nova leva migratória e um aumento no número de naufrágios

Ele retirou o capuz, mas manteve seu traje de combate preto, cor preferida da brigada. A. (é assim que ele se identifica) tem um bíceps do tamanho de um tronco. Sentado a uma mesa com um suco de laranja à sua frente, ele assobia ao contemplar as ondas espumantes do mar que quebram na praia de Zuwara.

A. faz parte da unidade de "homens mascarados" que surpreendeu essa cidade do extremo oeste da Líbia, próxima da fronteira com a Tunísia, ao conseguir desmantelar onipotentes redes de "coiotes" há seis meses.

Essa experiência inédita de Zuwara chama ainda mais atenção pelo fato de que os europeus estão preocupados com uma nova leva imigratória através da "rota do centro" do Mediterrâneo, que liga principalmente a Líbia à Itália. Esse circuito pode acabar crescendo após o acordo entre a UE e a Turquia que comprometeu a "rota oriental" entre o Oriente Médio e a Grécia, fazendo com que as chegadas à costa grega diminuíssem muito desde o final de março.

A. acabou de voltar do posto fronteiriço de Ras Jedir, uma das zonas de intervenção dos "homens mascarados" de Zuwara que permanecem bem à mostra no local. Um tanto fanfarrão, ele brinca: "Nossos capuzes e nossas roupas de cor preta dão medo nas pessoas".

A. alega que a presença ostensiva dos "homens mascarados" colocou em ordem esse posto fronteiriço que costumava ser palco de todo tipo de tráfico. Segundo ele, a corrupção diminuiu.

Os "homens mascarados" vigiam as fronteiras de Zuwara, cidade amazigh (berbere) unida por uma poderosa dinâmica de renascimento da identidade étnica desde a deposição de Muammar Gaddafi, em 2011.

O mar está decididamente entre as fronteiras mais perigosas. No final de agosto de 2015, as ondas jogaram sobre a praia 186 cadáveres de migrantes cujo barco, que partia rumo a Lampedusa, na Itália, havia acabado de afundar. A população, que até então tolerava o tráfico de seres humanos, não suportou o espetáculo dessa tragédia vista por famílias inteiras. Multidões se formaram em frente à prefeitura, aos gritos de: "Não queremos mais esses vampiros em nossa terra".

Os "vampiros" são os "coiotes" que, ao longo do litoral ocidental da Líbia —de Zuwara até Garabulli, passando por Sabratha ou Zawiya— despacharam em 2015 mais de três quartos dos 154 mil clandestinos que desembarcaram na Itália.

"A cidade inteira se mobilizou para nos pedir para parar esse tráfico", conta Hafedh Ben Sassi, prefeito de Zuwara.

"É preciso acabar com todas essas mortes no mar", diz o coronel Mohamed Salem Bedrouche, chefe do órgão que supervisiona a segurança da cidade.

Então foi dada a ordem aos "homens mascarados", uma unidade de 300 pessoas, de caçar os "vampiros".

Hani Amara/Reuters
Corpos de refugiados afogados são recuperados próximo à cidade de Zuwara, na Líbia

"Não temos escolha"

Desde então, nenhum barco de imigrantes saiu de Zuwara. A cidade costeira até então era o principal foco líbio de partidas, com cerca de 25% do total, segundo números extraoficiais, rumo a Lampedusa, situada a menos de 300 km, a distância mais curta entre esse lado do litoral e a ilha italiana.

O fechamento radical de uma plataforma de trânsito como essa é algo inédito nessa Líbia que é descrita como anárquica, mas que pode se revelar funcional no nível das municipalidades, instituições que na prática substituem um Estado deficiente. A prisão de Zuwara hoje contém cerca de 40 "coiotes" condenados em virtude de um procedimento próprio da municipalidade e que escapa da lei nacional.

O caso é bastante delicado: as famílias dos condenados entraram com uma ação na Justiça de Trípoli por abuso de poder.

"Um pequeno grupo de habitantes está contra nós", admite o prefeito Hafedh Ben Sassi. "O problema", ele diz, "é que não existe uma lei nacional eficaz contra os 'coiotes', então precisamos adaptar uma lei local."

O procurador-geral de Trípoli ainda convocou o prefeito e alguns "homens mascarados" para que eles explicassem suas ações "ilegais", mas estes ignoraram a ordem.

"Não temos escolha", ressalta A., o "homem mascarado". "Trípoli não tem um combate sério aos 'coiotes'. Em maio de 2014, nós pegamos um 'coiote' e o conduzimos a Trípoli, conforme a lei. Mas eles o soltaram, e ele voltou a Zuwara antes mesmo que voltássemos."

Ainda que controverso aos olhos da legislação líbia, Zuwara oferece um modelo eficaz de desmantelamento de redes de tráficos de pessoas, mas seu isolamento limita seu impacto sobre o fluxo migratório geral proveniente da Líbia. Isso porque os coiotes estão compensando o fechamento dessa plataforma redobrando as atividades nos vilarejos vizinhos, onde o caminho permanece livre.

"Eles recuaram para Sabratha, 40 km para o leste", confirma o coronel Asem Tour, chefe da guarda-costeira de Zuwara. Uma cidade ainda mais a leste, Zawiya, situada a 45 km de Trípoli, também tem se tornado uma base cada vez mais ativa de partidas.

Segundo as autoridades italianas, quase 26 mil migrantes desembarcaram na costa da Península (a maior parte proveniente da Líbia) desde o início do ano, ou seja, 7 mil a mais que no período correspondente em 2015.

A nova barreira de Zuwara está longe de ser suficiente para conter uma potente dinâmica migratória que, começando na África subsaariana, atravessa a Líbia para se projetar rumo à Europa. E desde o acordo fechado entre a União Europeia (UE) e a Turquia, a Líbia corre o risco de recuperar uma parte do fluxo de migrantes provenientes do Oriente Médio.

Em Zuwara, ninguém mais esconde a preocupação de não conseguir mais aguentar esse estado de isolamento. As autoridades da cidade afirmam que estão financiando as operações "anti-coiote" com suas últimas verbas municipais, que estão contadas.

Ben Sassi gostaria de acertar uma cooperação bilateral com a Itália ou a UE. "Mas eles declinaram nosso convite", ele lamenta. "Eles responderam que precisam passar pelo canal de Trípoli, que no entanto não faz nada. Então continuamos sozinhos."

Sonho inalterado

Para entender como Zuwara continua sob pressão, é preciso percorrer as ruelas esburacadas da cidade antiga, onde ainda residem africanos subsaarianos. É verdade que eles se encontram em menor número que antigamente (seriam somente 2 mil), mas o sonho inalterado deles de algum dia chegarem até a outra margem do Mediterrâneo pode logo se tornar alvo de 'coiotes' ainda à espreita.

"Sim, ainda quero ir à Europa", confirma Sana Diarra, um jovem gambiano de 18 anos, com um grande boné vermelho enfiado na cabeça. Enquanto isso, o jovem vive de pequenos bicos (em limpeza, construção civil etc.) oferecidos por habitantes de Zuwara atrás de mão-de-obra africana barata.

As condições de vida nessa moradia que ele divide com um compatriota gambiano e um senegalês são rudimentares, com colchões jogados no chão nu de um quarto com paredes esburacadas, pátio de cimento onde secam panelas e roupas penduradas em um fio.

"Nós ficamos em Zuwara porque aqui as autoridades não nos maltratam como em outros lugares", diz Sana Diarra. De fato muitos migrantes preferem permanecer em Zuwara à espera de um embarque a partir de algum vilarejo vizinho.

Mas só a presença deles acabará reacendendo a cobiça de 'coiotes' em potencial, segundo os moradores. Até quando será que as autoridades da cidade conseguirão resistir, sozinhas?

Tradutor: UOL

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