Terrorista mantinha "pequena empresa do terror" na Bélgica, revela julgamento

Elise Vincent

  • Reuters

    Foto sem data mostra o belga Abdelhamid Abaaoud, suspeito de ser mentor dos ataques terroristas em Paris

    Foto sem data mostra o belga Abdelhamid Abaaoud, suspeito de ser mentor dos ataques terroristas em Paris

Célula terrorista aparece como matriz dos atentados de Paris

Quando teve início o julgamento da "célula de Verviers", na segunda-feira (9), em Bruxelas, não se sabia que seria uma análise detalhada de uma verdadeira pequena empresa terrorista. Quase uma "start-up", com seu minúsculo esconderijo, seus empregados dedicados e seu patrão faz-tudo, Abdelhamid Abaaoud, imersos no objetivo, jamais admitido no tribunal, de matar em nome de Alá.

A célula jihadista de Verviers (Bélgica) foi desmantelada no dia 15 de janeiro de 2015, e de fato aparece como a matriz dos atentados de Paris de 13 de novembro de 2015, ou até do de Bruxelas, no dia 22 de março.

O presidente da 70ª câmara correcional, Pierre Hendrickx, sem querer se transformou em um minucioso analista da estrutura dessa micro-empresa. Como seu suposto líder, Abaaoud, morreu no dia 18 de novembro de 2015, durante a incursão de Saint-Denis, esse aspecto se destacou sozinho.

Meticuloso, Hendrickx releu em voz alta as centenas de páginas de escutas telefônicas que compõem o dossiê de instrução. Escutas onde o suposto mentor dos massacres de Paris aparece como um chefe tão talentoso quanto sobrecarregado: sem um escritório de verdade, grudado em suas únicas ferramentas de trabalho, suas dezenas de chips e seu celular.

Durante os três meses de preparativos da "célula de Verviers" identificados pelos investigadores antes de 15 de janeiro de 2015, dia do ataque, Abaaoud sempre esteve separado de seus subalternos por milhares de quilômetros. Mas o contato era permanente.

Enquanto eles se organizavam progressivamente entre Bruxelas e Verviers, essa pequena cidade-dormitório perto de Liège, ele tentava voltar da Síria para a Bélgica, aproveitando-se do início da onda migratória. O quartel-general da empresa terrorista se resumia a um apartamento de um quarto alugado vazio e situado no primeiro andar de uma casinha discreta no centro da cidade.

Seu retorno estava longe de ser simples. "Preciso tentar subir mais", ele resumiu um dia.

Abaaoud passou pela Turquia e pela Grécia, em Atenas. Ele chegou a fazer uma incursão em dezembro de 2014 pela Bulgária, onde tentou em vão atravessar "o rio" (a fronteira) [a nado] mas fracassou, porque "eles abriram as comportas". No início de janeiro, ele foi ainda barrado em um aeroporto cujo nome não se sabe, provavelmente notado por seus documentos falsos.

"Eles souberam que não era eu", ele diz. No final, ele acabou pedindo pelos serviços de uma garota de programa belga, que enviariam até a Grécia, para ajudá-lo a passar na imigração como se fossem um casal.

Sete réus presentes

Mas suas desventuras nunca o impediram de importunar seus recrutas por telefone sobre a sequência das operações. De "deixe a música (as armas) em casa, pois não tem nenhuma utilidade", passando por encomendas de "bloqueadores de sinal" e de "detectores de microfones", Abaaoud ordenava de tudo, a todos.

Só ele parecia ter o cronograma provisional de seu plano na cabeça, a visão de todo o tenso fluxo representado pelo transporte de homens do qual ele precisava.

Os investigadores nunca conseguiram determinar com precisão a dimensão que o comando poderia ter se ele tivesse ido a cabo, e tampouco seu verdadeiro alvo (uma delegacia? um aeroporto?). Mas em uma escuta de janeiro de 2015, o principal subordinado de Abaaoud, Arshad Mahmood Najmi, conhecido como "Pashto", disse algo que parecia ser uma cota: "assim que tivermos dez morando, devemos alertar."

Dos sete réus presentes no julgamento, foi ele que se viu na linha de frente do impossível controle à distância de seu meticuloso chefe, um Abdelhamid Abaaoud cujas escutas mostram que ele mesmo parecia prestar contas a um "patrão" na Síria.

Moreno de porte atlético, 27 anos, de pai paquistanês e mãe argelina, se ele tivesse feito parte do comando de 13 de novembro, Pachto provavelmente teria tido um papel similar ao de Salah Abdeslam ou de Mohamed Belkaid, morto em Forest (Bélgica), em uma incursão policial, no dia 16 de março.

Um papel que ficaria entre o faz-tudo e o responsável pela logística, disposto a ser o último a morrer, uma vez cumprida a missão.

"Pashto" recebeu mais telefonemas de Abaaoud do que o necessário: noturnos, matutinos, calmos, amáveis e furiosos. "Pelo menos um por dia", reconheceu no tribunal esse ex-condutor de bonde de Bruxelas, vestido com um jeans, tênis e um pulôver. Tanto que às vezes era "opressivo", defendeu-se.

Foi durante uma breve estadia na Síria, entre setembro e outubro de 2014, que ele teria recebido o kit de lançamento de sua primeira empresa terrorista: um "post-it" com uma receita para fabricar explosivos, fotos de identidade de seus futuros colegas de jihad e cerca de "10 mil euros".

Mas o post-it não alertava contra erros. Uma vez de volta à Bélgica, "Pashto" recorreu aos serviços de um falsário amigo de todos os jovens radicalizados de Molenbeek, monitorados de perto pelas agências de inteligência. C

om seu grande porte e cabelo preso em um pequeno rabo de cavalo, ele se chamava Souhaib el-Abdi e também foi citado no processo. A lição foi aprendida para o ataque de 13 de novembro. Abaaoud recorreu a uma oficina de falsificadores menos chamativa, com "sírios" do bairro um pouco mais rico de Saint-Gilles, em Bruxelas, dedicados à causa dos imigrantes ilegais.

Missões encomendadas

Outra lição que provavelmente aprenderam para o dia 13 de novembro: o volume de trabalho era excessivo para um número insuficiente de homens.

As missões encomendadas por Omar (apelido de Abaaoud) a "Pashto", em especial, eram muitas e não relacionadas, como comprar móveis para o esconderijo na Ikea, comprar os produtos necessários para a fabricação de explosivos durante uma viagem improvável até o Castorama de Lille, levar até Aix-la-Chapelle (Alemanha) ou para a França os combatentes que voltavam da Síria etc.

Para o ataque de 13 de novembro, Abdelhamid Abaaoud contratou os serviços de um verdadeiro especialista em bombas: Najim Laachraoui. Além disso, os Abdeslam estariam em dois.

O recrutamento também era importante. Será que foi o orgulho da missão que subiu à cabeça de "Pashto", fazendo-o alugar por um mês uma BMW para seus deslocamentos? Abaaoud ficou possesso ao saber dessa liberdade tomada: "Ele é louco ou o quê?", gritou ao telefone para Mohamed Amghar, um de seus dois combatentes trazidos da Síria que morreu no ataque final das forças policiais, no dia 15 de janeiro.

"Precisamos nos livrar do Pashto!", ele ordenou. "Vamos mandá-lo para fazer um treinamento, aprender inglês!", ele gritou, além de dicas de como ele poderia se misturar à multidão. Mas suas ordens vieram tarde demais e foram em vão.

Tradutor: UOL

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