Polônia autoriza derrubadas de árvores na floresta mais antiga da Europa

Jakub Iwaniuk

  • Maciek Nabrdalik/The New York Times

    Bisões europeus pastam no Parque Nacional de Bialowieza, na Polônia

    Bisões europeus pastam no Parque Nacional de Bialowieza, na Polônia

Para o desagrado de cientistas e ambientalistas, o governo da Polônia autorizou a abertura de clareiras em Bialowieza, a mais antiga floresta da Europa, devastada por insetos

No vilarejo polonês de Bialowieza, na fronteira bielorrussa, a polêmica é tão antiga quanto a Polônia livre e tão excepcional quanto a floresta que a cerca: em que medida o homem tem direito de colocar as mãos em uma das florestas mais bem conservadas da Europa?

No meio do extremo leste da Europa Ocidental, no cruzamento dos caminhos entre a cristandade e a ortodoxia, o tempo parece ter parado, de tão imponente que é a natureza. A floresta de Bialowieza, com seus 150 mil hectares de ambos os lados da fronteira, abriga ainda os últimos bisões selvagens da Europa, lobos, linces e sobretudo ecossistemas únicos no mundo. É ali que crescem os mais antigos abetos do continente que, do alto de seus 50 metros, dão vertigem ao visitante.

Uma excursão pelo centro das zonas de proteção estrita faz com que se sinta ter viajado 10 mil anos no passado, quando, no final do último período glacial, a floresta de Bialowieza assumia a forma que conseguiu preservar até os dias de hoje.

180 mil m³ de árvores para abate

É um patrimônio da humanidade da Unesco, onde duas concepções de proteção da natureza se colidem: uma passiva, que consiste em deixar a natureza sozinha, e a outra ativa, onde os guardas florestais trabalham, na base de derrubadas e plantios, para manter o que está vivo. Desde 2012 a floresta tem sido alvo de uma invasão de insetos xilófagos que estão devastando os abetos.

Seguindo as recomendações da Agência Nacional das Florestas, o ministro polonês do Meio Ambiente deu seu aval, no final de março, a um controverso plano que prevê a derrubada de 180 mil m³ de árvores em um período de dez anos, em vez dos 40 mil m³ inicialmente previstos. No dia 24 de maio, o governo anunciou o início do programa de abate, um fato inaceitável para grande parte da comunidade científica e para as organizações ambientais, para quem a expansão do inseto faz parte do processo natural de regeneração da floresta.

O professor Tomasz Wesolowski, que conhece a floresta de Bialowieza como ninguém, é dessa opinião. Há 42 anos, esse renomado cientista e ambientalista engajado passa ali vários meses por ano, estudando minuciosamente a fauna e a flora que a compõem. "Estamos aqui em um lugar onde, há um século, o homem não pôs as mãos", ele ressalta durante uma visita ao coração desse parque nacional. "O que é excepcional é que apesar das ingerências humanas mínimas ao longo da história, o processo natural de regeneração dos ecossistemas nunca foi interrompido, e isso desde o fim da era glacial." Segundo ele, o parque é um laboratório inestimável para as ciências florestais, único em zona climática temperada.

É usando esse argumento que as organizações ambientalistas reivindicam a extensão do parque nacional por toda a parte polonesa da floresta, que ainda tem 85% de sua área administrada pela Agência Nacional das Florestas. Mas os guardas florestais não têm a intenção de abrir mão de suas prerrogativas nem à fortuna que representa a exploração comercial, ainda que limitada, de sua área.

Já Bogdan Jaroszewicz, ex-diretor do parque nacional de Bialowieza, lamenta que os guardas florestais falem de desperdício de matéria-prima. "Essa matéria-prima tem um valor mínimo comparado com as vantagens que o homem pode tirar de uma floresta natural: turismo, absorção de CO2, filtragem da água, ervas medicinais..."

Ainda que os abates não digam respeito ao parque nacional, este último continua no centro do debate. "Os defensores das derrubadas dizem que, nas zonas de proteção estrita, certas espécies de árvores estão sumindo. A partir disso, eles concluem que a floresta não consegue enfrentar sozinha as incertezas naturais, o que é errado do ponto de vista científico", diz Jaroszewicz. "É preciso acabar com o mito de que a proteção estrita leva ao desaparecimento da vida." Ele aponta para os vários tocos de abetos mortos. "Aqui, nos anos 1960, a floresta era dominada pelos abetos. Os insetos os devoraram, quase não restam mais deles. Mas a vida continua, a floresta continua. Os tocos de árvores mortas contribuem para perpetuar o ecossistema."

No vilarejo, assim como em todas as comunas vizinhas afetadas, esse ponto de vista continua sendo minoritário. Ali, há gerações, as populações locais vivem no coração da floresta e tiram seu sustento dela. Em cada família há pelo menos um guarda florestal. "Noventa e nove por cento das pessoas estão do lado dos guarda florestais e são a favor da derrubada", afirma Basia, habitante de Bialowieza. "Os nativos são práticos. Eles querem lenha para queimar, material de construção. Eles querem aproveitar os cogumelos e os frutos dos bosques, como sempre fizeram."

Nessa região rural, os ambientalistas e os cientistas são estranhos, "vindos da cidade", ao passo que os habitantes frequentam a floresta no dia a dia. A ciência deles é a silvicultura, onde o homem é o principal administrador.

É um ponto de vista que o novo ministro do Meio Ambiente, o conservador Jan Szyszko, entendeu bem. Guarda florestal de profissão, ele é no mínimo controverso, conhecido por suas posições céticas sobre o clima. Enquanto em Varsóvia cresce a polêmica e os ativistas do Greenpeace invadem o teto do Ministério do Meio Ambiente para estender uma faixa e pedir pela preservação da floresta de Bialowieza, ele improvisa uma entrevista à imprensa à beira da floresta.

"Só é possível preservar esses recursos naturais através da intervenção do homem sobre a natureza", ele exclama, de pé sobre um tronco de árvore, ovacionado por cerca de 50 habitantes.

Com a morte dessas populações florestais, habitats naturais protegidos pela União Europeia estão em risco. É preciso resolver esse problema. A UE e a Unesco já manifestaram suas preocupações em relação aos projetos de cortes, mas ele fala em "desinformação em escala internacional". Com seu programa, defende uma "experimentação em escala mundial" contra as "posturas ideológicas" dos ambientalistas.

"É uma verdadeira epidemia"

Os guarda florestais estão dispostos a assumir o desafio. "Se não fizermos nada, a floresta não morrerá, mas perderá seu valor natural", alega Dariusz Skirko, chefe da guarda florestal em Bialowieza. "Os insetos xilófagos sempre estiveram presentes, mas regulados. Agora perdemos o controle do processo. É uma verdadeira epidemia."

Segundo um comunicado do Ministério do Meio Ambiente, desde 2008 mais de 3,7 milhões de m³ de árvores teriam desaparecido, "correspondentes a um valor superior a 700 milhões de zlotys" (R$ 617 milhões). Para os guardas-florestais, não há dúvida: para salvar a floresta, é preciso cortar. São "cortes sanitários" que, como afirma o ministério, constituem uma fortuna considerável. "A floresta de Bialowieza não é explorada como as outras florestas comerciais polonesas", afirma Dariusz Skirko. "Aqui, a proteção da natureza sempre foi prioridade. O aspecto comercial tem pouca importância."

O Greenpeace e o Fundo Mundial pela Natureza (WWF) decidiram apresentar uma queixa perante a Comissão Europeia, em Bruxelas. Se as abordagens parecem difíceis de conciliar, é porque os guardas-florestais e as populações locais olham para a floresta pela perspectiva de duas gerações de famílias; já os cientistas e os ambientalistas olham pela perspectiva de milênios.

"Os ambientalistas dizem que a natureza vai se renovar. Mas é um processo muito lento", suspira Krzysztof Zamojski,  presidente do conselho municipal de Bialowieza e guarda-florestal. "É preciso ajudar a floresta a se renovar e acelerar o processo." Mas para os cientistas, essa lentidão não tem preço.

Tradutor: UOL

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