Bélgica dá início a julgamento da "célula de Verviers"

Elise Vincent

  • Reuters

    Foto sem data mostra o belga Abdelhamid Abaaoud, suspeito de ser mentor dos ataques terroristas em Paris

    Foto sem data mostra o belga Abdelhamid Abaaoud, suspeito de ser mentor dos ataques terroristas em Paris

Era um caso que, visto a partir da França, por muito tempo permaneceu sendo um problema dos belgas, uma jihad secundária, um tanto vacilante, frustrada sem alarde em uma noite de inverno na Bélgica. A "célula de Verviers", desmantelada no dia 15 de janeiro de 2015 durante um violento ataque das forças policiais, poderia ter continuado como uma questão desprezada para sempre, algo como uma cópia malfeita dos ataques ao "Charlie Hebdo" e ao Hyper Cacher. Mas, 16 meses depois, teve início seu julgamento no dia 9 de maio, diante do tribunal correcional de Bruxelas, com presunções totalmente opostas.

Na verdade é quase um "pré-julgamento" dos atentados de 13 de novembro de 2015, cometidos em Paris, que pode acabar ocorrendo indiretamente durante três semanas, para desagrado dos advogados dos 16 réus citados por "participação em atividades de um grupo terrorista".

A célula de Verviers tinha um suposto líder: Abdelhamid Abaaoud, morto na incursão policial em Saint-Denis, no dia 18 de novembro de 2015, cinco dias depois dos atentados de Paris. Só que no meio tempo esse homem de 28 anos foi apontado como o "cérebro" dos massacres parisienses, e planos de ataque a um aeroporto foram encontrados em seu suposto "esconderijo" em Atenas.

Mas só por isso seria a célula de Verviers a "célula-tronco" dos atentados de 13 de novembro, ou até do dia 22 de março em Bruxelas, onde os últimos membros do comando parisiense realizaram seu ataque? É uma das questões desse julgamento.

Os 16 réus são suspeitos de terem se envolvido, em graus variados, no plano de atentado do grupo, ou de terem participado da esfera de influência de Abaaoud. Eles são belgas, franceses, argelinos e marroquinos, e nove deles estarão ausentes por estarem foragidos ou supostamente terem ido se juntar à organização Estado Islâmico (EI).

O caso de Verviers, em sua fase final, se resumia a dois homens caçados pela polícia belga desde 15 de dezembro de 2014. O esconderijo deles, situado no andar de cima de uma casinha no centro dessa cidade industrial próxima de Liège, foi colocado sob escuta. Suas conversas eram gravadas noite e dia, e foram revelando planos de ataques cada vez mais precisos.

Após a chacina do "Charlie Hebdo", no dia 7 de janeiro, e do Hyper Cacher, no dia 9 de janeiro, as agências de inteligência passaram a temer mais do que tudo um cenário de ataques em série. E com a chegada de um terceiro indivíduo, evidentemente armado, foi tomada a decisão de lançar a incursão.

Um arsenal completo

O tiroteio foi conduzido pelas unidades especiais da polícia federal belga, que na ocasião tiveram o apoio de homens da GIGN (tropas de elite da gendarmaria nacional) francesa. Dois dos supostos jihadistas morreram no confronto: Soufiane Amghar, 26, e Khalid Ben Larbi, 23. Eles haviam acabado de voltar de uma estadia de quase oito meses na Síria.

Somente o terceiro homem se salvou ao tentar escapar pela janela: Marouane El Bali, de 27 anos. Ele, que além de tudo ainda é processado por "tentativa de assassinato" contra agentes policiais, hoje é um dos personagens centrais do julgamento.

Para a defesa, o desafio será contestar a legitimidade dessa incursão, alegar que os eventuais planos de atentado ainda não estavam bem definidos, estavam inacabados, que as ligações com Abaaoud eram tênues.

E isso, ainda que os investigadores tenham encontrado no apartamento um arsenal que dá a entender exatamente o contrário: três fuzis de assalto, quatro revólveres, munição e quase todo o material necessário para fabricar 5kg de explosivos, TATP (triperóxido de triacetona), o mesmo explosivo artesanal usado em Paris e em Bruxelas, além de walkie-talkies, rádios portáteis e peças de uniformes policiais.

Mas qual seria o alvo exato dos supostos jihadistas? Durante suas últimas horas de vida registradas pelos microfones escondidos, é possível ouvir implicitamente que uma delegacia e policiais provavelmente seriam um alvo em potencial.

A investigação indicou que poderia ter sido o quartel-general federal da polícia belga, em Bruxelas, ou a delegacia de Molenbeek, esse bairro popular da capital, reduto islamita radical há anos.

A possibilidade de sequestro de uma autoridade belga de alto escalão para ser decapitada ao vivo também foi mencionada. Mas ainda era tudo muito impreciso.

Após o desmantelamento da "célula de Verviers", a organização Estado Islâmico (EI) reconheceu oficialmente o plano frustrado através de seu maior porta-voz: Abu Mohammed al-Adnani. Os dois jihadistas mortos, Amghar e Larbi, tiveram direito à publicação de seus retratos no Twitter com a menção: "Que Alá possa lhes conceder um lugar ao seu lado".

Por fim, um mês depois, na revista de propaganda "Dabiq", Abaaoud comemorava por ter escapado da onda de buscas e prisões e justificou sua ação.

Atenas, base de apoio logística

Teria o fracasso de Verviers servido sem querer de teste para o comando de 13 de novembro, que em seguida se desenrolou até a tragédia de Bruxelas? De qualquer forma, todo o modus operandi já estava ali. Na lista dos réus já apareciam ligações estreitas entre redes radicais belgas e francesas (quatro dos acusados são franceses).

Assim como no caso do 13 de novembro, diversos trajetos de carro foram efetuados através da Europa para levar os ex-jihadistas do front sírio, e Atenas, sobretudo, já aparecia como uma sólida base de apoio logística e o verdadeiro refúgio de Abaaoud.

Mas, durante dez meses, os investigadores nunca conseguiram por as mãos nele. E no dia 13 de novembro, a cria de Molenbeek dessa vez conseguiu levar a cabo suas ambições macabras.

Tradutor: UOL

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