Para defensores da saída do Reino Unido da UE, referendo é consulta sobre imigração

Philippe Bernard

  • Paul Ellis/AFP

    Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham, no Reino Unido

    Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham, no Reino Unido

Economia versus imigração. É do peso relativo dessas duas temáticas entre a opinião pública britânica que depende o resultado do referendo do dia 23 de junho, sobre a permanência ("in") ou a saída ("out") do Reino Unido na União Europeia.

Enquanto os pró-UE dizem que uma ruptura com o mercado único europeu causaria uma recessão econômica e um colapso da libra esterlina, os partidários do "Brexit" repetem que só uma separação da UE permitirá que o fluxo de imigração diminua.

Estes últimos sonham em transformar o referendo em uma consulta sobre a imigração. Se conseguirem, o Reino Unido sairá da UE de tanto que a obsessão pelos estrangeiros, martelada há décadas pela imprensa popular dos tabloides, parece ter se incrustado entre os eleitores britânicos.

Na última segunda-feira (13), o "Daily Mail" trazia como manchete "o complô destinado a trazer 1,5 milhão de turcos para dentro do Reino Unido", quatro dias depois de ter posto em sua capa: "O duplo assassino albanês que viveu 18 anos em um Reino Unido de fronteiras abertas".

Para o correspondente do "Le Monde", são raras as entrevistas de rua sobre o referendo onde não surge uma expressão como "eles são muitos", quase sempre introduzida por uma desculpa do tipo "Adoro a Europa, mas..."

Culpar os europeus

O ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, que está conduzindo a campanha do "out", se vale da mesma retórica: "Como podemos controlar a imigração enquanto estivermos dentro da UE?", ele questiona, em sua crônica semanal no "Telegraph". "Os partidários do 'in' não têm o que responder."

No debate sobre o referendo, a palavra "imigrantes" não engloba os sírios, os turcos e os paquistaneses, cujo status continuaria inalterado em caso de "Brexit". Ela serve para designar os europeus que se instalam no Reino Unido graças à livre-circulação dentro da UE e cujas chegadas se multiplicaram devido à boa saúde da economia e do dumping salarial.

Os partidários do "Brexit", apresentando o país como uma "pequena ilha" vítima de sua prosperidade ao lado de uma zona do euro "em falência", prometem acabar com a livre-circulação, sem especificar o destino que reservarão aos europeus depois de acionar a ponte levadiça.

Pouco visionário, o primeiro-ministro David Cameron não havia pronunciado nenhuma vez a palavra "imigração" no discurso de 2013 quando prometeu um referendo sobre a UE. Três anos mais tarde, a palavra esquecida volta a ele como um bumerangue, repetida diariamente com uma eficácia certeira.

Não se pode esquecer que, no meio tempo, ele mesmo acendeu o pavio ao fazer da redução dos auxílios para os "imigrantes" europeus sua principal reivindicação durante suas negociações com Bruxelas.

Enquanto a campanha do "in", cujo principal trunfo seria a economia, só convenceu 19% de que suas condições melhorariam ao permanecer na UE, os partidários do "out" colocaram na cabeça de 49% dos britânicos que a imigração diminuiria se eles rompessem com a União Europeia.

"Muitos eleitores veem a saída da UE como uma solução em potencial para aquilo que eles consideram um problema importante, a imigração", resume John Curtice, professor de ciências políticas na Universidade de Strathclyde e o especialista mais ouvido em matéria de pesquisas de opinião pública.

O argumento é ainda mais poderoso pelo fato de que põe em evidência a promessa eleitoral não cumprida mais conhecida e mais imprudente feita pelo primeiro-ministro em 2010: baixar o fluxo de imigração anual para menos de 100 mil.

Publicadas no final de maio em plena campanha, as estatísticas para 2015 —330 mil entradas, sendo 184 mil pessoas vindas da UE— foram uma dádiva para os militantes do "Brexit".

A defesa de Cameron, para quem esses números refletem a atratividade excepcional do país, dificilmente convence as centenas de milhares de trabalhadores precários, convencidos de que os recém-chegados poloneses, romenos ou letões estão tirando seu trabalho ou jogando seus salários para baixo.

E as estatísticas que mostram a clara contribuição dos imigrantes para a riqueza do país não comovem muito os usuários que sofrem com as longas esperas para consultar um clínico geral --muitas vezes convictos de que os estrangeiros são a causa de seus problemas.

Forte pressão

Na segunda-feira, um estudo publicado pelo Migration Watch, um grupo de reflexão partidário do controle da imigração, foi destaque na imprensa ao prever que a imigração "a cada ano poderia aumentar a população do país em um número equivalente a uma cidade como Southampton", ou seja, 250 mil pessoas, sendo 60% de europeus, durante os vinte próximos anos.

O estudo alerta para outro argumento da campanha pró-Brexit: um fluxo de "100 mil turcos por ano".

É o que os "brexiters" estão sempre repetindo: a Turquia está prestes a entrar na UE, algo que tem sido negado pela Downing Street. A última edição do "Sunday Times" chegava a afirmar que a embaixada britânica em Ancara pretendia autorizar 1,5 milhão de turcos a viajarem sem visto após o acordo sobre os imigrantes entre Turquia e UE.

Diante dessa forte pressão, os partidários da permanência na UE repetem que o país perderá seu acesso ao mercado único europeu se ele abolir a livre circulação dos trabalhadores, e que os britânicos expatriados na UE (mais de um milhão) correm o risco de sofrer as consequências de medidas de retaliação em caso de "Brexit".

Eles lembram que o Reino Unido não faz parte do espaço Schengen e que os controles na entrada do território são, portanto, sistemáticos. "Enfraquecer nossa economia saindo da UE não é a resposta certa ao complexo problema da imigração", afirmou Cameron durante seu último debate na TV.

Mas a dificuldade do Partido Trabalhista em convencer seus próprios eleitores, tentados pelas explicações xenófobas, a seguirem sua orientação a favor do voto no "in", preocupa todo o campo pró-europeu.

Pouco presente na campanha, o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, defende posições abertas à imigração, preferindo atribuir as tensões sociais à austeridade em vez da presença de imigrantes, e insiste na defesa dos direitos sociais garantidos pela UE.

Alertado por relatórios internos que assinalam uma fuga de eleitores para o campo do "Brexit" devido ao silêncio sobre a imigração, o Partido Trabalhista se lançou na segunda-feira em uma ofensiva para tentar reconquistar os desagarrados durante os dez últimos dias da campanha.

O ex-premiê Gordon Brown iniciou uma brilhante turnê pró-UE. Ele propõe que seja criado um fundo de apoio às cidades que se encontrem sob tensão migratória.

"Nós temos uma obrigação de honestidade sobre a natureza do mundo onde vivemos", declarou Hilary Benn, ministro das Relações Exteriores do gabinete fantasma do partido da oposição.

"A imigração continuará, independentemente de o país ficar ou sair da UE". Será que esse surto de honestidade bastará para evitar que muitos eleitores respondam à pergunta sobre a Europa baseados somente na imigração?

Tradutor: UOL

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