Em Birmingham, referendo sobre a UE é retrato de uma "batalha de gerações"

Philippe Bernard

  • Paul Ellis/AFP

    Manifestante favorável à permanência do Reino Unido na União Europeia veste camiseta que diz "Acredite na Grã-Bretanha", em Birmingham, na Inglaterra

    Manifestante favorável à permanência do Reino Unido na União Europeia veste camiseta que diz "Acredite na Grã-Bretanha", em Birmingham, na Inglaterra

No meio do dia, durante a semana, o estacionamento do Mecca Bingo de Acocks Green, no grande subúrbio de Birmingham, não é um lugar particularmente agradável.

Um longo galpão metálico cinza, decorado somente com cinco letras coloridas preenchidas de estrelas, marca da principal rede britânica de cassinos para pobres, abriga máquinas caça-níqueis, loteria e roda da fortuna, todos os dias, sem interrupção, das 11h às 22h, servindo também croquetes de batata ou torta de bacon a qualquer hora a partir de 3,99 libras esterlinas (R$ 19).

No amplo estacionamento entre um guarda-móveis e uma série de casas modestas em tijolo, velhinhas ou às vezes casais de idosos saem de um táxi ou estacionam seus carros minúsculos sonhando com as "77.777 libras esterlinas" do "dia de loucura" prometido pelos cartazes.

Lor Batchel, 71, sai com dificuldades de seu velho Peugeot 106 azul metálico. Sobre o referendo do dia 23 de junho sobre a União Europeia, sua opinião já está formada: será o "out" (a favor da saída da UE).

"Por que outros países nos ditam nossas leis?", diz sem hesitação essa funcionária de bar aposentada. "Meu marido é sucateiro e agora ele precisa pagar uma licença de 1.000 libras (quase R$ 5 mil) para se deslocar."

Ela não sabe se isso é realmente culpa da UE, mas ela supõe que sim, pois "as coisas não estão como era antes". Além disso os imigrantes "estão tirando nossas casas", "fazendo com que os alugueis aumentem, a ponto de nossos netos não terem mais onde morar", diz essa morena "nascida e criada em Birmingham", com um forte sotaque "brummie" típico da região.

Sobre a ameaça de desestabilização, ou até de guerra, brandida por David Cameron em caso de "Brexit", Lor Batchel se mostra ainda mais exaltada: "Ele está tentando nos assustar, mas não vai conseguir.

É a Otan, e não a UE que nos mantém em paz. Além disso, veja a Síria e o terrorismo: a guerra já está acontecendo!" Até para a ameaça de um aumento de preços ligado à volta das fronteiras, a aposentada tem uma resposta: "Ora, a França vai continuar querendo nos vender suas batatas e seus tomates!"

"Eles mentem, mentem e mentem"

Todas as pesquisas e sondagens indicam claramente: a idade é diretamente proporcional à eurofobia dos britânicos; já o nível de educação é proporcional à eurofilia. Somente 15% das pessoas com nível superior querem sair da UE, contra 55% das pessoas sem qualificação.

Jovens e velhos também se opõem categoricamente sobre o tema: mais de dois terços dos jovens entre 18 e 24 anos querem permanecer na União Europeia, ao passo que uma proporção equivalente entre os maiores de 65 anos deseja o Brexit.

"Já sabemos há muito tempo: esse referendo é uma batalha entre os mais e os menos instruídos, e uma batalha entre os idosos e os jovens", resume John Curtice, professor de ciências políticas na Universidade de Strathclyde, um dos maiores especialistas britânicos em pesquisas de opinião.

De um lado, estão as pessoas instruídas, que se sentem à vontade em uma sociedade multicultural e que não se sentem ameaçadas pela globalização; do outro, pessoas desfavorecidas que atribuem suas dificuldades de emprego e seus baixos salários à concorrência dos imigrantes do leste ou do sul da Europa.

No estacionamento do Mecca Bingo de Acocks Green, onde se concentram pessoas idosas sem qualificação, essa análise se confirma em grande parte.

"Nosso dinheiro vai para Bruxelas em vez de financiar nossos hospitais. Cada centavo nosso deve permanecer neste país", esbraveja Noel, um desempregado de 49 anos, repetindo um bordão da campanha pró-Brexit.

"Aqueles que defendem a UE moram em bairros para multimilionários. Eles não estão nem aí para gente como nós. Eles mentem, mentem e mentem, anunciando calamidades em caso de saída, só para nos assustar."

Desnecessário abordar a questão da imigração, que surge logo de cara, quase que sistematicamente.

"Eles entram aos milhares para roubar nossos empregos, derrubando os salários", vocifera Noel. "Mas os políticos não se importam com os ingleses."

"Estamos fartos", diz simplesmente uma outra cliente do bingo, que nem precisa explicar do que está falando. Ela ainda não se decidiu completamente sobre seu voto, mas pende nitidamente para o "out" "por causa dos imigrantes."

Sobre a liberdade de se viajar pela Europa, ela diz que "eu de qualquer forma nunca saí da Inglaterra", observa a senhorinha de cabelos brancos que comemorará seus 86 anos "no próximo domingo" e sai mancando na direção do cassino de lata.

No entanto, no mapa do euroceticismo levantado pelo instituto de pesquisas YouGov, Birmingham, uma das cidades mais misturadas da Inglaterra, se encontra no meio: nem tão do lado do Brexit, como certas áreas do sul da Inglaterra, e nem relativamente eurófila, como a Escócia.

Saindo de Acocks Green, bastam alguns minutos de trem de para se chegar até o ultramoderno centro de Birmingham, onde a imensa City University (BCU) se estende em imponentes prédios transparentes, em frente ao terminal do futuro trem de alta velocidade proveniente de Londres.

A BCU, um estabelecimento de recrutamento popular e regional, não é uma faculdade de elite para filhinhos de papai, mas é uma das raras universidades britânicas a ter organizado um debate destinado a informar seus 23 mil estudantes sobre o referendo e o "futuro da Europa".

Somente uma centena deles compareceu no dia 26 de maio, ao anfiteatro onde três representantes do Brexit e três do "Remain" debateram em um ambiente muito aplicado.

Na faculdade, nenhum cartaz ou panfleto lembra que será realizada uma votação apresentada por muitos como "a mais importante desde 1945". O único sindicato estudantil administra as cantinas e as atividades esportivas, e professa "a mais estrita neutralidade".

Não há um único militante para incentivar os recém-maiores de idade a se inscreverem nas listas eleitorais, sendo que, segundo os números oficiais, 30% dos jovens com 18 anos de idade não estão inscritos.

O período dos exames, obstáculos acrescentados pelo próprio David Cameron em 2015, em vez de facilitar a inscrição de alunos domiciliados administrativamente na casa de seus pais em seus locais de estudos, pode acabar influenciando na participação dos jovens, que todos apresentam como um dos fatores decisivos do referendo.

"É verdade, não estamos observando nenhuma mobilização especial dos estudantes com a aproximação do referendo", explica Keith Horton, reitor da faculdade de comércio, direito e ciências sociais.

"Eles pagam caro por seus estudos —9 mil libras ou mais de R$43 mil por ano— e só têm uma ideia na cabeça: conseguir seu diploma e valorizá-lo no mercado de trabalho."

O professor não esconde que, pessoalmente, ele quer muito que o Reino Unido permaneça na UE. "Um Brexit seria terrível", ele diz, "tanto para nossa economia, nosso peso geopolítico e nossos créditos de pesquisa quanto para intercâmbio como o Erasmus". Mas durante o debate ele não dirá nada, reivindicando a mais perfeita neutralidade.

Paul Ellis/AFP
Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham

"Deixar a Europa dos patrões"

Luke Mollins, 21, estudante de comunicação, não tem todo esse cuidado. Ele se informou, fez pesquisas na biblioteca e se declara 100% "pró-Remain" (a favor de permanecer na UE).

"A libra vai cair 12% e os preços vão subir 2% por ano. São os pobres que vão pagar a conta", ele explica, citando a situação de seus próprios pais, que são deficientes, bem como o risco de uma guinada à direita da política britânica caso o "Brexit" vença.

Além disso, ele acrescenta que "somos mais fortes em 28 do que sozinhos, podemos ir estudar na Espanha, viajar para onde quisermos. É vantajoso para todo mundo". A apatia de seus colegas o preocupa. "Quando falamos sobre isso, eles não têm nada a dizer. É assustador. Podemos acabar saindo da UE por causa disso."

Seus colegas estão longe de ser todos eurófilos. "Os estudantes têm argumentos egoístas: eles querem poder ir estudar na França ou comprar vinho italiano", diz com condescendência Gabriel Bradnick, 18, que estuda economia e finanças.

"Eu considero o que é bom para o Reino Unido: sair de um bloco que está caminhando rumo a um desastre econômico e será sempre dividido demais culturalmente para reproduzir o modelo dos Estados Unidos". "A UE é antidemocrática e impossível de reformar", diz Bethany Jones, de 21 anos e futura parteira.

O debate organizado pela BCU, como era de se esperar, colocará civilizadamente frente a frente os argumentos dos dois campos do referendo: de um lado, soberania britânica, falta de democracia e desperdício de Bruxelas; do outro, solidariedade, liberdade de circulação e risco de recessão. Os argumentos econômicos ocupam 80% dos discursos.

"O debate está tão focado na relação custo-benefício da UE, que não surpreende que os estudantes não levantem argumentos mais elevados", constata o reitor Keith Horton.

Jonathan Barcena, um estudante de origem guineana, defende o voto pela saída, pois segundo ele a UE explora os países do Sul com acordos comerciais injustos. Saqib Bhatti, diretor da Muçulmanos pelo Reino Unido, argumenta no mesmo sentido.

Ao apresentar a livre-circulação que beneficia os estudantes europeus como uma discriminação contra os do Commonwealth, ele promete que uma saída da UE permitirá criar mais espaço para indianos e paquistaneses. Na saída do anfiteatro, somente alguns estudantes permanecem em torno de um bufê. Dois militantes trotskistas vendem seu jornal, "The Socialist", que defende o voto para "sair da Europa dos patrões."

Neena Gill, uma deputada europeia trabalhista que assistiu ao debate, parece desanimada. "Os jovens não dão valor a todas as conquistas da Europa. Eles são os principais afetados e podem acabar não votando", ela lamenta, declarando-se "muito preocupada com o índice de participação dos jovens."

Com a mesma constatação, a campanha anti-Brexit parece se concentrar na terceira idade. Uma pequena migração de votos entre essa categoria maioritariamente contra a UE poderia fazer a diferença, o que explica as repetidas mensagens voltadas para eles, prevendo calamidades em matéria de aposentadoria e segurança caso vença a saída da UE.

Será que o lado do "in" deverá sua salvação a "velhos" pró-europeus como Stuart Scott, 74, um ex-formador de professores em Birmingham? "Se votarmos a favor da saída da UE, isso significará que as pessoas não entenderam nada da História", ele acredita.

"Será uma derrota do ensino. Na condição de educador, isso me deixaria profundamente triste." Enquanto não chega a votação, esse professor aposentado tenta persuadir a família de sua esposa, que votará pelo "out", a aderir à UE, para defender a soberania do Parlamento de Westminster.

Tradutor: UOL

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