Urbanização galopante cria cidade sem alma nem empregos na Índia

Julien Bouissou

  • Saurabh Das/AP

    Policiais atuam próximo a casa onde adolescente foi estuprada em Greater Noida, na Índia

    Policiais atuam próximo a casa onde adolescente foi estuprada em Greater Noida, na Índia

O país ganhará 500 milhões de novos habitantes urbanos até 2050

Pramesh Kumar vende apartamentos de luxo como um camelô. Ele segura um panfleto gasto da residência "The Hemisphere, o luxo redefinido", que agita para atrair os motoristas que circulam por uma estrada deserta. Nesse bairro de Greater Noida, uma cidade nova na periferia da Nova Déli, capital da Índia, há praticamente somente essa faixa de asfalto terminada.

Em volta, terrenos ociosos vão sendo tomados por canteiros de obras. Cerca de 128 vilarejos dividiam entre si 38 mil hectares de terras até que, como em uma brincadeira de Lego, conjuntos de prédios, estradas, postes de energia e caixas d'água começaram a brotar sobre os campos de trigo e de mostarda. Assim nasceu, em 1989, a Greater Noida, com o intuito de desafogar Déli e seus 17 milhões de habitantes.

Mas nessa cidade construída para acolher a população rica, é difícil encontrar compradores para esses apartamentos. Com planos de urbanismo concebidos pelas incorporadoras imobiliárias e uma governança local quase inexistente, os raros habitantes vivem entrincheirados em suas casas, em complexos residenciais protegidos por guardas e muralhas cobertas por arame farpado.

Pramesh Kumar mostra um terreno vago cercado por tapumes e bandeiras de todas as cores: "Será um complexo residencial de luxo internacional. O arquiteto é de Dubai."

O jovem estudante de sapatos cobertos por poeira limpa as mãos antes de folhear o panfleto do complexo residencial The Hemisphere, que mostra moradores loiros, jogando golfe ou pendurados em seus celulares, com o seguinte slogan: "Existem aqueles que vivem perto de um campo de golfe, e aqueles que vivem dentro dele."

Sem espaço para os pobres

Em um pedaço do canteiro de obras, a voz de Frank Sinatra encobre os barulhos das escavadeiras e algumas palmeiras de plástico acompanham um tapete vermelho que leva até a unidade decorada. Adolescentes de cabelos desgrenhados passam um pano em sofás de couro branco nos quais é proibido se sentar.

"Precisamos devolvê-los à loja que nos emprestou", justifica Pramesh Kumar.

Tranquilidade, limpeza, natureza, mas com segurança: é essa a imagem que Greater Noida quer passar. O passado ali é invisível, por ser pesado e político demais. As autoridades preferem nomear os bairros com letras do alfabeto grego antigo para que os seguidos governos não fiquem tentados a rebatizá-los com o nome de algum herói intocável ou uma divindade hindu.

Mas, por enquanto, Greater Noida parece sobretudo uma cidade-miragem, que, apesar de seus conjuntos de prédios e seus shopping centers, continua esperando seus moradores.

"Há 150 mil apartamentos não vendidos, e a cada mês são vendidos em média somente 4 mil", diz com preocupação Akash Bansal, da consultoria especializada em imóveis Liases Foras.

"Os apartamentos já comprados vão aos poucos sendo colocados para revenda, e corre-se o risco de entrar no círculo vicioso da especulação. Não estão reunidas todas as condições para que a cidade se torne um local de habitação."

Hemisphere/Divulgação
Projeto do Hemisphere, em Greater Noida

Durante décadas, só a pressão urbana bastava para construir cidades. Estas deveriam acolher 500 milhões de habitantes a mais até 2050. Mas, em um momento em que o governo indiano quer construir cem novas cidades, ainda é preciso que elas sejam habitáveis, não somente reservadas aos mais ricos, e sobretudo que elas ofereçam empregos. Não há certeza de que a classe alta indiana seja numerosa o suficiente para ocupar as várias cidades que estão sendo criadas na periferia de grandes cidades como Déli.

Para desafogar o bairro industrial de Okhla, em Déli, as autoridades criaram, em 1976, a New Okhla Industrial Development Authority (Noida). Treze anos mais tarde e alguns quilômetros mais distante, Greater Noida surgiu como nova extensão de Noida. Como se Déli pudesse se estender infinitamente.

Só que as empresas que empregam executivos não estão mais seguindo o movimento. Greater Noida tem sofrido do "efeito Gurgaon", uma cidade-satélite de Déli, quase privada, construída por executivos que trabalham nas sedes de diversas empresas multinacionais. Um sucesso, pelo menos comercial, que não pode se replicar infinitamente.

Por enquanto Greater Noida só tem abrigado universidades particulares e indústrias que empregam proletários. Eles vivem em pequenos barracos ao pé de torres residenciais luxuosas e vazias, cujos apartamentos eles não conseguem adquirir.

"Na Índia, os operários, os pobres, são os esquecidos do planejamento urbano", observa Marie-Hélène Zerah, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento.

Em um estudo publicado em meados de março, o Centro para a Ciência e o Meio Ambiente manifestou preocupação com um planejamento "que tem expulsado os pobres para a periferia". O estudo revela que, para metade deles, os trajetos que os separam de seu local de trabalho ou de serviços básicos, como saúde e educação, aumentaram.

"É isolado, é uma selva"

Greatar Noida, uma cidade-fantasma, tem medo do vazio.

"Uma vez que anoitece, a cidade vira um outro mundo onde você pode ser vítima de agressão ou até de sequestro", conta Rishabh Jaiswal, um morador do local.

A segurança é um luxo pelo qual se paga caro, com grades nas janelas, câmeras de vigilância, seguranças na entrada de complexos residenciais. As pessoas vivem escondidas atrás de seus muros.

Só o otimismo pode salvar Greater Noida, como se a promessa de dias melhores fosse sua única razão de ser. E por que alguém compraria um apartamento lá? "Porque é uma cidade em desenvolvimento", responde Dheeraj Singh, um corretor imobiliário. 

Mas alguns moradores não acreditam mais nessa promessa. "Greater Noida não é segura o suficiente para se viver. É isolada. É uma selva. Não há mais esperança", explica Surjinder Kumar, um executivo da Honda que comprou um terreno há dois anos e por fim desistiu de construir uma casa para sua família.

Com a considerável queda na demanda, algumas incorporadoras faliram e abandonaram seus canteiros de construção sem conseguirem devolver o dinheiro pago de entrada pelos compradores. Então, para tranquilizá-los, a incorporadora do complexo The Hemisphere propôs enviar por e-mail fotos aéreas de cada etapa da obra.

Mas Pramesh Kumar reconhece: "O mercado está em plena recessão. Desde que Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano, chegou ao poder, há dois anos, tem havido uma caça à corrupção e, portanto, menos dinheiro líquido para se lavar no setor imobiliário".

Os únicos para quem a cidade não é só uma promessa são os moradores que já estavam aqui antes. Entre eles, três agricultores que fumam bidis à beira da estrada, em uma rotatória. O primeiro gastou todo o dinheiro obtido com a venda de suas terras para casar suas três filhas, o segundo mandou seus filhos para uma universidade particular, e o terceiro comprou terras em outro lugar mais distante.

"Antes era o trabalho que ocupava nossos dias e nossa cabeça; agora, temos tempo para pensar naquilo que poderíamos comprar com nosso dinheiro", explica um deles. Os três agricultores perderam contato com alguns de seus vizinhos, grandes proprietários de terras, que agora vivem em complexos residenciais.

No vazio de Greater Noida, há divisões escancaradas que se aprofundam entre moradores antigos, citadinos vindos de Déli, migrantes, ricos e pobres. Os três agricultores se mostram impacientes.

"Tenho três filhos e dois ainda não encontraram emprego", diz um deles. "Se a cidade não nos oferecer nada, é só a frustração que nos espera."

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos