O que restou de uma cidade líbia que foi dominada pelo Estado Islâmico

Louis Imbert

  • Mahmud Turkia/ AFP

    Soldado das forças líbias passa ao lado de um tanque em Sirte

    Soldado das forças líbias passa ao lado de um tanque em Sirte

Em frente à mesquita Ribat de Sirte, três combatentes salafistas das forças líbias que lutam contra a organização Estado Islâmico (EI) disputam uma partida de futebol. Só se ouvem eles ali, com suas vozes baixas e gargalhadas breves, o barulho de suas sandálias contra o cascalho, bem como alguns tiros esporádicos de armas automáticas. Por trás do muro branco da mesquita, a esplanada da praça Naga se estende, deserta. O front fica ali perto, e junto com ele os snipers do EI. Do minarete da mesquita Ribat, os combatentes da katiba (brigada) Jezira têm uma visão irrestrita sobre o último pedaço do centro da cidade onde as forças do EI estão acuadas: os prédios altos, brancos e apertados dos distritos 1 e 3.

A "wilaya", a província líbia do EI, já é passado. A batalha pela retomada de Sirte, cidade natal de Muammar Gaddafi, abandonada à própria sorte pelos revolucionários de 2011, e cujo controle o EI assumiu no primeiro semestre de 2015, está terminando em uma lenta operação de limpeza, rua por rua. Há inúmeras minas escondidas nos escombros. Algumas dezenas de jihadistas, 200 no máximo, segundo vários oficiais, estão entrincheirados em uma área com cerca de 2 km2. Segundo estimativas americanas, eles eram cerca de 6 mil na Líbia antes da batalha, um número que os combatentes consideram exagerado.

"Sirte acabou. Eles estão cercados, sitiados, não têm mais nenhum apoio e não queremos prisioneiros. Eles devem morrer", diz Mohammed al-Gasri, porta-voz da operação de reconquista de Sirte, que obedece ao governo "de união nacional" de Trípoli. Um corredor havia sido aberto na semana passada pelos combatentes, durante dois dias, para deixar as famílias dos jihadistas saírem. Nenhuma passou sob as duas bandeiras brancas que haviam sido enfiadas em dois contêineres, atravessando o bulevar da orla, diante de um mar tão azul que parecia estranho, indiferente ao caos dilacerado da cidade.

No domingo (28), as brigadas anti-EI lançaram uma nova ofensiva, que pretendia ser a última e que não foi decisiva, mais uma vez. Elas perderam 48 homens, quase 200 ficam feridos em dois dias, tendo afirmado na segunda-feira à noite que estavam prestes a assumir o controle do distrito 1. Bombardeios americanos haviam precedido e acompanhado seu avanço. Esse apoio aéreo, com 92 ataques desde o dia 1º de agosto, foi lançado por Washington a pedido do governo de Faiez Sarraj, apoiado pelas Nações Unidas. Na última semana, helicópteros AH-1W Super Cobra da marinha americana, mais preciso em zonas urbanas densas, se juntaram aos bombardeiros.

Seus ataques visam posições defensivas, centrais de comando, snipers isolados e os "dogmas", que são os carros e caminhões blindados que um condutor, candidato ao suicídio, procura explodir entre os combatentes. Eles se tornaram a principal arma do EI em Sirte: mais de 50 já explodiram, segundo Al-Gasri, desde o dia 12 de maio, data do início da ofensiva governamental, a maioria durante essas últimas semanas. Antes do ataque de domingo, os combatentes viram cerca de vinte deles prontos para uso.

Fora da zona sitiada, células jihadistas isoladas ainda colocam bombas na rota de Misrata, base de apoio dos combatentes, situada 250 km a oeste. Nós cruzamos com uma delas: esticados alguns minutos antes sobre o asfalto, seus fios detonadores que brilhavam ao pôr do Sol haviam se deslocado para o acostamento, provavelmente por ação do vento.

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"Não sinto mais nada"

A ajuda americana mudou a dinâmica da batalha, delineando uma saída. Desde o dia 12 de maio, os combatentes haviam retomado cerca de 200 km de costa em torno de Sirte, e 20 km de terras adentro que o EI controlava no auge de seu poder. As forças anti-EI, em sua maior parte originárias de Misrata, reúnem brigadas experientes --ativas desde a revolução de 2011-- mas fragmentadas em micro-unidades de voluntários com níveis variados de independência. Elas souberam avançar em terreno aberto e através de zonas urbanas às vezes deixadas quase sem guarnição. Mas em junho elas se depararam com as defesas que o EI teve mais de um ano para preparar em Sirte.

A vitória anunciada custou caro: mais de 450 mortos desde o início da operação e mais de 2.200 feridos. Os ataques são planejados de acordo com a capacidade de atendimento do hospital de Misrata, onde somente o setor de emergências se encontra em estado de funcionamento, com 120 leitos. As autoridades militares precisam enviar os feridos mais graves para a Tunísia, Malta, alguns deles para a Itália, antes de lançarem um novo ataque.

Para matar o tempo em Sirte, os combatentes visitam os vestígios do "emirado" do EI. O centro da hisba, a polícia do EI, foi retomado na quarta-feira (24). Os combatentes examinam as 13 celas da inteligência interna, instaladas na antiga sede do regime gaddafista, com paredes cheias de pichações. Algumas delas são dramáticas (""Não sinto mais nada""), outras são absurdas, como o slogan hip-hop em inglês: "Thug life" (algo como "vida bandida"). As casas que o EI reservava para as mulheres de seus combatentes, em um bairro chique do sul da cidade, provocam risos e pichações obscenas.

Perto do quartel-general da hisba, um membro da operação encontrou, em um caderno rasgado, dois rascunhos de cartas de uma mulher da Nigéria, "Oum Toussour", redigidas em inglês com uma letra caprichada. Ela dera à luz recentemente. Seu marido, "Hassan Albana", estava na prisão, segundo ela. No dia 26 de abril de 2016, ela implorou para que um homem lhe fornecesse uma moradia decente. É impossível saber se ela se juntou voluntariamente ao "califado", como ela dá a entender em seu texto, ou se trata de uma imigrante, capturada como "algumas dezenas"" de outras na rota para a Europa, para oferecer mulheres aos combatentes estrangeiros, observa Mohamed el-Gneidi, oficial de inteligência das forças anti-EI.

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"Sem concessões políticas"

Em um outro caderno descoberto perto do QG da hisba, uma anglófona, "Oum Shahid", copiou lições de árabe e de religião, incluindo uma oração para sua velhice. Uma centena de homens, imigrantes, também teriam sido recrutados para combater, segundo a mesma fonte. Essa batalha assinala de fato o fim do "emirado" jihadista, mas não o do EI na Líbia. Oficiais de alto escalão da organização jihadista conseguiram fugir da cidade no início da ofensiva, segundo Mohamed el-Gneidi. Centenas de combatentes fugiram para os vilarejos do sul e para o deserto. Militantes tunisianos já passaram a fronteira, acredita Ibrahim Beitalmal, chefe do conselho militar de Misrata.
 
"Eles não conseguirão criar uma nova Sirte", afirma Mohamed el-Gneidi, "mas eles têm células dormentes em toda a Líbia: a nova fase dessa guerra serão atentados e ataques suicidas". Há jihadistas combatendo atualmente em Benghazi, a oeste. As autoridades militares de Misrata acreditam que sua cidade agora é um alvo prioritário do EI, ainda que difícil de penetrar, assim como a capital Trípoli, onde o governo de Faiez Sarraj só possui um domínio relativo desde sua instalação, no mês de março.

Os comandantes de Misrata garantem que não farão pressão sobre Sarraj para obter ganhos políticos de sua vitória contra o EI. Eles se definem como as forças armadas que obedecem às ordens desse governo. "Mas o sangue derramado em Sirte não os levará a fazer concessões políticas para as outras facções líbias, sobretudo as forças de Khalifa Haftar", general nomeado para o comando do Exército pelo Parlamento em rivalidade aberta com o governo Sarraj, acredita Mattia Toaldo, pesquisador do Conselho Europeu das Relações Internacionais.

Enquanto o Parlamento instalado no leste, em Tobruk, se recusou no dia 22 de agosto a dar sua confiança a Faiez Sarraj, Khalifa Haftar ameaça bombardear os terminais do "crescente petroleiro", por onde transitam 40% do petróleo líbio exportado. Assim, o fim do "emirado" do EI não resolveu nada da guerra civil iniciada no decorrer do verão de 2014, que hoje está a um passo de voltar a se incendiar.

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Tradutor: UOL

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