Após a batalha de Fallujah, campos de refugiados vivem falência humanitária

  • AHMAD AL-RUBAYE/AFP

Não havia nada ou quase nada pronto para receber os 90 mil habitantes que fugiram da cidade iraquiana retomada do EI

Debaixo da tenda de Oum Moustafa, cerca de vinte mulheres e crianças se amontoam sobre um quadrado de 4 metros por 5m, um tapete colocado direto no chão. O calor é sufocante. No novo acampamento montado às pressas na entrada de Amriyat al-Fallujah, no meio do deserto de Anbar, no oeste iraquiano, as temperaturas beiram os 50º C.

O reflexo do Sol sobre a areia queima os olhos. Desde que a família deixou Fallujah em plena batalha, no dia 17 de junho, ela espera os caminhões de alimentos e água que passam uma vez por dia e os voluntários que lhes prometeram colchões. "Não tem eletricidade, nem muita água potável ou banheiros individuais, onde sempre há uma longa fila de espera. Nós sofremos ainda mais porque estamos sozinhas com crianças pequenas", diz a jovem mãe de 27 anos.

"Fracasso coletivo"

Desde que a organização Estado Islâmico (EI) começou a se estabelecer na província sunita de Anbar no início de 2014, até o limite de Amriyat al-Fallujah, o vilarejo, que fica a cerca de 15 km ao sul de Fallujah, viu se multiplicarem os acampamentos de deslocados. Mas a experiência adquirida pelas autoridades locais e a hospitalidade de seus habitantes não bastaram para dar conta da onda de deslocamentos que acompanhou a batalha de Fallujah, o bastião sunita do EI, retomado pelas forças governamentais.

Entre 23 de maio e 26 de junho, quase 90 mil habitantes fugiram dos combates, pegando de surpresa as autoridades de Anbar, o ministério iraquiano dos Deslocados, as agências da ONU e as poucas ONGs internacionais presentes na região. "É um desastre humanitário e um novo suplício para essas pessoas", suspira Issa al-Issawi, o subprefeito de Fallujah.

"A situação é trágica", confirma o subprefeito de Amriyat al-Fallujah, Fayçal al-Issawi. "No começo, não havia nem tendas para os recém-deslocados. Isso se deu em parte devido a estimativas erradas. Nós pensávamos que só restavam 10 mil famílias, de cinco membros em média, em Fallujah, só que 23 mil chegaram em menos de três dias, sendo 15 mil só em Amriyat al-Fallujah."

Nesse vilarejo, metade dos deslocados estão sendo acolhidos na casa de moradores, e os outros se apertam em quatro ou cinco famílias por tenda até que os demais sejam instalados. A situação é ainda mais grave nos acampamentos de Khaldiya e Habbaniya, 30km a oeste, onde milhares de deslocados ainda não têm acesso a ajuda.

"Houve um total despreparo. É patético da parte da comunidade internacional, das Nações Unidas e das ONGs oferecer condições tão indignas para essas pessoas. É um fracasso coletivo", acusa Nasr Muflahi, diretor do Centro Norueguês para os Refugiados no Iraque.

Bruno Geddo, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados no Iraque, reconheceu que sua instituição não respondeu à altura. A ausência de grandes ONGs internacionais na região, a falta de coordenação entre os atores e a falta de financiamento agravaram a crise.

Menos de um quarto dos US$ 584 milhões (R$ 1,95 bilhão) exigidos pela ONU para atender às necessidades dos deslocados iraquianos em 2016 foi coletado. "Se nossa resposta está sendo essa em Fallujah com somente 90 mil pessoas, como será em Mosul, onde restam entre 800 mil e 1,5 milhão de habitantes, uma vez que não há nada preparado?", diz Muflahi com preocupação.

Abou Satam está esgotado. "Somos em 65 morando em duas tendas," diz o operário de 36 anos vindo de Saqlawiyah. "Isso não é vida. Às vezes penso em me matar. Perdi parentes, fui maltratado e, pior de tudo, fomos jogados no deserto sem saber se ficaremos aqui por meses ou anos..."

Autoridades locais desorientadas

Assim como todos os homens com mais de 15 anos que fugiram de Fallujah, ele viveu uma dificuldade a mais. No início de junho, ele passou vários dias no centro de detenção instalado nos galpões do antigo complexo militar de Amriyat al-Fallujah.

Até 23 mil homens foram detidos ali em condições desumanas, enquanto os homens de seis serviços de segurança, ajudados por informantes, verificavam uma possível afiliação deles ao EI. Alguns milhares ainda se encontram lá. "O ritmo diário de investigação só permite que se processem entre 500 e 800 casos", explica Fayçal al-Issawi, subprefeito de Amriyat al-Fallujah.

"O galpão estava abarrotado", conta Fahad, um estudante de 25 anos que acaba de ser libertado. "Não tinha espaço suficiente para as pessoas se deitarem. A gente dormia sentado no meio do lixo e dos banheiros. Os guardas jogavam a comida e as garrafas para cima. Não bebi água potável durante cinco dias."

As autoridades locais, encarregadas de suprir suas necessidades, se dizem desorientadas. "Os ministérios do Interior e da Justiça não dão nenhuma ajuda às autoridades de Amriyat al-Fallujah, que lutam sozinhas com seus poucos recursos", ressalta o subprefeito de Fallujah, Issa al-Issawi.

Fahad diz ter visto vários detentos morrerem de fome e de sede. "Na verdade eles perderam a consciência com o calor. Um detento morreu depois de ter inalado gases tóxicos. Essa antiga fábrica de produtos químicos é imprópria para funcionar como centro de detenção", diz Fayçal al-Issawi, que diz ter relatado a situação ao governo e às ONGs.

O procedimento permitiu detectar 2.000 supostos partidários do EI, segundo as autoridades. "Mais de 300 jihadistas podem ter passado", acredita o coronel Ali Asswad, combatente tribal da milícia do Escudo de Fallujah.

No setor que ele controla dentro do acampamento principal, os agentes encapuzados da unidade antiterrorista Al-Suqour (os Falcões) vieram ajudá-lo. Os homens foram reagrupados na entrada do acampamento para ouvir suas advertências: "Suspeitamos de atividades terroristas dentro do acampamento. Vamos encontrar os combatentes do EI que se infiltraram e seus cúmplices."
 

Tradutor: UOL

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