Liverpool renasceu graças a fundos europeus, mas lidera em euroceticismo

Eric Albert

  • Jon Super/AFP

    O ministro das Finanças britânico, George Osborne, inaugura o Festival Internacional dos Negócios em Liverpool, na Inglaterra

    O ministro das Finanças britânico, George Osborne, inaugura o Festival Internacional dos Negócios em Liverpool, na Inglaterra

Kate Forrester recua alguns passos e aponta para diferentes edifícios. "Ali fica o terminal dos navios de cruzeiro, que foi pago em parte com fundos europeus. Aqui é o museu de Liverpool, aberto em 2011, que também recebeu dinheiro europeu. Um pouco adiante, o museu da Tate Liverpool, que recebe financiamentos europeus para suas exposições." 

Ao longo do rio Mersey, a lista continua: os financiamentos da União Europeia estão por toda parte, terminando em um grande centro de convenções novinho em folha.

"Quem atravessa Liverpool tem dificuldades para encontrar um lugar que não tenha recebido dinheiro europeu", continua Forrester, uma moradora de Liverpool de 28 anos que milita pelo Stronger in Europe, o grupo que faz campanha pela permanência dentro da UE.

Atingida em cheio nos anos 1980 pela desindustrialização e pelo declínio do porto, Liverpool vem renascendo nos últimos 15 anos. A reconstrução mais impressionante se encontra ao longo do rio, onde docas outrora mal afamadas foram transformadas em um centro cultural e turístico.

De 1994 a 2013, a cidade recebeu 1,9 bilhão de libras (R$ 9,2 bilhões) de Bruxelas, como ajuda para as regiões mais pobres. "Esse dinheiro europeu em seguida virou uma bola de neve, atraindo outros capitais", explica Forrester.

Enquanto o lado do "Remain" (favoráveis à permanência na UE) pena para convencer com sua mensagem, Liverpool oferece uma resposta concreta à pergunta que muitos britânicos fazem: o que a UE fez por nós? Ali, além da reconstrução, as pessoas se lembram com emoção do título de Capital Europeia da Cultura de 2008, que voltou a colocar a cidade em evidência.

No centro de convenções, financiado parcialmente pela UE, o ministro das Finanças, George Osborne, inaugurou oficialmente na segunda-feira (13) o Festival Internacional dos Negócios, três semanas de encontros entre empresas britânicas e internacionais.

"Essa cidade foi construída sobre seus laços comerciais com o exterior", ele explica. "Sair da UE seria assumir um risco, que poderia colocar em xeque 120 mil empregos na região."

Joe Anderson, o prefeito trabalhista de Liverpool, concorda: "Os partidários do Brexit nos dizem que a grama é mais verde do outro lado. Eu acredito que do outro lado há um deserto, com um caminho isolado para o Reino Unido. (...) Aqui, se olharem ao redor de vocês, verão provas evidentes de que a Europa beneficiou essa cidade."

A campanha do "Remain" distribui folhetos naquele dia nas ruas de Liverpool, e em sua imensa maioria, os militantes são bem recebidos pelos transeuntes. Se uma cidade permanecer pró-UE, provavelmente será essa. Segundo o instituto de pesquisa YouGov, Liverpool é um dos vinte lugares do Reino Unido mais favoráveis à UE.

Temor de alta abstenção

No entanto, por trás desse discurso pró-europeu, não precisa procurar muito a fundo para encontrar o tradicional euroceticismo britânico. Nos prédios financiados pela UE, é raríssimo ver uma pequena sigla lembrando a origem dos fundos. A Europa passou por lá, mas sem assinar.

Ademais, à medida em que Liverpool enriquece, os financiamentos europeus vão minguando. Para o programa de 2014-2019, há somente 215 milhões de euros previstos.

"É normal", responde Anderson. "Nós nos beneficiamos muito com a UE, e não devemos nos afastar dela agora que estamos nos desenvolvendo".

Contudo, essa mensagem de solidariedade nem sempre convence facilmente.

Ainda mais pelo fato de que os partidários da EU estão enfrentando uma ampla apatia e temem um alto índice de abstenção, sobretudo entre os mais jovens. Já aqueles que apoiam o "Brexit" estão muito motivados.

"Durante as eleições tradicionais, como as legislativas, quase nunca enfrentamos pessoas gritando com você, ao passo que é o que muitas vezes tem acontecido desta vez", acredita David Baines, um militante do Stronger In.

Ele cita "os homens brancos de uma certa idade" como sendo particularmente propensos a essas reações viscerais.

"A imigração é um problema de verdade. Há muitos europeus, como albaneses, vindo se instalar aqui. E eles vivem de mendicância e ajudas sociais", explica Michael Banks, um senhor na faixa dos 50 anos.

"Meus clientes brancos idosos muitas vezes têm o mesmo discurso: 'a gente vivia muito bem antes de entrar na UE, podemos recomeçar'," suspira Baka Mohmaed, um curdo iraquiano de nacionalidade britânica em seu salão de cabeleireiro.

Em Liverpool, esse discurso parece ser minoritário. Mas o entusiasmo pela permanência é só moderado, o que preocupa muito os pró-UE como Francine Palant, militante do Stronger In: "Se está apertado em Liverpool, acabou para o Reino Unido."

 


 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos