Rebeldes curdos se aproveitam do combate ao EI para se fortalecerem

Marie Jégo

  • Yasin Akgul/AFP

    Homem observa interior de hotel destruído por atentado a bomba no distrito de Vezneciler, em Istambul, na Turquia

    Homem observa interior de hotel destruído por atentado a bomba no distrito de Vezneciler, em Istambul, na Turquia

Na Turquia, a rebelião curda armada aproveita sua experiência e os armamentos adquiridos no combate ao EI

O atentado com carro-bomba que resultou em 11 mortes e 36 feridos, na última terça-feira (7), em Vezneciler, no centro do bairro histórico de Istambul, não foi reivindicado mas tem dois possíveis autores: a organização Estado Islâmico(EI) ou o Partido dos Trabalhadores do Curdistão  (PKK, autonomista, proibido na Turquia).

Os jihadistas e os rebeldes curdos perpetraram cada um deles dois dos quatro ataques suicidas que ensanguentaram Ancara e Istambul desde o início do ano.  Com suas células dormentes na Turquia, o EI tem a capacidade de organizar esse tipo de ação, mas o modus operandi utilizado na terça-feira lembra mais o do PKK, que se encontra em guerra contra o Estado turco há 32 anos.

Em Vezneciler, a explosão de um carro foi comandada à distância quando passou um furgão de polícia. Algumas semanas antes, no dia 12 de maio, a mesma cena se passou em Sancaktepe, um bairro periférico de Istambul.

No momento em que um ônibus repleto de soldados passava por uma avenida, um carro-bomba explodiu, ferindo sete pessoas. O PKK reivindicou o atentado alguns dias depois.

No dia 10 de maio, em Diyarbakir, a grande cidade curda do sudeste da Turquia, três pessoas foram mortas e 45 ficaram feridas na explosão de um carro-bomba que foi detonado ao passar um carro de polícia, uma ação também conduzida pelo PKK.

Após uma breve calmaria, entre 2010 e 2015, quando havia negociações de paz em andamento, a guerra voltou com tudo entre as forças de Ancara e os rebeldes curdos armados. Agora negociações estão fora de cogitação.

"Vamos lutar contra o terrorismo até o fim", informou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ao sair de uma reunião do conselho de segurança nacional, na terça-feira.

No início de junho, a aviação turca conduziu ataques nas regiões de Diyarbakir e Hakkari, na fronteira com o Irã e o Iraque, contra posições do PKK. As operações conduzidas pelas forças especiais para acabar com os "levantes urbanos" organizados em diversas cidades do sudeste pelo PKK resultaram em milhares de mortos e provocaram o deslocamento de 200 mil pessoas.

Caminhão de TNT

Desde que os conflitos recomeçaram, em julho de 2015, 5 mil militantes do PKK e centenas de civis perderam a vida, e quase 500 soldados e policiais foram mortos. Os centros de uma dezena de vilarejos curdos (Sur, Nusaybin, Cizre, Silopi, Sirnak, Yüksekova, entre outros) estão em ruínas.

Os rebeldes curdos tendem cada vez mais a usar explosivos. Um vídeo que mostra a explosão comandada à distância de um blindado turco que transportava soldados foi visto mais de 130 mil vezes no YouTube. O ataque, que terminou com quatro mortos, ocorreu em Hakkari, no dia 18 de maio.

No dia 10 de maio, um caminhão repleto de TNT explodiu na periferia de Sarikamis, um vilarejo perto de Diyarbakir, causando a morte de 16 pessoas (oficialmente quatro vítimas identificadas e 12 desaparecidos). A explosão deixou uma cratera de 5m de profundidade e 20 m de largura.

Aparentemente, alguns habitantes de Sarikamis, ao verem passar um caminhão suspeito, teriam tentado pará-lo na saída do vilarejo. Uma briga entre os ocupantes do caminhão, militantes do PKK e os moradores teriam levado à explosão do veiculo.

Assim como nos anos 1990, o sudeste da Turquia se encontra devastado, mas desta vez a guerra tem uma dimensão regional. Assim, a propensão do PKK em utilizar cargas explosivas guiadas à distância, ou ainda as bombas nas cidades retomadas pelas forças turcas, vem de sua experiência adquirida na Síria, onde seus militantes combatem ao lado das YPG, a milícia curda síria que é o braço armado do Partido da União Democrática (PYD), em luta contra os jihadistas do EI.

As conquistas dos curdos sírios, que vêm conduzindo uma ofensiva contra os redutos do EI, em Manbij e Raqqa, e a perspectiva de ver uma autonomia curda emergir um dia no norte da Síria, dão confiança ao PKK, bem decidido a acuar a Turquia.

No dia 14 de maio, o partido curdo postou o vídeo de um combatente abatendo um helicóptero Cobra do Exército turco com um míssil solo-ar portátil. Isso aconteceu no dia 13 de maio na província de Hakkari, onde seis soldados acabavam de ser mortos durante uma operação. Enviado em reforço, o helicóptero caiu e seus dois pilotos morreram.

Apoio russo

Depois de falar que se tratava de um incidente mecânico, o Estado-Maior turco reconheceu que o Cobra havia sido atingido por um míssil. Segundo especialistas, seria um míssil russo do tipo Igla (9K38 Igla, registrado como SA-18 Grouse pela Otan), lançado a partir de Çukurca, perto da fronteira com o Iraque.

O fato de uma arma russa de fabricação recente se encontrar nas mãos do PKK diz muito sobre o risco de regionalização do conflito sírio, onde Moscou e Ancara têm se enfrentado através de rebeldes.

O Kremlin, principal apoiador de Bashar al-Assad, tem apostado nos curdos armando as milícias presentes em Afrine, um dos três cantões curdos do noroeste da Síria, e oferecendo-lhes apoio aéreo. Foi o que aconteceu recentemente, quando as YPG se apoderaram de parte do corredor entre Aleppo e Azas, principal via de abastecimento dos rebeldes sírios anti-Assad apoiados por Ancara.

No dia 27 de abril, em Moscou, na ocasião da conferência anual sobre a segurança internacional, o deputado russo Semion Bagdasarov ameaçou: "Se Washington e seus aliados acionarem seu plano B", ou seja, o fornecimento de mísseis solo-ar à rebelião síria, "os curdos também os receberão."

Tradutor: UOL

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