Análise: Trump "expulsou" Deus do Partido Republicano

Alain Frachon

  • Seth Perlman/AP

Donald Trump está expulsando Deus do Partido Republicano. Provavelmente era necessário um magnata do setor imobiliário de Manhattan mesmo para conseguir essa difícil tarefa, visto que há 25 anos o "partido do elefante" é, ou foi, o bastião dos fundamentalistas cristãos. Os analistas políticos americanos falam em uma guinada histórica, e alguns deles acreditam que esse seja o início do fim do mais antigo partido político do país. Mas o que está acontecendo?

Desde o início dos anos 1990, o Grand Old Party (GOP) vem se mostrando como o partido da fé e dos "valores". Uma das obrigações de campanha para todo candidato republicano é enunciar fortes convicções religiosas, e a permissão era concedida somente àquele que recitasse seu catecismo: por Deus, contra o casamento gay, pela família tradicional, contra a dissolução da moral "à la Hollywood". O candidato republicano reza ostensivamente, se possível em família.

Mas com Trump não é assim. Ele está em seu terceiro casamento, e seu discurso é fraco em referências bíblicas, frequentando muito mais os cassinos do que a igreja. Se ele medita, é em um campo de golfe. Não se sabe nada sobre suas convicções religiosas, mas ele está na frente.

Trump está vencendo as primárias republicanas ao derrotar o filho de pastor Ted Cruz. Arquétipo do fundamentalista batista, o senador do Texas prometia começar todos seus dias rezando de joelhos diante do Salão Oval da Casa Branca.

Isso não foi suficiente. Trump venceu em boa parte dos Estados do Sul, o chamado "cinturão bíblico", terra de fundamentalismo cristão, onde até alguns anos atrás ninguém teria apostado nas chances desse "yankee" mal criado.

Em 2004, um articulista talentoso, jornalista do "Salon", publicou um livro intitulado "What's the matter with Kansas?" (ou "Qual o problema do Kansas?"). Nessa obra, Thomas Frank procura entender os repetidos sucessos do GOP junto a boa parte do eleitorado branco mais pobre, composto por operários e assalariados de classe média baixa.

O GOP defende uma política econômica que acabou com essa parte dos Estados Unidos, com a globalização e o livre-comércio dizimando setores inteiros da indústria do país, a desregulamentação e a dessindicalização fragilizando os trabalhadores, e a demonização do Estado federal desestabilizando os programas sociais herdados do New Deal.

Mas o GOP conseguiu deslocar o debate público. Ele se esquivou da economia, passando para outro campo, o dos "valores". Ele privilegiou a grande batalha cultural que estava em curso na época, o combate contra o legado dos anos 1960, que o Partido Democrata defende, como a liberação dos costumes, a contestação da autoridade, o individualismo exacerbado, os direitos das minorias étnicas e sexuais.

Em oposição, apresentou pautas como: defesa da família e da religião, condenação do aborto, defesa veemente do porte individual de armas e de outras marcas dos Estados Unidos de sempre, como o patriotismo inflamado e um grande orçamento militar. Tudo isso embalado em um discurso pontuado por referências religiosas, cruzado por anti-intelectualismo e carregado de uma crítica feroz às "elites liberais" (de esquerda) das costas Leste e Oeste da União, e aos hipsters emasculados de Nova York e da Califórnia.

É a luta da americanidade, assim descrita com uma (grande) dose de caricatura, como admitem. Quem representa os verdadeiros Estados Unidos? Sobre seu discurso de "valores", escreve Frank, o GOP por muito tempo teve um eleitorado branco que ainda era vítima da política econômica republicana! E ele o conseguiu com ainda mais facilidade pelo fato de que nos anos 1980-1990 os Estados Unidos entraram em uma de suas fases recorrentes de revival religioso. O GOP veio a se tornar o bastião de um fundamentalismo evangélico militante.

Novo republicanismo

Esses tempos não existem mais. Trump sentiu a transformação dessa parte da opinião pública branca, que sente, equivocadamente, que é a globalização que a marginaliza, tanto quanto a evolução "liberal" (de esquerda) da sociedade, ou até mais. A globalização assume prioritariamente uma cara: a da imigração. Essa é sua prioridade, e não a defesa dos "valores".

O magnata nova-iorquino construiu sua campanha sobre uma promessa: a de enviar de volta para casa 11 milhões de latinos ilegais (que ainda por cima ele insulta), e depois fechar a fronteira com um muro, mandando a conta para a Cidade do México.

A outra face da globalização é o livre-comércio, pelo qual Trump também acompanhou um movimento de desconfiança de parte do eleitorado republicano (e democrata). Ainda que ele mantenha dois dos aspectos do republicanismo dos anos 1990, que é o anti-elitismo obstinado e uma forma de nacionalismo, ele rejeita sua faceta econômica: ele é protecionista e anti-Wall Street. Isso o coloca em oposição com a direção do partido.

"Mas essa crítica ao livre-comércio", escreve o analista político Michael Lind, no "New York Times", "coloca Trump em sintonia com esses brancos das classes populares que até hoje eram seduzidos pelo discurso 'cultural' do GOP".

Esse discurso não é mais suficiente. Esse eleitorado está escolhendo Trump não pelos "valores" que esse nova-iorquino duas vezes divorciado, de bronzeado artificial e cabelo oxigenado pode representar, mas por sua oposição à globalização (e às elites).

Trump tirou Deus do debate político, prometendo um novo republicanismo, explica Eduardo Porter, do "New York Times". Essa mudança marca o fim do revival religioso dos anos 1980: "O lugar da religião está perdendo em importância na vida política e cedendo espaço para um revival 'populista' centrado no nacionalismo econômico e no descontentamento das classes trabalhadoras."

O trumpismo veio para ficar.

O que mais se ouve em um comício de Trump? "Saia daqui"

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Tradutor: UOL

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