Erros e descaso marcaram a busca por Salah Abdeslam na Bélgica

Jean Pierre Stroobants

  • VTM/Reuters

    Imagem de vídeo mostra momento em Salah Abdeslam é preso por policiais belgas, em Molenbeek, próximo a Bruxelas (Bélgica)

    Imagem de vídeo mostra momento em Salah Abdeslam é preso por policiais belgas, em Molenbeek, próximo a Bruxelas (Bélgica)

O único membro sobrevivente dos ataques de Paris poderia ter sido detido meses antes

Agora Hamid A. tem certeza disso: se as informações que ele tinha sobre Salah Abdeslam tivessem sido aproveitadas corretamente, o único membro sobrevivente dos ataques de Paris teria sido detido antes, e os atentados de 22 de março em Bruxelas provavelmente poderiam ter sido frustrados.

Hamid A. é um investigador independente da polícia federal na zona policial de Malines, a quarta maior de Flandres. De origem marroquina, ele vive em Molenbeek, onde possui inúmeros contatos.

Duas semanas após os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris, um deles citou o nome de Abid Aberkane, um indivíduo radicalizado que vivia na casa de sua mãe, no número 79 da rua de Quatre-Vents, em Molenbeek. Ele também indicou que o jovem possuía um Citroën idêntico ao usado por Salah Abdeslam, mencionado em um mandado de prisão internacional.

Só que Abdeslam era um amigo de longa data de Abid Aberkane. Este último ainda assistiria ao funeral de seu irmão Brahim, o homem-bomba do bulevar Voltaire, no dia 17 de março.

Abdeslam, na época o homem mais procurado da Europa, foi de fato preso na rua dos Quatre-Vents, seu último esconderijo. Mas foi somente no dia 18 de março, quatro meses depois que Hamid A. mencionou seu nome e sua possível localização.

Claramente não levaram em conta o documento que ele havia colocado nas mãos de seu superior, o comissário Yves Bogaerts. O procedimento habitual não foi aplicado e as informações não foram repassadas ao Banco Nacional Geral (BNG), o computador central ao qual as diferentes unidades de polícia têm acesso.

Essas informações, que também mencionavam Abdelhamid Abaaoud e sua prima Hasna Ait Boulahcen, mortos no dia 18 de novembro de 2015 em Saint-Denis, deveriam ter no mínimo levado à colocação da casa de Molenbeek e seus ocupantes sob vigilância. As informações por fim foram repassadas, mas à procuradoria e à polícia federal -- de Anvers, e não ao departamento antiterrorista de Bruxelas.

"Incompreensível, a procuradoria de Anvers não tinha nada a ver com esse caso", conta um magistrado.

Além disso, o gabinete do procurador teria indicado ao comissário Bogaerts que ele deveria transmitir o relatório ao BNG, o que este nega. Quanto à polícia federal de Anvers, ela teria considerado que as informações eram "pouco confiáveis", sobretudo porque Hamid A. não queria revelar suas fontes, o que em geral ele se recusava a fazer.

Um evidente deslize

Quando ele soube da prisão de Abdeslam, em março, Hamid A. informou ao Comitê de Controle permanente de serviços de polícia, o chamado Comitê P. Este abriu uma investigação criminal sobre aquilo que provavelmente seria um dos principais erros na caça por aqueles que participaram dos atentados de Paris ou que ajudaram em sua preparação, talvez também nos de Bruxelas, dia 22 de março.

Na última quarta-feira (22), o presidente do Comitê P. foi ouvido a portas fechadas pela comissão parlamentar que investiga os atentados de Zaventem e do metrô Maelbeek. Ele não apontou o comissário Bogaerts como o único responsável por aquilo que evidentemente parece um deslize, preferindo falar em um problema que diz respeito à toda cadeia policial e os procedimentos em vigor.

"Não há certeza de que, mesmo que a informação tivesse sido divulgada corretamente e que o nome de Abdeslam tivesse sido mencionado, as pessoas teriam percebido", diz, irritado, um membro da comissão falando sob condição de anonimato.

O Comitê P., no entanto, considera que é inconcebível que a informação a respeito de Abdeslam tenha dormido durante quatro meses dentro de uma gaveta.

Os métodos de Bogaerts provavelmente revelam aquilo que um outro deputado chama de "descaso" nas investigações sobre terrorismo, em especial quando dizem respeito a Molenbeek.

Muitos outros fatos, evidenciados por um relatório intermediário do Comitê P., revelado em abril, mostram isso: foram necessários 13 meses para analisar o conteúdo de telefonemas e de chaves USB apreendidas em fevereiro de 2015, na casa dos irmãos Abdeslam.

O comissário, alvo de uma queixa por assédio feita por Hamid A., também teve criticada sua atitude em relação a seus subordinados de origem marroquina e turca, dos quais muitos preferiram deixar Malines.

Hoje, Hamid A. está incapacitado de trabalhar, desarmado e exposto a ameaças de morte, segundo ele. Ele exige proteção e uma audiência junto aos deputados.

Tradutor: UOL

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