Na véspera das eleições, divisões na esquerda persistem e embolam cenário na Espanha

Sandrine Morel

  • Alvaro Barrientos/AP

Seis meses após as eleições gerais de dezembro de 2015, que não haviam permitido a formação de um governo, será que a nova votação organizada para domingo (26) permitirá resolver o cenário político espanhol? Não há garantia nenhuma disso, e as últimas pesquisas divulgadas antes da votação não ajudam a prever o que virá pela frente.

O partido da esquerda antiausteridade Podemos, fortalecido pela aliança formada com os neo-comunistas da Esquerda Unida (Izquierda Unida, IU) e vários movimentos regionais, parece em boa posição, com intenções de voto girando em torno de 26% (contra 20,68% em dezembro de 2015), para tirar o segundo lugar do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), estagnado em 20,5%.

O Partido Popular (PP, direita) parece ter começado bem, com 29%, mantendo um primeiro lugar que, seis meses atrás, havia se revelado insuficiente para governar.

Esse é o aspecto contábil. Quanto ao resto, as querelas internas dentro da esquerda continuam tornando incerta a perspectiva de uma coalizão entre o Podemos e o PSOE.

Para o líder socialista Pedro Sánchez, é impensável permitir que Pablo Iglesias, o líder do Podemos, se torne presidente do governo, uma vez que este votou contra sua candidatura em março, e que o Podemos não esconde sua vontade de infligir ao PSOE o mesmo destino que o Pasok teve na Grécia, jogá-lo na lixeira da História.

Os socialistas têm uma única esperança para reverter a situação e evitar que o PP se aproveite do imbróglio: "Se não houver maioria, e para evitar terceiras eleições, seria necessário deixar governar o partido que obtiver mais apoio no Parlamento", explicou, em meados de junho, o conselheiro econômico do PSOE, Jordi Sevilla.

Relações ambíguas

A manobra é clara: se ele conseguir reeditar a aliança que havia feito em fevereiro com o partido centrista e liberal Ciudadanos, com 14% das intenções de voto, o PSOE espera convencer o Podemos a apoiá-lo.

Pedro Sánchez concordou ao propor, no dia 20 de junho, formar um governo de coalizão com ministros saídos ao mesmo tempo do Podemos e do Ciudadanos. No entanto, a proposta tem poucas chances de dar certo, depois de ter fracassado uma primeira vez em março, no momento da nomeação.

A capacidade do Podemos e do PSOE de se entenderem é ainda mais incerta pelo fato de que os dois partidos mantêm relações ambíguas, cuja natureza difere de uma região para outra na Espanha.

Nas cidades de Madri e de Barcelona, onde governam plataformas cidadãs mantidas pelo Podemos graças ao apoio dos socialistas, elas funcionam sem solavancos, ao passo que em Cádiz os dois partidos estão à beira da ruptura.

Nas regiões de Valência, Baleares, Castilla-La Mancha e Aragão, o apoio fundamental do Podemos a governos socialistas está estável. Já em Extremadura, nas Astúrias ou na Andaluzia, os socialistas precisam encontrar o apoio de outros partidos para aprovar os orçamentos.

Para o Podemos, o modelo a ser seguido é o da região de Valência. Depois de vinte anos de governo do PP, os socialistas, que chegaram em segundo lugar nas eleições regionais de maio de 2015, governam a região graças a um acordo, o "pacto do Botânico", assinado com o partido regionalista e anticorrupção Compromís, que obteve a vice-presidência do governo regional, e o Podemos, que não quis entrar no governo para "exercer um controle externo". Um ano mais tarde, todas as forças políticas que aderiram ao "pacto" se dizem "satisfeitas".

"Nós demonstramos que é possível ter um governo de coalizão com um programa moderado e uma coesão interna", afirma ao "Le Monde" o presidente da região, o socialista Ximo Puig. "A direita nos dizia que ia ser muito complicado, que ia prejudicar a economia. Foi exatamente o contrário. Nós tivemos 3,4% de crescimento em 2015 e as exportações aumentaram."

"A maioria das medidas que havíamos estabelecido foram aprovadas ou já estão em funcionamento," comemora a vice-presidente Monica Oltra, advogada de 46 anos e porta-voz do Compromís. "Nós acabamos com os custos médicos para os idosos que ganhem menos de 1.000 euros por mês e implementamos medidas de combate à pobreza energética."

"Após vinte anos de governo do PP e da proliferação de casos de corrupção, existia uma saturação e um cansaço que tornaram essa aliança necessária, ainda que por higiene democrática", concorda Antonio Montiel, secretário-geral do Podemos na região valenciana.

"Até o momento, o PSOE e o Compromís não haviam conseguido tirar o PP do poder, mas nós mobilizamos o voto dos jovens e dos abstencionistas. Agora está na hora de revisar o acordo do Botânico para ir mais longe."

"Mudança cultural"

Apesar do acordo em Valência, cada um tem sua própria interpretação do entrave que ocorreu após as eleições de 20 de dezembro e das perspectivas de aliança em nível nacional. Para Montiel, "Ximo Puig, ao contrário de Pedro Sánchez, entendeu que houve uma mudança cultural."

Mas o presidente valenciano também se recusa a apoiar a ideia de um governo presidido por Pablo Iglesias, ainda que este esteja à frente dos socialistas.

"O Podemos ainda está em fase de maturação e precisa se definir", explica Puig. "Na Andaluzia, são anticapitalistas, aqui são mais moderados, e em Madri eles preferiram conduzir um jogo tático."

O problema é que, assim como várias figuras do PSOE, Puig também acredita que "uma grande coalizão com o PP seria a pior das soluções."

Após a eleição, e se o Podemos e o PSOE dispuserem da capacidade de governar, essa posição intermediária pode ser difícil de defender para os socialistas.

Enfraquecidos eleitoralmente, eles terão dificuldades para assumir que estão entravando o acesso ao poder de uma maioria de esquerda. O risco de fragmentação do partido, vislumbrado após a eleição de dezembro de 2015, voltará a ser bem real.

Tradutor: UOL

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